Quando Ana Suy diz que não amamos quem cabe no nosso ideal, ela está justamente desmontando a fantasia romântica de que o amor seria encontrar alguém que preenche uma lista, que confirma quem acreditamos ser ou quem gostaríamos de ser. Isso, psicanaliticamente, está muito mais perto do amor narcísico: amar no outro aquilo que sustenta o próprio ideal.
O ponto decisivo vem depois: amamos quem nos faz perder o ideal.
Ou seja, amar, de fato, implica uma experiência de queda. O outro não confirma a imagem que temos de nós mesmos; ao contrário, ele a fura. Ele introduz falta, desorganiza, desloca. Em termos lacanianos, o amor toca o real: aquilo que não se encaixa, que não se deixa idealizar completamente.
Por isso o amor é sempre um pouco desconcertante. Ele exige abrir mão da fantasia de controle, da ilusão de completude, da ideia de que sabemos exatamente quem somos e o que queremos. Amar é consentir em não ser mais o mesmo.
E talvez seja aí que essa frase incomoda tanto: porque ela lembra que amar não é se proteger é se implicar. Não é confirmar o eu, mas aceitar que o eu vacile.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui. |
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