Pra quem perdeu um bichinho...

Pra quem perdeu um bichinho...
Autor Mariana Viktor - [email protected]
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Parece trivial quando um deles se vai – era só um cachorro, um gato, um passarinho, você tem outros ou arranja outro facinho. Até uma parte da gente parece pensar assim, constrangida com a própria pequena dor. Imagine se fosse um filho, um parente próximo, se fosse gente.

É verdade. Não tem como comparar e então não comparo.

E, não comparando, me permito sentir essa pequena-grande dor irremediável.

A Naftalina partiu anteontem. Sem velório, sem atestado de óbito, sem pêsames, sem caixão. O corpinho nós mesmos enterramos e nem os outros, os que ficaram, se entristeceram - ela não se dava bem com os da mesma espécie. Só eu e o Marco, que sabemos o quanto e como e o que ela significou, significa.

Nos quase 15 anos em que convivemos diariamente – ela gata branca, eu gente - ela nunca me disse nada além do miado, eu nunca miei em resposta algo que ela pudesse compreender na língua dos gatos, mas pelo olhar eu sabia, ela sabia. Eu sei, ela sabe. É aquele saber mútuo que a linguagem universal do amor conhece tão bem e não passa pelo intelecto, mas pelo sentir.

A Naftalina é a nona. Antes partiram o Robin, a Luli, a Não Sei, o Dorgo, a Titânia, a Preta, a Pipoca e a Coruja – uns cães, outros gatos. A cada perda, um mistério. A cada mistério, um ganho.

Quando o Robin foi decretado incurável, eu não quis deixá-lo internado. Porque nessas horas, junto com tudo que fizemos por orientação veterinária para mantê-lo confortável, hidratado, alimentado, faltaria estar pertinho, em casa. Nem vou contar aqui o que aconteceu nesses 15 dias de despedida porque foram muitas coisas, foi um ritual de passagem não só pra ele, mas pra nós. Alguns segundos antes de partir, mesmo fraquinho ele esticou a pata para tocar uma gatinha que passou esse dia ao lado dele. E foi-se assim, em paz, a pata descansando sobre ela. No dia seguinte, o Luiz, veterinário homeopata que o acompanhava, nos disse que sonhou que o Robin corria feliz e saudável pelo gramado. Nós vimos a mesma coisa de olhos fechados, enquanto mandávamos amor e luz pra ele. Se aconteceu mesmo ninguém sabe - só o Robin, que certamente sentiu todo o amor que enviamos do jeito que pudemos, afagando o pelo de sua alma.

Esse sentir todo, mútuo, bicho-gente, é o grande mistério, conhecido apenas pelos que convivem com esses pequenos seres que são menos que filhos e mais que animais de estimação (quem entende entenderá o que digo).

É um ganho porque a pequena dor irremediável mostra que a vida é maior do que a morte, que o amor que damos é maior que o amor que nos é tirado de repente, que o olhar diz mais que qualquer palavra.

Quando se perde alguém amado que é gente não acontece assim. A dor irremediável é grande demais, talvez por muito tempo (às vezes pra sempre) a morte pareça maior do que a vida. E há palavras, de todos, quase sempre mais palavras que olhares.

Faz umas semanas, a Naftalina já estranha – porque não parecia doente -, o Marco foi espiá-la pelo vão da porta do quarto da TV e viu um gato cruzar nos seus pés. Quando olhou pra ver quem era, não era ninguém. Ele olhou pra trás, pros lados. Ninguém ali. Ele viu com o rabo dos olhos, com a visão periférica. Era um gato grande, nem branco nem preto.

Quem sabe era o Robin, que veio preparar a Macaquinha – apelido da Naftalina – pra viagem?

Porque quem disse que a vida não é maior do que a morte?




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Conteúdo desenvolvido por: Mariana Viktor   
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