Quando duas pessoas se unem, não são apenas “duas”, são dois mundos, duas histórias, duas bagagens psíquicas. Do ponto de vista psicanalítico, somos regidos por um complexo aparelho mental, onde o inconsciente desempenha um papel de mestre de cerimônias invisível.
O que nos atrai, inicialmente, não é puramente a beleza ou o senso de humor do outro. É, muitas vezes, o que Freud(1) chamaria de repetição de um padrão, a busca por preencher as lacunas deixadas pelas nossas primeiras e mais significativas relações, geralmente com nossos pais ou cuidadores. Inconscientemente, procuramos alguém que nos ajude a terminar o que ficou inacabado na infância. A pessoa amada torna-se, então, o palco onde tentamos reencenar, e quem sabe, finalmente resolver, nossos conflitos mais antigos. Isso é o “contrato inconsciente”.
O problema é que, agindo nesse modo automático, acabamos projetando no parceiro nossas expectativas, medos e até mesmo as falhas de quem nos amou primeiro. Esperamos que o outro nos salve, nos complete, nos cure. E aí reside a armadilha.
Um Relacionamento Consciente é aquele em que ambos os parceiros decidem quebrar esse contrato inconsciente. Significa reconhecer que o outro não está ali para curar suas feridas. Ele está ali para ser um espelho e um testemunho do seu próprio processo de cura e crescimento.
O cerne dessa mudança é a responsabilidade. Em vez de perguntar “Por que você fez isso comigo?”, a pergunta passa a ser: “O que na minha história e na minha psique está sendo ativado por essa sua atitude?” É um movimento de volta para si, mesmo no meio de um conflito a dois.
A honestidade aqui é brutal e libertadora. Ela exige que você olhe para a sua sombra, os aspectos de si mesmo que você rejeita ou esconde. No calor da discussão, a sombra do outro se manifesta, mas ela só ganha poder porque toca na sua. O parceiro consciente não aponta o dedo, ele pega o espelho e diz: “Olhe, o que você está vendo em mim é, em parte, algo que está precisando ser visto em você.”
Isso não é fácil. Envolve abrir mão do papel de vítima e abraçar a ideia de que a dor da relação é, muitas vezes, a dor de um crescimento que está sendo evitado.
O Relacionamento Consciente transforma o par romântico em uma parceria de evolução. O objetivo primário deixa de ser apenas a felicidade e passa a ser o crescimento.
Imagine um casal, Ana e Pedro. Sempre que Ana fica brava, ela se fecha. Pedro, por sua vez, odeia o silêncio e insiste para que ela fale, o que a faz se fechar ainda mais. No modelo inconsciente, eles se atacam: “Você é fria!” e “Você é invasivo!”. No modelo consciente, eles param e, com o tempo e talvez com o apoio da terapia individual ou de casal, reconhecem:
- Ana: “Quando me fecho, estou repetindo o mecanismo de defesa que usei na infância para me proteger de uma mãe que me sufocava. Minha necessidade é de espaço.”
- Pedro: “Quando te pressiono, estou revivendo o abandono que senti quando meu pai ia embora. Minha necessidade é de conexão.”
A parceria se torna um laboratório onde as feridas são expostas em um ambiente de relativa segurança, não para serem reabertas, mas para serem, finalmente, tratadas.
Um relacionamento consciente não é um conto de fadas sem problemas. É, na verdade, um relacionamento cheio de problemas, mas com a disposição de encará-los de frente, como desafios para aprimorar o caráter e aprofundar a alma.
É um convite para sairmos do script, para deixarmos de lado a expectativa mágica de sermos “completados” e abraçarmos a beleza complexa de sermos dois seres inteiros, caminhando lado a lado. É um compromisso contínuo com a verdade, a verdade sobre quem somos, sobre o que buscamos e sobre o que precisamos curar. E é essa verdade que, paradoxalmente, torna o laço mais forte, mais maduro e, sim, muito mais amoroso. Afinal, só conseguimos amar verdadeiramente o outro quando paramos de usá-lo como um tapa-buraco em nossa própria história e o vemos como ele realmente é: Um parceiro corajoso nesta jornada de autodescoberta.
Paz e Luz.
1 – Sigmund Freud (1856-1939) foi o fundador da psicanálise e uma das figuras mais influentes do pensamento moderno. Médico austríaco, revolucionou nossa compreensão da mente humana ao propor a existência do inconsciente e desenvolver conceitos como repressão, transferência e projeção. Sua teoria sobre a estrutura da personalidade (id, ego e superego) e os estágios do desenvolvimento psicossexual transformaram profundamente a psicologia e influenciaram diversos campos do conhecimento, da arte à filosofia.
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