Primeiro, vamos simplificar os personagens:
A lebre representa o modo impulsivo, veloz e autoconfiante, alguém que confia em habilidades inatas e subestima o outro.
A tartaruga, por sua vez, encarna a persistência, a constância e, simbolicamente, um ego mais sólido, ainda que lento.
Na leitura psicanalítica, a lebre pode ser vista como uma configuração narcísica, sua rápida superioridade e o cochilo no meio da corrida sugerem a armadilha da grandiosidade e da autossabotagem. Já a tartaruga demonstra um self(2) que sustenta o desejo passo a passo, sem se deixar abalar pela pressa externa ou pela humilhação.
Se aproximarmos a fábula do conceito de tempo psíquico, surge uma leitura rica. A lebre vive no tempo do instante, busca a vitória rápida, espera gratificação imediata e, ao sentir-se segura, abandona o trajeto. A tartaruga, no entanto, opera no tempo da perseverança, o trabalho repetido, o esforço contínuo e a tolerância à frustração. Para a psicanálise, essas duas temporalidades são modos de lidar com o desejo e a ansiedade, onde uma se afoga na pressa e no excesso de confiança, enquanto a outra administra a ansiedade pela via da rotina e do preparo. Assim, a vitória da tartaruga não é apenas moralidade popular, é uma demonstração prática de que um ego que tolera atrasos e pequenas derrotas pode, paradoxalmente, chegar mais longe.
Há também um elemento de “performatividade social” na fábula. A lebre ri, provoca, pede plateia, ela precisa do olhar do outro para validar sua superioridade. A tartaruga, desprovida do espetáculo, envia um gesto mínimo, o desafio e o cumprimento do trajeto. Em termos transferenciais, a lebre exige reconhecimento e reage mal à perda de prestígio já a tartaruga se apoia numa ética do fazer que independe do aplauso. Do ponto de vista terapêutico, isso aponta para intervenções que trabalham a tolerância à frustração, a construção de disciplina interna e a diminuição da dependência do espelho social.
Um aspecto interessante é a ambiguidade moral da fábula, não é uma apologia à lentidão, nem uma condenação definitiva da velocidade. Autores e ilustradores ao longo do tempo reinterpretaram a história, às vezes enfatizando que a vitória é resultado da arrogância da lebre, outras vezes, problematizando a figura da tartaruga como excessivamente conivente com um status quo que exige sacrifício. Essa pluralidade de leituras é saudável, os contos de fada, e as fábulas, funcionam como espelhos múltiplos onde cada leitor projeta dilemas próprios.
Na prática clínica, a lição mais proveitosa talvez seja a chamada “ética do passo a passo”, pequenas ações repetidas, compromisso com a rotina e a diminuição da busca ininterrupta por validação externa. Trabalhar com pacientes que vivem no modo-lebre envolve nomear a pressa como defesa, por trás da corrida pode haver medo do fracasso, insegurança existencial ou intolerância ao tédio. Com pacientes no modo-tartaruga, o trabalho pode ser outro reconhecer conquistas, evitar a estagnação mascarada de prudência e abrir espaço para pequenas acelerações quando saudáveis.
A fábula da lebre e da tartaruga continua potente porque fala de modos de ser diante do tempo e do desejo. Não nos pede uma escolha simplista entre velocidade e lentidão, mas convida a olhar para como cada um de nós administra forças internas, a pressa do narcisismo e a firmeza da perseverança. No divã, como na corrida, a questão não é só chegar em primeiro lugar, mas aprender a andar na própria medida, reconhecendo quando a pressa é defesa e quando a lentidão é estratégia.
Paz e luz.
1 – Esopo foi um narrador da Grécia Antiga, tradicionalmente associado à criação de diversas fábulas que atravessaram séculos. Embora pouco se saiba com certeza sobre sua vida, seu nome tornou-se sinônimo de histórias curtas que utilizam animais para transmitir reflexões sobre comportamentos humanos e dilemas morais.
2 – O termo “self” é usado na psicologia para se referir ao senso de identidade que a pessoa desenvolve ao longo da vida — a maneira como ela se percebe, se organiza internamente e sustenta suas próprias escolhas, desejos e limites.
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