Não porque o tempo nos falte, mas porque o relógio que usamos para medir a vida quase nunca é o nosso.
Na psicanálise, o Outro não é apenas alguém concreto, mas o lugar de onde vêm as normas, os ideais, as expectativas e as promessas de felicidade. É a partir desse lugar que aprendemos a contar o tempo:
idade certa para amar, prazo para realizar, momento adequado para “chegar lá”.
O problema é que, quando nos medimos pelo relógio do Outro, a conta nunca fecha.
Sempre parece que algo faltou, que chegamos tarde, que perdemos o momento exato, mesmo quando estamos, de fato, vivendo.
Essa lógica produz uma vida transformada em planilha:
o que eu já deveria ter conquistado, o que os outros já têm, o que esperavam que eu fosse.
Não se trata mais de desejo, mas de desempenho.
O desejo não obedece ao tempo cronológico, nem aos ideais do Outro. O desejo tem seu próprio ritmo, feito de desvios, repetições, interrupções.
Quando tentamos forçar a vida a caber no tempo do Outro, o que surge não é realização, mas culpa. Culpa por não corresponder, por não acompanhar, por não sustentar a imagem esperada.
Nem todo atraso é falha.
Às vezes, é apenas o sinal de que não estamos vivendo no tempo do Outro e isso, longe de ser um problema, pode ser o começo de uma vida mais própria.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui. |
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