Falta de Tempo - a psicopatologia da sociedade moderna

Falta de Tempo - a psicopatologia da sociedade moderna

Autor Instituto AION - celso@aions.com.br

 Um dos males mais prejudiciais ao indivíduo nos tempos atuais é o estresse provocado pela pressa. Há décadas os indivíduos vêm desfrutando cada vez menos de tempo livre e de lazer, ao contrário do que se esperava com a aplicação das tecnologias, que hoje, permitem às pessoas inúmeras facilidades de redução do trabalho manual, deslocamento para o local do trabalho e de comunicação. Parece que estamos sendo tragados pela urgência que estas mesmas facilidades estão gerando, como um efeito colateral não desejado.


O paradoxo do tempo é que, na tentativa de nos libertarmos da pressão da nossa luta diária, estamos nos afogando cada vez mais em um mar de compromissos “inadiáveis”.


O telefone celular, que agora transcendeu totalmente a questão da simples comunicação de voz, é um dos exemplos mais notáveis desse paradoxo. Não sabemos mais exatamente o que é este aparelho. Antigamente, o telefone era bem definido e servia a um único propósito: telefonar. Hoje, podemos, com ele, fotografar, filmar, enviar mensagens, agendar compromissos, fazer pagamentos diversos, consultar o saldo no banco e, às vezes, falar com as pessoas.


A dependência psicológica que as pessoas possuem com relação a estes aparelhos é um fenômeno sem precedentes na história do consumo. Desde a última década, ele deixou de ser um produto de luxo para se tornar uma necessidade imperiosa e foi um divisor de águas na história do consumo, cuja característica básica é transformar artigos sofisticados, antes acessíveis a uma pequena parcela da população, em verdadeiras commodities. As tecnologias parecem, em vão, tentar solucionar este dilema moderno.


A arquitetura interior dos automóveis está cada vez mais sofisticada, e é difícil de se acreditar que alguém possa dirigir um carro com todas as parafernálias criadas para o motorista. Este novo “ambiente” serve para o motorista se descontrair na hora do rush.


O tempo perdido no trânsito está se tornando um excelente mercado. Nos Estados Unidos, companhias de táxis estão buscando um novo diferencial competitivo, propiciando mais entretenimento e conforto para seus clientes, com o uso de aparelhos DVD, internet móvel, sons de altíssima qualidade e sistemas de telefonia. Como verdadeiros “escritórios” ambulantes, estes automóveis oferecem um alívio para os estressados passageiros.


Mas é no ambiente de trabalho que as atividades relacionadas ao tempo assumem uma dimensão importante, onde a rapidez significa eficácia. Toda a linguagem administrativa, neste sentido, apela para a questão da pressa e da urgência, como o aumento da performance e da redução de desperdícios e custos. Frases de gerentes angustiados, como aquela famosa: “Isso é para ontem”, denotam a primazia da execução de tarefas urgentes em detrimento a outras formas de desempenho. Estas linguagens administrativas violam as mais básicas regras de convivência entre as pessoas e dificultam a construção de pensamentos mais criativos.


Em seu livro, O indivíduo na organização, Chanlat frisa:  “Talvez seja uma das lições mais interessantes que o Japão nos tenha ensinado; o segredo do sucesso de um dirigente reside na arte de saber perder tempo, para ganhá-lo.” 


O estresse pode causar danos algumas vezes irreversíveis, ou desencadear outros graves problemas psicológicos e até mesmo físicos. A nossa sociedade tem usado o tempo como uma forma de insanidade que criamos com a nossa ilusão. A urgência associada ao uso dos meios de comunicação vem desconfigurando a nossa percepção e concepção mental sobre o tempo e, consequentemente, sobre o espaço. A instantaniedade das informações obtidas nesse hipertexto eletrônico está construindo uma nova linguagem, fato que trará conseqüências imprevisíveis para a nossa cultura.


A noção de espaço também está sendo redimensionada, na medida em que o tempo vem adquirindo outro significado nas relações humanas.Como esse fenômeno está sendo produzido dentro de um novo linguajar, teremos, inevitavelmente, uma nova concepção de conduta humana onde cada indivíduo deverá se reconstruir nessa nova “mídia” onde esse meio funcionará como uma rede social onde cada indivíduo vai interagir e existir ao mesmo tempo em que a própria rede é construída.
(Texto extraído do livro Liderança Criativa- de Celso Cardoso)



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Atualizado em 20/11/2008



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