O que Jung disse e viveu de maneira tão solitária (como todo visionário) está sendo visto por tantas outras pessoas bem rapidamente. Vamos às frases:
“O mito da encarnação necessária de Deus (...) pode ser entendido como o confronto criativo do homem com os opostos e a síntese deles no eu: a completude de sua personalidade (...). Essa é a meta (...) que integra significativamente o homem no esquema da criação e, ao mesmo tempo, dá sentido a ela”. C. G. Jung, in Memórias, Sonhos, Reflexões.
As seguintes passagens são de Edward Edinger, sempre em "A Criação da Consciência":
“A história e a antropologia nos ensinam que a sociedade humana não pode sobreviver por muito tempo, a menos que seus membros estejam psicologicamente contidos num mito central vivo. Esse mito proporciona ao indivíduo uma razão de ser. (...) E quando a minoria criativa e intelectual está em harmonia com o mito predominante, as outras camadas da sociedade seguem sua liderança, chegando mesmo a poupar-se de um confronto direto com a questão fatídica do sentido da vida.
É evidente para as pessoas reflexivas que a sociedade ocidental já não possui um mito viável, operante. De fato, todas as principais culturas mundiais aproximam-se, em maior ou menor grau de um estado de carência de mitos. O colapso de um mito central é como o estilhaçamento de um frasco que contém uma essência preciosa: o líquido se derrama e se escoa, sugado pela matéria indiferenciada à sua volta. O sentido se perde. Em seu lugar, reativam-se os conteúdos primitivos e atávicos. Os valores diferenciados desaparecem e são substituídos por motivações elementares de poder e prazer, ou então o indivíduo expõe-se ao vazio e ao desespero. Com a perda da consciência de uma realidade transpessoal (Deus), as anarquias interna e externa dos desejos pessoais rivais assumem o poder.
(...)
“É a perda de nosso mito continente que está na raiz de nossa atual angústia individual e social, e nada, a não ser a descoberta de um novo mito central, vai resolver o problema para o indivíduo e para a sociedade. De fato, há um novo mito em formação, e C. G. Jung tinha uma aguda consciência desse fato. Certa vez, um analista junguiano teve o seguinte sonho:
“Um templo de amplas dimensões estava em processo de construção. Até onde eu podia ver – à frente, atrás, à direita e à esquerda – havia um número incrível de pessoas construindo pilastras gigantescas. Também eu estava construindo uma pilastra. O processo total de construção estava em seus primórdios, mas as fundações já estavam lá, o restante do edifício começava a erguer-se, e eu e muitos outros trabalhávamos nele.
“Este sonho foi contado a Jung que fez o seguinte comentário: “Sim, você sabe, esse é o templo que todos construímos. Não conhecemos as pessoas porque, pode acreditar, elas constroem na Índia, na China, na Rússia e por todo o mundo. É a nova religião. Sabe quanto tempo vai demorar até que esteja construída? ... cerca de seiscentos anos” (in Max Zeller, The task of the Analyst – Psychological Perspectives, primavera de 1975).
Esta passagem realmente me arrepia e me emociona muito. O texto de Zeller é de 1975, mas Jung disse isso com tranqüilidade e clareza muito antes, pois ele morreu em 1961!
Edinger escreveu tudo isso na década de 1980. Mas Jung se deu conta da carência do mito, e da crise do homem moderno (conforme nos relata em Memórias, Sonhos, Reflexões) logo após a publicação do seu livro “The Psychology of The Uncounscious”, em 1912. Vislumbrou seu novo mito ao visitar os Índios Pueblo, em 1925, no sudoeste dos Estados Unidos, e cristalizou a formulação do novo mito de modo mais explícito, ainda em 1925, quando viajou pela África.
Edinger continua:
“Jung foi um homem-marco. O homem-marco é o primeiro a experimentar e a articular integralmente uma nova forma de existência. Desse modo, sua vida assume um significado objetivo, impessoal. Torna-se um paradigma, a vida prototípica de uma nova era e, por conseguinte, exemplar. (...)
“Uma característica notável do novo mito é a sua capacidade de unificar as diversas religiões atuais do mundo. Ao encarar todas as religiões em atividade como expressões vivas do simbolismo da individuação, isto é, o processo de criação da consciência, lança-se uma base autêntica para uma verdadeira atitude ecumênica.
“Pela primeira vez na história, dispomos agora de uma compreensão do homem tão abrangente e fundamental que pode ser a base da unificação do mundo – primeiro religiosa e culturalmente e, no devido tempo, politicamente. Quando indivíduos em número suficiente forem portadores da “consciência da completude”, o próprio mundo se tornará completo.”
Bom... é verdade que depois que re-descobri tudo isso, tive que voltar ao texto do primeiro artigo e modificá-lo novamente (o texto não termina nunca!) e, ainda por cima, “tive que” fazer esse, pois não consegui deixar de compartilhar a alegria que senti ao ler estas palavras e ver como andamos rápido dos anos 1980 para cá, e como estas palavras são tão mais claras hoje em dia!!!
É sincrônico recuperar esta leitura tantos anos depois, nesse momento presente em que vivemos a urgência da transformação da consciência.
12/02/2009
Isabela Bisconcini é Psicóloga Clínica e Consteladora Sistêmica. Terapeuta EMDR. Terapeuta Floral, Reiki II, NgalSo Chagwang Reiki, AURA-SOMA. Deeksha Giver. Dedicou-se por 25 anos ao estudo da psicologia budista e prática do Budismo Tibetano. Participou do Centro de Dharma da Paz desde 1988, quando Lama Gangchen Rinpoche o fundou. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui. |
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