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Os mortos-vivos
por Renato Mayol

Os mortos-vivos

Reconhecer os mortos-vivos exige preparação e muita coragem, pois quando os véus que embaçam a visão interior são arrancados, o que mais atemoriza é a solidão, já que apesar de estarmos cercados por multidões, sabemos que não sabem e lhes contar é de pouca valia, porque a verdade sobre a aparente realidade precisa ser vivenciada como um todo e não apenas ser apreendida pelo intelecto.

Mortos-vivos são seres humanos vagando a esmo nas trevas. Indivíduos que em sua miséria precisam de algo ou de alguma coisa para amar, adorar e lhes dar um sentido para uma vida que aparentemente nenhum sentido tem. Seres concentrados em seus esforços cotidianos para ter, obter e possuir enquanto algemados à vida pelo relógio. Relógio que os escraviza na incessante busca de algo que, quando obtido, lhes dará a partida para a busca da realização de outro desejo. E enquanto esse outro desejo também não for satisfeito, ele será fonte de ansiedade. Porém, tão logo seja satisfeito, levará o desejoso crônico a um estado de tédio que será substituído novamente pela ansiedade assim que mais outro desejo venha a fechar o eterno circulo vicioso desse individuo modelo da sociedade moderna.
Aquele ser estupidamente feliz em sua autocomiseração e em sua corrida contra o relógio, que veste com tolo orgulho a medalha de viciado em trabalho com que o ambiente consumista o galardoa, enquanto furtivamente a rotina mantém sua mente ocupada e sua consciência embotada.

Indivíduos voando e farfalhando feito mariposas alucinadas em volta de um clarão qualquer. Cada um a seu modo buscando ser assimilado pela sociedade. Todos em um turbilhão, sem parar para pensar, pois senão poderiam acordar do seu sono profundo e perceber que tudo não passa de alienação. O melhor mesmo é encontrarem um grupo social qualquer em que possam ser mais um ninguém para se sentirem alguém. Encontrar um rebanho, pois no rebanho é só seguir os líderes, os fortes, os formadores de opinião, ou seja lá o que for. Pois até “formadores de opinião” são necessários para que haja um direcionamento daquelas que os mortos-vivos julgam serem as suas próprias escolhas.

Afinal, é tão bom ficar na frente da televisão vendo e revendo programas e filmes que mostram ação, reação, sangue, intrigas, terror e sexo. Ficar sentado, deitado ou recostado assimilando tudo isso enquanto o cérebro é incapaz de outra coisa a não ser fazer eles se comportarem como os cães de Pavlov - os cães dos reflexos condicionados. Assim, inconscientemente, são condicionados a vestir o que lhes recomendam, a comprar o que lhes vendem e a frequentar o que lhes aconselham. A sentirem emoções que querem que sintam. Emoções cuidadosamente orquestradas pelos feitores da senzala global a quem entregam, sem perceber, o seu cérebro. Dão risada quando querem que deem risada. Choram e se emocionam quando querem que chorem e se emocionem. Sentem raiva e ódio também sob encomenda. E se sentem vivos! Tão vivos se sentem que jamais se acreditariam mortos-vivos e prisioneiros. E tais prisioneiros só podem ser mantidos em relativa ordem social por meio do medo. E de fato é com medo que cumprem seu diário viver. À mercê do medo da dor, do sofrimento, das doenças. Medo dos tormentos, da fome, das guerras, dos abusos, das injustiças, das atrocidades. Medo da sempre presente morte, sem se dar conta de que a morte e o tormento eterno já se apoderaram completamente deles há tempo.

Para se darem conta da sua triste condição precisariam questionar-se e questionar as supostas verdades inculcadas em seus cérebros desde a mais tenra idade, quando não ainda em fase gestacional, levando-os a comportamentos robotizados, com seu cérebro e sua mente tornados tolerantes às religiões, aos credos ou à falta de credos, ao poder, à beleza, à fama, ao dinheiro, às posses, a desejos de satisfação dos desejos, ao ódio, à inveja. E é somente quando o indivíduo ousar mergulhar em si e questionar ideias implantadas e reconhecidas anteriormente como próprias, que a máquina descobrindo-se máquina vai começar a se rebelar contra a sua condição.

Mas, para isso, é necessário coragem. Coragem para refutar os absurdos que, de tão repetidos, acabam transformando-se em verdades inquestionáveis. Coragem para empreender a viagem ao centro do centro do próprio ser - viagem que leva à percepção de outra dimensão e de outra realidade. É quando o morto-vivo percebe que a única saída para a verdadeira vida é pela própria transubstanciação. É a água tornando-se vinho; o metal pobre transformando-se em nobre. E, quando finalmente vivo e livre, poderá continuar no mundo, mas já não pertencerá ao mundo. Então, e só então, esse mundo, esse Labirinto Azul, se tornará o seu estranho objeto de observação e de reflexões sobre o nascer, a vida e... o depois.

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Autor: Renato Mayol   
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Publicado em 18/11/2009

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