Ode ao Gato onde há o ódio ao Gato

Ode ao Gato onde há o ódio ao Gato
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Vi no "Fantástico" os cadáveres de muitos gatos, postos em fila no Passeio Público, atestado silencioso de uma matança brutal. Fiquei pensando no tanto que escuto sobre gatos. Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.

Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam, o só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis. Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há o ódio e temor?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele, e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é Zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige. Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas comporta-se como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como uma ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas exigentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali", "saiu" ou "sei lá onde o gato se meteu". Não é isso! Precisamos aprender a "ler" porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir. O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato! Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho. Lição de religiosidade sem ícones. Lição de requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada.
O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo Mistério à disposição do homem.

Arthur da Távola
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-- Veja os comentários da época

8/8/2011 4:39:34 PM - Os gatos são terapeutas que temos em casa. Eles nos mostram de uma maneira objetiva o que temos dificuldade de enxergar em nós mesmos. Eles ensinam a medida certa de dar e receber. Com gatos do lado você aprende que é um ser Divino e pode muito, desde que pratique o amor incondicional. Amo esses seres que Deus colocou em nosso mundo para nos ajudar a encontrar o rumo de casa.

8/7/2011 10:59:14 PM - Impressionante como, no decorrer da leitura, conseguimos identificar vários aspectos existentes em uma relação gato-homem. Sou fascinada por todos os aspectos destes animais e é claro como podem ser carinhosos e fiéis quando a relação existe com confiança.

8/7/2011 10:24:59 PM - Simplesmente lindo! Me emocionou... Minha gatinha é minha vida, minha filhinha! Te amo Cesca!!!

8/7/2011 12:59:12 AM - Mc Gatinha, Meu presente de anjo, eu me sinto honrada pelo seu amor, pede colo, reclama da terrinha diferente, tem ciumes, enxerga minhas tristezas, preenche minha solidão. Mas, eu nunca a tinha visto por este ângulo, parabéns ao privilegiado que descreveu maravilhosamente que por ser leve demais tem um amor tão profundo, obrigada!

11/4/2009 10:54:55 PM - Perfeito!!!! Sempre leio e aprecio os artigos deste site, mas nunca comentei sobre, mas, hoje não resisti. Simplesmente a mais pura verdade, os gatos, seres lindos de muita luz...

11/4/2009 8:02:38 PM - Lindo texto, eu tenho uma gato desde quando ele tinha 2 meses, hoje está com 17 anos, é companheiro, fiel, independente, bravo, carinhoso, e conversa comigo todos os dias, sei o que ele quer e ele também sabe o que quero, é incrível essa cumplicidade...amei tudo o que está escrito, esses animais são realmente misteriosos e nos ensinam muito...bjs...NAMASTÊ!!!

11/4/2009 6:49:59 PM - Conhecido e maravilhoso texto, mas sempre oportuno! Amo também meus gatos, os que estão comigo e os que se foram (quase sempre por mortes violentas) já que as pessoas que os odeiam os ferem maldosamente. Mas, observar a personalidade dos gatos encanta-me desde criança. Sempre os tive como amigos fidelíssimos e sempre procurei ter o mesmo apreço por eles. Amo e me delicio em partilhar com eles meus segredos... São amigos afáveis e fiéis, além de elegantes, sensuais e misteriosos.

11/4/2009 12:58:01 PM - Conhecia este artigo há algum tempo e adorei vê-lo num programa mais abrangente, pois se lerem com compreensão verão como o assunto é profundamente terapêutico. Um terapeuta ou o psicólogo terá profundo entendimento se o cliente gostar ou não gostar de um gato. Eu amo!

11/4/2009 9:48:24 AM - FANTASTICAMENTE ESCRITO... TENHO ESTES SENTIMENTOS PELOS MEUS GATOS OS QUE JÁ FORAM E OS QUE ESTÃO AQUI... SÃO CRIATURAS MISTERIOSAS NA MEDIDA EM QUE NÃO OS ENTENDEMOS...

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