O Cérebro e a busca por segurança - Parte I
Autor Rosemeire Zago
Assunto Almas GêmeasAtualizado em 19/03/2026 16:36:53
Existe algo fundamental sobre o funcionamento do cérebro que poucas pessoas conhecem. Como diz Rick Hanson, o trabalho mais importante do nosso cérebro é nos manter seguros. Essa necessidade não é apenas psicológica; ela é biológica.
O cérebro está constantemente avaliando o ambiente para responder a uma pergunta silenciosa e inconsciente que garante a nossa sobrevivência: 'Estou seguro ou em perigo?'. Isso acontece muito antes de qualquer pensamento consciente.
O Caminho da Segurança - Sistema Nervoso Autônomo (S.N.A.)
O cérebro é como um computador que controla todas as funções do corpo, e o Sistema Nervoso Autônomo funciona como uma bússola interna. Ele recebe mensagens de perigo através da amígdala, que as repassa ao hipotálamo. Este, como um centro de comando, envia sinais para o resto do corpo determinando a reação necessária. Isso é totalmente involuntário, como tirar a mão de uma panela quente instintivamente.
Esse sistema é dividido em dois ramos principais que buscam o equilíbrio:
1. Sistema Simpático (Luta ou Fuga): Vai te preparar para lutar ou fugir. Ativa o corpo para a ação. O coração acelera, a respiração fica curta e os músculos se contraem. É o acelerador.
2. Sistema Parassimpático (Descanso e Digestão): Acalma e relaxa. Permite que o corpo relaxe, recupere energias e realize funções vitais com calma. É o freio do sistema.
3. O S.N.A. é responsável por nossas funções automáticas: frequência cardíaca, digestão, temperatura, respiração, e serão essas as principais funções que terão mudanças ao primeiro sinal de perigo.
O que o sistema simpático faz? Ação. Te coloca em movimento, lutando ou fugindo.
No coração, qual que é a ação para luta ou fuga? Bater bem rápido. Para que envie sangue para as extremidades e você possa correr ou fugir. Uma pessoa quando está com medo, em pânico, o coração dela dispara. Uma pessoa quando toma um susto, o coração dispara. Para quê? Acelera para lutar ou sair correndo. A mesma coisa acontece com o pulmão, quando você corre, sua respiração vai ser rápida e curta. Vai respirar mais rápido para receber mais oxigênio.
O que o sistema parassimpático faz? Relaxa.
Quando em relaxamento, o coração diminui o batimento cardíaco, a respiração fica mais profunda. Mindfulness, respiração profunda e lenta, meditação, relaxamento, técnicas de regulação emocional, yoga, ouvir música (que diminuem a frequência cerebral), ativam esse sistema.
É nesse estado que saímos do pânico, do estresse crônico, do burnout.
É muito importante você entender a importância do parassimpático. Aprender a acioná-lo é o caminho para sairmos do medo, pânico, esgotamento e do estado de alerta que aciona o simpático. Afinal, o relaxamento real só acontece quando o nosso cérebro finalmente processa que estamos em segurança.
Para você não confundir um com o outro: O sistema parassimpático para o simpático. Ele para a ação, ele para a luta ou fuga, ele para uma ação. Ele sinaliza que é hora de relaxar.
Veja na imagem abaixo as principais funções de cada estado:
Veja que interessante
Digestão: quando você acaba de comer e seu estômago está cheio, o que você tem vontade? Dormir, descansar. Para que a digestão aconteça, é preciso que o Parassimpático esteja ativo, porque é ele quem vai estimular a digestão.
Mas se você está nervoso, ansioso, se sentindo em perigo, quem vai estar ativo? O Simpático. E o que ele faz? Ele inibe a digestão, porque o corpo prioriza a sobrevivência.
A comida fica parada no seu estômago, podendo trazer desconforto e dor. Entende porque não devemos ter conversas difíceis ou estressantes durante as refeições, como reuniões de trabalho ou discussões em família?
Intestino: por que pessoas ansiosas, estressadas, têm muita constipação intestinal? Por que estão na maior parte na luta ou fuga - simpático ativado, que impede os movimentos peristálticos. Como melhorar? Para estimular o peristaltismo e ter um intestino saudável e regular, é preciso ativar o parassimpático, ou seja, relaxar.
Bexiga: para urinar precisamos que o sistema parassimpático - relaxamento, esteja ativo. Simpático: Relaxa a bexiga (isso significa que ela se expande para guardar mais xixi). Parassimpático: Contrai a bexiga (isso significa que ela se aperta para expulsar o xixi).
A enurese noturna (xixi na cama) muitas vezes acontece porque, quando uma criança vive sob estresse ou medo constante - simpático ativo, esse corpo exausto relaxa de forma tão profunda para tentar se recuperar que o cérebro "desliga" a vigilância. O xixi escapa não por "preguiça", mas porque o sistema nervoso está desregulado e cansado demais para sinalizar a bexiga. Assim, o xixi na cama pode ser um sinal silencioso de que a criança não se sente segura.
Sono: dormir exige que o sistema parassimpático esteja ativo. O que isso quer dizer na prática? Para ter um sono reparador, o seu corpo e o seu cérebro precisam sentir que você está em total segurança e relaxamento.
Se você se deita preocupado, remoendo o que não conseguiu fazer durante o dia ou antecipando as tarefas do dia seguinte, o seu cérebro interpreta que ainda existe um "problema a ser resolvido". Ele mantém o sistema simpático ativado - o modo de alerta. É por isso que, mesmo exausto, você não consegue relaxar: biologicamente, o seu sistema nervoso acredita que não é seguro baixar a guarda, o que impede o mergulho no sono profundo que o parassimpático deveria proporcionar.
Sistema imunológico: O sistema simpático libera noradrenalina, adrenalina e cortisol (o hormônio do estresse). Em uma situação de perigo real, esses hormônios são vitais, mas quando são liberados por muito tempo devido ao estresse crônico, eles comprometem o sistema imune.
Isso acontece porque o corpo prioriza a energia para a sobrevivência imediata, deixando a manutenção da saúde em segundo plano. Entende agora por que é tão comum ficar gripado, ter crises de herpes ou outras inflamações, justamente quando você está muito estressado? O seu sistema de defesa foi "desligado" para que o corpo pudesse focar no alerta.
O Impacto do Estresse Crônico
Quando vivenciamos traumas e estresse crônico ao longo da vida, essas experiências comprometem o funcionamento saudável do sistema nervoso. Ele se torna desregulado, mantendo-nos presos em estados de sobrevivência.
O que isso quer dizer? O sistema perde a precisão para avaliar o que é realmente perigoso, passando a reagir de forma desproporcional. Assim, situações simples, como uma reunião de amigos ou um compromisso de trabalho, podem ser detectadas como perigo real, fazendo seu coração disparar.
Compreender esses sinais é o primeiro passo para olhar para si mesmo com mais autocompaixão. Não é que você seja assim, e vai ser sempre assim; é seu corpo reagindo contra um perigo que foi detectado e quer te proteger para te manter em segurança, ele está apenas operando sob uma lógica de proteção que se tornou rígida demais devido às experiências passadas.
Mas afinal, o que o cérebro interpreta como perigo ou segurança?
É importante saber que o cérebro não avalia apenas ameaças físicas. Ele interpreta como perigo qualquer sinal de ameaça e desproteção, desde ameaças físicas como assaltos, acidentes e desastres naturais, até feridas invisíveis como traumas, abusos, relações tóxicas, críticas sociais ou isolamento, acionando o simpático para nos proteger.
A segurança para o cérebro não é apenas a ausência de ameaça física, mas a presença de sinais específicos, como: ambientes previsíveis (um lugar organizado ou o contato com a natureza), conexões acolhedoras (como um tom de voz suave, um olhar de aceitação, um abraço, validação, necessidades emocionais atendidas) que dizem ao corpo que ele está seguro e protegido, portanto pode relaxar.
Por que a segurança é a prioridade número 1 do cérebro?
Você pode se perguntar: por que o cérebro é tão obcecado por segurança? A resposta é uma questão de sobrevivência e economia de energia. Mas o objetivo principal é nos manter vivos!
A lógica é profunda: quando o cérebro se sente seguro, ele investe energia em crescimento, cura e conexão; quando não se sente, gasta tudo na defesa. Sem essa percepção de segurança, o sistema nervoso permanece no modo defesa, impedindo que o organismo realize sua manutenção natural e recupere o equilíbrio.
No próximo artigo, daremos continuidade a esse raciocínio explorando a Teoria Polivagal de Stephen Porges. Vamos entender como o Nervo Vago atua nessa comunicação entre corpo e mente, ajudando a lançar uma nova luz sobre como nossa biologia busca o caminho para a segurança.










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