É possível ser feliz num mundo infeliz?

É possível ser feliz num mundo infeliz?
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Não podemos calar a pergunta: como ser feliz num mundo infeliz? Mais da metade da população mundial é sofredora, vivendo abaixo do nível da pobreza. Há terremotos, tsunamis, furacões, inundações e secas.

No Brasil apenas 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. No mundo 1125 bilionários individuais possuem riqueza igual ou superior à riqueza do conjunto de paises onde vive 59% da humanidade. O aquecimento global evocou o fantasma de graves ameaças à estabilidade do planeta e ao futuro da humanidade. Diante deste quadro, é possível ser feliz? Só podemos ser felizes junto com outros.

Importa reconhecer que estas contradições não invalidam a busca da felicidade. Ela é permanente embora pouco encontrada. Isso nos obriga a fazer um discurso critico e não ingênuo sobre as chances de felicidade possível.

Na reflexão anterior sobre o mesmo tema, enfatizamos o fato de que a felicidade sustentável é somente aquela que nasce do caráter relacional do ser humano. Em seguida, é aquela que aprende a buscar a justa medida nas contradições da condição humana. Feliz é quem consegue acolher a vida assim como ela é, escrevendo certo por linhas tortas.

Aprofundando a questão, cabe agora refletir sobre o que significa ser feliz e estar feliz. Foi Pedro Demo, a meu ver, uma das cabeças mais bem arrumadas da inteligência brasileira, que entre nós melhor estudou a “Dialética da Felicidade”(3 tomos, 2001).

Ele distingue dois tempos da felicidade e nisso o acompanhamos: o tempo vertical e o tempo horizontal. O vertical é o momento intenso, extático e profundamente realizador: o primeiro encontro amoroso, ter passado num concurso difícil, o nascimento do primeiro filho. A pessoa está feliz. É um momento que incide, muito realizador, mas passageiro.

E há o momento horizontal: é o que se estende no dia a dia, como a rotina com suas limitações. Manejar sabiamente os limites, saber negociar com as contradições, tirar o melhor de cada situação: isso faz a pessoa ser feliz.

Talvez o casamento nos sirva de ilustração. Tudo começa com o enamoramento, a paixão e a idealização do amor eterno, o que leva a querer viver junto. É a experiência de estar feliz. Mas, com o passar do tempo, o amor intenso dá lugar à rotina e à reprodução de um mesmo tipo de relações com seu desgaste natural. Diante desta situação, normal numa relação a dois, deve-se aprender a dialogar, a tolerar, a renunciar e a cultivar a ternura sem a qual o amor se extenua até virar indiferença. É aqui que a pessoa pode ser feliz ou infeliz.

Para ser feliz na extensão temporal, precisa de invenção e de sabedoria prática. Invenção é a capacidade de romper a rotina: visitar um amigo, ir ao teatro, inventar um programa. Sabedoria prática é saber desproblematizar as questões, acolher os limites com leveza, saber rimar dor com amor. Se não fizer isso, vai ser infeliz pela vida afora.

Estar feliz é um momento. Ser feliz é um estado prolongado. Este se prolonga porque sempre é recriado e alimentado. Alguém pode estar feliz sendo infeliz. Quer dizer, tem um momento intenso de felicidade (momento) como o reencontro com um irmão que escapou da morte. Como pode ser feliz (estado) sem estar feliz (momento), quer dizer, sem que algo lhe aconteça de arrebatador.

A felicidade participa de nossa incompletude. Nunca é plena e completa. Faço minha a brilhante metáfora de Pedro Demo: ”a felicidade participa da lógica da flor: não há como separar sua beleza, de sua fragilidade e de seu fenecimento”.

* Leonardo Boff é teólogo, escritor, professor emérito de ética da UERJ e membro da Comissão da Carta da Terra.

Fonte: Envolverde/O autor

(www.ecoeacao.com.br)
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-- Veja os comentários da época

12/3/2008 8:01:03 PM - É interessante como a vida nos presenteia com situações que aparentemente parecem ser fruto do acaso. Ao ler esta mensagem, me Reportei ao drama ocorrido em Santa Catarina, com as enchentes. Muitos estão em estado de total miséria e perda. Como me comportar diante da balança que pende de forma desigual? Estamos todos interligados. A alegria de uns corrobora para o mesmo sentimento em outros e vice-versa. O importante nesta hora é querer que esta tristeza seja um estado de alma passageiro e não uma condição perpétua. Enquanto há vida, há esperança e felicidade. Por isso, é necessário que todos estejam envolvidos de forma a enviar ondas de otimismo e paz para nossos irmãos, com o objetivo de encontrar verdadeira paz em nós mesmos. A melhor forma de se fazer isso é através da inocência de uma criança... Digo isso porque hoje fiz trabalho voluntário em uma ONG e a simples oração de uma criança que estava realmente triste com o que aconteceu me impactou. Ela simplememte disse: Papai do Céu, ajude-os!

12/3/2008 10:58:22 AM - Muito bom.... O mundo está precisando mesmo de mudança. O ser humano é muito individualista. Precisamos pensar no bem de todos.

11/29/2008 7:27:19 PM - Como dizia Charles Chaplin: A felicidade completa é algo que está muito próximo da tristeza, mas na minha experiência de vida só vejo possibilidade de encontrar a verdadeira felicidade através do amor ao próximo e principalmente o amor à natureza, respeitando sempre, sem destruição e convivendo em harmonia com os animais.

11/27/2008 11:00:34 AM - Sim, realmente as mentes mais eruditas conseguem descrever muito bem a FELICIDADE!! Mas como se chega lá? Ou de que forma podemos desenvolver o Fator Felicidade? E isto me preocupa! Há dados da Secretaria de Saúde do Estado aqui do Sul, que mostram que a saúde mental da população está muito ruim. E tenho também como referência meus atendimentos clínicos no meu consultório de Terapia com Florais. E percebo que a população tá no Limite da sanidade!!! Como podemos falar em Felicidade quando temos uma criança que a cada 10 horas, ou menos, é abusada e molestada ? O Estado/Governo tem que se fazer presente urgentemente e os pais têm que ser presenciais na vida das crianças.

9/3/2008 10:09:23 PM - Leonardo Boff, costumo ler seus livros e artigos. O que acaba de mencionar sobre as catastróficas condições do mundo, a pobreza, a inanição, a riqueza mal distribuída, não nos deixa imune à compaixão. Mas, me perdoe a franqueza. A felicidade é uma condição estritamente espiritual, mental e emocional. Mesmo diante de adversidades e infortúnios, uma boa consciência é capaz de suplantar todos os sofrimentos. Ser feliz é uma boa condição do coração. Ao contrário, ESTAR feliz, sugere apenas momentos de alegria, o que é uma grande ilusão e espúria. Talvez minha opinião pouco importa, mesmo porque não sou uma intelectual, não tenho a madureza própria da sua idade, mas possuo um pouco da sabedoria do NOSSO PAI, embora tenha muito que aprender. Afinal, todos aqui na terra são aprendizes do GRANDE CONSTRUTOR DO UNIVERSO. Desejo muita luz em sua vida.

9/3/2008 11:55:18 AM - Soberba a escrita de Sr. Leonardo Boff, de forma realista entremeada de poesia, paulatinamente, ele trilha de forma contundente os meandros dessa tão delicada questão acerca da felicidade.
Um tema tão antigo, mas cada vez mais atual e que pede reflexões e novos arranjos de resolução frente a um mundo cada vez mais exigente, complexo e contraditório.
Frente a essa realidade, o artigo de Boff traz certa luz frente a uma paisagem de escuridão que muitas vezes nos constitui em seres dotados de radicalismos, ora entre uma cegueira alienante e egoísta de uma tal felicidade total, ora numa postura não menos cega também, carregada de pessimismo, conformismo e amargura.
Definitivamente, o caminho do meio é talvez a única regra que ainda se faz pertinente para a busca do equilíbrio e da poesia que requer todo e qualquer projeto humano. E em se falando do tema felicidade, o `ser` e `estar` é a exata medida do meio da trilha, do caminho do meio.

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