A Casa Comum

A Casa Comum
Autor João Carvalho Neto - joaoneto@joaocarvalho.com.br
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O assunto dos cuidados com a Terra e com todo o ecossistema em que vivemos surge periodicamente mas parece que sem a constância e profundidade necessárias. Talvez as demais crises que nos assolam acabem deslocando nossa atenção para questões que parecem mais urgentes e imediatas mas não menos graves.

Acabei de ler recentemente o livro de Leonardo Boff  “Ética e Espiritualidade, como cuidar da Casa Comum” que somou ainda mais com minha convicção: nosso maior problema ainda persiste no egoísmo, e vivemos regidos por um sistema socioeconômico que incentiva esse egoísmo sendo, portanto, patológico.

A equação é fácil. O sistema quer vender e para isso insufla, de uma forma sub-reptícia, a ideia da importância própria que gera a vaidade de ter mais e o egoísmo de reter só para si.

Neste livro, Leonardo Boff faz sua reflexão usando por base a Encíclica Laudato Si’ – Sobre o cuidado da Casa Comum, escrita pelo Papa Francisco em 2015, e sentencia que nós já estamos consumindo e poluindo mais do que nosso planeta pode suportar. Na verdade, necessitaríamos de 1,6 planetas Terra para manter nosso atual estilo de vida.

E por que não nos damos conta disso? Por que, apesar de todos os avisos, continuamos consumindo e poluindo cada vez mais? Simplesmente porque só conseguimos olhar para nossos próprios umbigos. Nosso egocentrismo alcançou um nível de patologia tão comprometido que não enxergamos muito além de nossas necessidades de satisfação pessoal, negligenciando até as ameaças que, no tempo, acabarão nos alcançando.

O orgulho e o egoísmo são duas expressões do nosso psiquismo que se fizeram presentes, em nosso processo evolutivo, porque eles serviram como instinto de preservação de nossa individualidade psicológica emergente no desenvolvimento filogenético, como o instinto de preservação da vida biológica que está presente entre os animais, para manter as espécies. Quando ascendemos à condição humana passamos a ter outra vida além da orgânica, que é nossa vida mental, onde se registram nossa individualidade, quem somos, nossas memórias e afetos, enfim nossa história. Isso é o que faz com que eu seja João e você Maria ou Paulo ou José.

Então era preciso que esta estrutura psíquica também fosse preservada como uma individualidade, onde o orgulho se presta à autovalorização de quem se é.

 Contudo, esse orgulho deveria vir sendo amadurecido, pelas experiências da vida, para uma maior sublimação, na medida em que nos sentimos mais seguros e autoconscientes, estando mais aptos a interagir de forma sistêmica. Na verdade, aprofundando nossas reflexões, já foi de uma pequena melhora desse estado egocêntrico que se constituiu a civilização. Na medida em que fomos percebendo, desde as épocas imemoriais da pré-história, que precisávamos do outro para sobreviver, passamos a abrir mão de nosso desejo narcísico, prepotente e absoluto para aceitar o desejo do outro, criando um espaço de convivência comum, onde alguns desejos se frustram, pelo limite que o espaço do outro nos impõe, mas onde o ganho secundário da cooperação faz com que sejamos mais fortes unidos para a sobrevivência.

Esta a história psicológica de construção de nossa civilização.

Bem, chegamos então na gravidade do problema. O sistema socioeconômico que nos rege, tal qual ele se apresenta, faz o caminho contrário, exacerbando nosso desejo para aumentar o consumo, sem levar em consideração os prejuízos pessoais, coletivos e ambientais que acarreta.

Leonardo Boff vem então e fala do consumo na justa medida, fala de um sistema mais humanizado e ecológico, onde não haja espaço para diferenças tão absurdas, onde a miséria e a pobreza sejam erradicadas, e onde a vida seja preservada em todas as suas manifestações, porque não somos peças separadas dentro de um meio ambiente; somos criaturas vivas provindas da vida que se constituiu a partir do próprio planeta, tendo nele um sistema complexo do qual fazemos parte e interagimos, recebendo de volta tudo aquilo que nele lançamos.

Se continuarmos a lançar lixo tóxico, material e mental, é nesse sistema poluído que iremos comer, beber e respirar até que a morte finalize com todas as expressões de vida. Caso não acordemos para essa realidade, possivelmente nos faltará realidade para nós e nossos filhos sobrevivermos. E essa decisão tem que ser tomada em uma atitude global mas também em cada ato nosso, em cada decisão de comprar, de gastar, de descartar e poluir.

Ou tornamos nossa vida mais consciente e sistêmica, ou talvez acabe não sobrando vida para se preservar.
Texto Revisado


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Conteúdo desenvolvido por: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Astrólogo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal"
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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