A Escolha Nossa de Cada Dia

A  Escolha  Nossa de Cada Dia Autor Pri Gaspar - [email protected]
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O que vivemos hoje é resultado de nossas escolhas no ontem. Disso, pouca gente duvida! O que vamos tratar aqui não é da relação aparentemente óbvia de causa e efeito, mas sim das inúmeras possibilidades de escolha que temos hoje à nossa disposição e da conseqüente frustração pelas opções preteridas. O século XX transformou a humanidade com o avanço tecnológico, a produção inovadora de bens de consumo e o estímulo desenfreado ao ter para ser. É como se o sujeito necessitasse consumir para existir.

Se, anteriormente, a alimentação pouco variava de um dia para o outro, hoje sequer daríamos conta se fôssemos experimentar as novidades que são lançadas diariamente. Isso sem considerar a massificação da informação alardeada que convence o sujeito da “necessidade vital” de um produto que acabou de ser criado, como se a humanidade não existisse há milhares de anos sem tal produto.

Em todas as áreas as opções são inúmeras. Entrando em uma loja de CDs e DVDs nos frustramos por não poder ouvir todas as músicas, tampouco assistir a todos os vídeos. Ainda que houvesse dinheiro para adquirir todos os que desejamos, haveria tempo suficiente para desfrutá-los? Assim, o mundo contemporâneo nos oferece inúmeras opções, pressupondo uma sucessão de escolhas diárias e a conseqüente frustração ou sensação de perda pelo que não foi escolhido.

Escolhendo um entre dois produtos temos a sensação de perda pelo que não escolhemos. Ao escolher um entre vinte produtos, a sensação de perda é proporcionalmente maior! Dessa forma, as inúmeras opções que teoricamente deveriam aumentar o grau de satisfação acabam por aumentar o grau de frustração do sujeito consumidor.

Isso não ocorre apenas no que se refere ao consumo de bens, mas também nas escolhas profissionais. Como se não bastassem as dúvidas típicas dessa fase da vida, o excesso de oferta torna a escolha um processo mais complicado. Cada vez existem mais tipos de cursos profissionalizantes e de nível superior, tornando o processo de escolha profissional, atualmente, bem mais difícil se comparado às gerações anteriores.

O mesmo ocorre nos relacionamentos: freqüentemente na clínica surgem questões relacionadas à escolha do parceiro, tanto no atendimento piscoterápico individual como no de casais. Como parte integrante de uma sociedade que privilegia o consumo rápido e o descartável, as relações afetivas têm hoje seus valores corrompidos, o que certamente interfere nas escolhas.

Diante de uma dificuldade de relacionamento, muitas vezes a escolha é o rompimento, já que existem inúmeras opções de parceiros no trabalho, na academia, nos sites de relacionamentos ou na danceteria mais próxima. Em outros casos, o relacionamento não é rompido, mas um ou ambos sentem-se frustrados diante da grande oferta de parceiros potenciais, sempre com a idéia de que com outra pessoa poderia ser melhor.

Diante de um mundo real em que a oferta é muitas vezes maior que nossa capacidade de absorver, consumir e consumar, resta-nos a questão: como lidar com as escolhas sem se frustrar, ou como lidar com a frustração de forma menos angustiante?

É importante tomar consciência de que como seres humanos temos desejos ilimitados, porém sérias limitações para a possibilidade de satisfazê-los. Disso resulta ser imprescindível aprender a tolerar a frustração, algo esperado em um processo de amadurecimento psicoemocional. Para crianças pequenas, abrir mão de um desejo é extremamente difícil. Dentro de uma loja de brinquedos o desejo é por todos eles; como escolher apenas um? Com o passar dos anos espera-se que a criança comece a tolerar a frustração, aprenda a adiar o prazer, bem como realizar escolhas e abrir mão. Observa-se, contudo, que o processo normal de amadurecimento está prejudicado pela excessiva oferta de opções e pela pressão de consumo. É importante que crianças e jovens aprendam que a felicidade não é resultado do que se tem; tampouco a infelicidade é medida pelo que não se tem.

A opção preterida com freqüência é idealizada, ganhando ares de perfeição, em contraste com a dura realidade escolhida. Muitas vezes isso ocorre com relação a emprego e vida afetiva. Muitos pacientes trazem histórias de arrependimento por escolhas passadas, com imenso pesar, em frases como: "Se eu tivesse aceitado aquela proposta..."; "Se eu não tivesse pedido demissão..."; "Se eu tivesse me casado com fulano...". Por trás dessas frases existe a fantasia de que a vida poderia ter sido diferente; de que o sujeito estaria sem os problemas atuais se tivesse tomado outro rumo no passado.

Na realidade, qualquer escolha traz inúmeras conseqüências e, dentro dessas conseqüências, encontramos sempre alguns aspectos positivos e outros nem tanto. Dessa forma, qualquer que fosse a escolha existiriam dificuldades e problemas reais, ainda que não fossem os mesmos problemas. Contudo, o sujeito arrependido idealiza a escolha não realizada como se esta fosse isenta de problemas! A escolha real passa a ser vista como algo que não deu certo, uma má escolha. E a vida que não teve passa a ser fantasiada como um mar de rosas!

Quando estamos diante de escolhas difíceis, passando por um momento crítico de nossas vidas ou se está muito difícil tolerar as frustrações diante das pequenas escolhas diárias, é importante reconhecer a necessidade de auxílio profissional e buscar um psicoterapeuta capacitado.

Texto revisado por Cris



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Sobre o Autor: Pri Gaspar   
Priscila Gaspar é Psicanalista, Terapeuta de Regressão e Terapeuta de Casais, com especialização em Sexualidade Humana. Atende em psicoterapia individual e de casal.Contato: [email protected]
E-mail: [email protected]
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Atualizado em 07/05/2008



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