Na Ordem Rosacruz AMORC, há, em determinados graus de seus ensinamentos, exercícios práticos voltados ao desenvolvimento de capacidades psíquicas. Entretanto, antes de chegar a essas práticas, é interessante observar que existe todo um cuidado por parte dos instrutores em alertar para um perigo que pode acompanhar o buscador espiritual: o desenvolvimento de capacidades parapsíquicas motivado por interesses egóicos, como a vaidade, o desejo de poder ou a necessidade de sentir-se superior aos demais.
Quando me refiro à capacidade parapsíquica, estou falando das faculdades por meio da qual o ser humano percebe informações ou vivência de fenômenos que transcendem os meios sensoriais do corpo físico. Existe uma ampla variedade de fenômenos tradicionalmente investigados pela Parapsicologia, entre eles a telepatia, a clarividência, a precognição e a psicocinese. Entretanto, uma das capacidades que mais vejo ser, por vezes, “ostentada” nas redes sociais diz respeito às experiências fora do corpo, popularmente conhecidas como “viagem astral”. Em alguns casos, a experiência deixa de ser apresentada simplesmente como objeto de investigação ou desenvolvimento pessoal e passa a ser utilizada como uma espécie de credencial de superioridade espiritual.
Naturalmente, considero importante falarmos a respeito dessas questões, relatarmos nossas vivências e experiências e, inclusive, compartilhá-las com outras pessoas, sobretudo quando o objetivo é promover a reflexão e o aprendizado mútuo. A questão que procuro colocar em pauta, entretanto, está justamente no limite, muitas vezes sutil, entre o compartilhamento saudável de uma experiência e sua utilização como instrumento de afirmação do ego, de vaidade ou de suposta superioridade espiritual.
Essa questão me faz recordar o mito do Anel de Giges (modernamente representado pela saga "O Senhor dos Anéis", apresentado por Platão em A República, que reflete justamente sobre a dimensão ética daquele que adquire um poder. Neste mito, um homem encontra um anel capaz de torná-lo invisível e, ao perceber que pode agir sem ser visto e, aparentemente, sem sofrer as consequências sociais de seus atos, utiliza essa extraordinária capacidade em benefício próprio: aproxima-se da rainha, participa da morte do rei e, por fim, apodera-se do reino. O anel funciona, assim, como uma espécie de teste moral, pois levanta uma questão fundamental: como agiríamos se possuíssemos um poder que nos permitisse ultrapassar determinadas limitações impostas pela vida cotidiana? Fazendo um paralelo com a chamada viagem astral, podemos formular uma provocação semelhante: o que a maioria das pessoas faria se pudesse vivenciar experiências fora do corpo de maneira plenamente lúcida e voluntária? E, indo além, o que aconteceria se essa capacidade estivesse ao alcance de uma parcela significativa da população?
Essa mesma reflexão pode ser estendida à telepatia, à clarividência e a outras supostas capacidades parapsíquicas. Quais seriam, afinal, as verdadeiras motivações daqueles que desejam desenvolvê-las? Seria a vontade de relatar experiências nas redes sociais, conquistar reconhecimento ou notoriedade, ou simplesmente sentir-se “mais poderoso”, “mais especial” ou espiritualmente superior aos demais? Ou, ao contrário, haveria uma motivação genuína voltada ao conhecimento, à investigação, ao autoconhecimento ou mesmo ao auxílio ao próximo? Talvez a questão mais importante não seja apenas perguntar se tais capacidades podem ser desenvolvidas, mas compreender por que desejamos desenvolvê-las e o que faríamos com elas caso realmente as possuíssemos.
Nesse sentido, o “anel” do buscador espiritual — representado pelas capacidades parapsíquicas que existem de maneira latente em todos nós — poderia funcionar simbolicamente como o Anel de Giges. Afinal, a aquisição de uma capacidade parapsíquica não transforma necessariamente aquilo que somos; ao contrário, pode ampliar as possibilidades de expressão daquilo que já existe em nosso interior, sejam virtudes ou fragilidades. Diante disso, talvez a pergunta mais importante não seja se somos capazes de desenvolver tais faculdades, mas se estamos interior e moralmente preparados para lidar com elas. Será que estamos preparados para isso?
Uma pessoa poderia interpretar uma experiência extrafísica com cautela e humildade, reconhecendo: “Experimentei algo que ainda não compreendo plenamente”. Outra, porém, movida pelo orgulho, poderia interpretar exatamente a mesma vivência de maneira completamente diferente: “Isso demonstra que sou espiritualmente superior aos demais”. O fenômeno vivenciado pode ser semelhante — uma experiência fora do corpo —, mas a maneira como cada indivíduo o interpreta e o incorpora à própria identidade pode ser profundamente distinta. É justamente nesse ponto que surge o perigo: aquilo que deveria servir como oportunidade de investigação, autoconhecimento e ampliação da consciência pode acabar se transformando em alimento para a vaidade e para o próprio ego que a busca espiritual, em princípio, deveria ajudar a compreender e transcender.
Concluindo, penso que o centro de toda essa reflexão está na maturidade, entendida como um processo de desenvolvimento pelo qual todos passamos e que envolve aspectos fundamentais como humildade, compaixão e, sobretudo, autoconhecimento. O problema não está necessariamente em desejarmos desenvolver nossas capacidades parapsíquicas; esse desenvolvimento pode até surgir como consequência natural do próprio processo de ampliação da consciência. A dificuldade começa quando essas capacidades se transformam em alimento para a vaidade, em instrumentos de afirmação do ego ou em uma maneira de demonstrar alguma suposta “superioridade espiritual”. Retornando à metáfora de Giges, poderíamos dizer que o buscador espiritual imaturo preocupa-se principalmente em encontrar o anel e descobrir os poderes que ele pode proporcionar; o buscador mais maduro, porém, procuraria primeiro compreender quem ele se tornaria depois de encontrá-lo. Afinal, talvez mais importante do que possuir o anel seja estar preparado para não ser possuído por ele.
Alexei Bueno
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