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Astrologia, Matéria e Espiritualidade


Existe um explicito desconforto, pudor, desconfiança, em alguns casos até mesmo desprezo das pessoas espiritualizadas ou trilhando algum caminho de aperfeiçoamento espiritual contra a matéria.

A matéria, o corpo, os sentidos e as sensações passam a ser assim o vilão, o diabo que desviaria ou tentaria a alma para fora de sua via espiritual.
Do lado oposto, vemos as pessoas confortáveis, em pleno gozo dos prazeres e vantagens da matéria e do corpo se arrepiando diante dos despojamentos que temem a vida espiritual exigir deles. Vêem este lado como algo chato, desprovido de interesse e prazer, austero, pobre, por pregar o abandono de tudo o que eles conquistaram e que lhes agrada tanto materialmente.

Mesmo as religiões não expressaram elas próprias muito bem as soluções para esta complexa dualidade. A começar com o próprio Cristianismo - a filosofia religiosa mais difundida no ocidente. Neste caso, muitas vezes o corpo e as sensações são apresentados como uma antítese da alma e não uma hospedeira. São o lugar do pecado e não de abrigo da alma. E, as riquezas materiais como empecilho para entrar no reino dos céus.
Espirito e Matéria são assim inconciliáveis e obrigados a conviverem às turras.

O Protestantismo – com a Reforma de Martin Lutero - inaugura uma releitura da teologia cristã. Faz as pazes com a matéria e passa a incluir os ricos entre os eleitos de Deus. Mais ainda; associa a riqueza do homem a um sinal - um signo - do olhar de Deus privilegiado sobre ele.
Os sistemas de crenças que se difundiram a partir daí - Igreja Universal, Assembléia de Deus e cia., levou esta crença ao paroxismo e seus fiéis relatam depoimentos onde expressam a recompensa de sua fé comprando uma casa, adquirindo mais dois carros, melhorando de emprego, materializando radicalmente o espiritual.
“What’s God has to do with it"? “O que Deus tem a ver com isso”?

Astrologia Matéria e Espiritualidade

A Astrologia é uma ciência milenar, uma cosmologia, uma visão de mundo ou metafísica da Tradição. É sob o olhar e a epistemologia da astrologia que vou tentar demostrar como esta ciência resolve conceitualmente a questão material e espiritual. Vou me utilizar do próprio modelo – a mandala astrológica – para tal.

Antes de mais nada existe um indivíduo. Singular, encarnado. Possuidor de um corpo que lhe provoca sensações e que lhe dá um vasto número de competências. Este indivíduo precisa subsistir e adquirir coisas e objetos para tal. Mais que isto, este indivíduo é capaz e dotado para criar instrumentos, ferramentas e para produzir coisas: artefatos, objetos – de toda ordem: utilitários, estéticos, culturais, industriais, artísticos. O ser do homem é um fazedor, um ser de produção, de interação com o mundo da matéria. Esta é uma qualidade básica, imediata e primária dele.

Produzir, fazer coisas, criar objetos, cercar-se deles, usufruir deles, ampliar os recursos de seu mundo imediato, se enriquecer, sair do estado de precariedade, onde ele se torna extremamente vulnerável, desfalcável – é quase uma segunda natureza do homem.
Assim sua segurança aumenta, seu prazer, conforto e gozo das sensações das quais ele é prodigamente dotado.

Fazer, materializar, assimilar, ganhar, reduzir os impactos das perdas, acumular, cultivar, estocar, agregar, reproduzir e finalmente enriquecer são todos talentos próprios deste estagio.
Entramos assim em pleno mundo da ecologia do ganho e da produção de riqueza para os quais o indivíduo está capacitado e dotado. E principalmente autorizado, legitimado para conquistar e usufruir e estabelecer entre ele e o mundo a sua volta uma relação de fartura, prosperidade e riqueza.

Para isto, o ponto fundamental – e é isto que chamamos de riqueza (riqueza sadia, metafísica e ecologicamente correta, não predatória) - é necessário o correto inventário de todos os recursos próprios – que todos possuem – e a integral utilização, vivenciamento e instrumentalização destes recursos pessoais – dos quais a própria personalidade é dotada.
Este é um indivíduo “rico “, o que não opera na falta, na subtração dos seus próprios recursos. A riqueza material será uma decorrência.

O segundo ponto importante é não manter uma relação predatória com a matéria: desperdício, desgaste, abuso, negligência, descaso, mau uso, prodigalidade etc, imaginando anti-materialmente e infantilmente que os recursos sejam inesgotáveis.
Um outro mandamento indispensável para se vencer na matéria é a obediência à lei da atração. A matéria atrai o semelhante: mais do mesmo. È preciso se ter algo para se ter mais daquele algo. A atitude de se zerar sempre o ganho ou de se manter em débito crônico é contrária à ecologia do ganho.

Ainda somos pobres quando não mantemos uma economia afetiva em relação a nossos pertences ou recursos. Para se ser rico é necessário prezar, apreciar, dar valor, estimar o que temos, o que é próprio nosso, o que nos pertence, senão estaremos sempre desprovidos, carentes, pobres, invejosos. Há que se encher de valor cada pequeno talento, recurso de que dispomos e erotizá-los, fazê-los participar de nossa economia afetiva. É isto que é ser ecologicamente rico.

Não há que se temer que um acúmulo material criaria automaticamente e necessariamente ganância ou excesso de apego. Dentro de uma personalidade espiritualizada este risco se esvaziaria completamente já que parte deste acumulo seria escoado nas relações de troca onde fazemos circular nossos bens. Também porque ela se encarregaria de distribuir o seu excedente para aqueles que participaram e promoveram os benefícios dela. Isto se dá no estágio seguinte – que chamamos astrologicamente de estágio 8.

Bem, esta é a parte da matéria. E a do espirito?
Precisamos agora acessar o estágio 8 – que é o eixo complementar do estagio 2 que tratamos até agora.

Aqui entramos no repertório das atitudes que são espiritualmente evolutivas quando adotadas em relação à matéria.
Compreender que existe o imaterial, a alma, o âmago que transcendem a aparência das coisas e sua forma. O que está além da forma: o conteúdo.

Não se deixar fascinar pela forma, pela aparência a ponto de ignorar ou se cegar para o conteúdo, que é o que dá vida, sentido, qualidade e peso à forma e à aparência. È o que sustenta a coisa e a torna candidata a ser imperecível e imortal, pois é imaterial e sobrevive muito além do fim da matéria. Por que é essência e não aparência. É o que sustenta e alimenta a alma quando os sentidos, o corpo, os objetos nos faltam ou simplesmente não são suficientes para nos suprir.É o que nos leva a nos recriar, reconstruir, renascer, regenerar, recuperar, tantas e tantas vezes depois de perdas, doenças, quedas, falências, abandonos e inúmeras espécies de mortes, e que volta sempre a soprar a alma e a nos fazer reviver. Se não, morreríamos no primeiro embate da vida. Isto é o espirito.

É o que nos impede a distribuir o que ganhamos, a ceder, a emprestar, partilhar, somar com alguém e fazer alianças de ganhos. É toda a parte que ganhamos e reconhecemos não ser nossa e então repassamos sob forma de salário, comissão, participação de ganhos, impostos, taxas – para que outros possam ganhar também. Com o nosso ganho. Reconhecer, agradecer e gratificar quem nos fez ganhar e participou deste complexo circuito de ganhos e benefícios é a atitude de uma personalidade em estagio espiritual evolutivo. Não estamos falando só de matéria, dinheiro ou recompensa material; estamos falando também do acervo de bens imateriais que as pessoas contribuíram para que pudéssemos adquirir como: amizade, amor, prazer, saúde, alegria, conforto e coragem, e de gratidão a todos aqueles que nos presentearam com uma cota desses preciosos bens. Estamos falando de um estoque de riquezas de bens imateriais: alegria, amizade, amor, conforto, prazer, paz, serenidade, confiança, sabedoria, entusiasmo, fé, criatividade, intuição e felicidade que animam a alma mais do que qualquer outra coisa e que de forma alguma podem ser minimizados ou subjugados aos bens materiais.

Falamos também do desapego que faz parte desta consciência de que bens imateriais não podem ser suplantadas ou subestimadas aos bens materiais - até porque é burro - porque estes são muito mais perecíveis e exauríveis. É no mínimo um mau negócio.

Outra lei importante para ser seguida por uma personalidade espiritualmente evolutiva é que não devemos nos apegar, afeiçoar, valorar aquilo que nos foi tirado, perdido, roubado, eliminado, sob pena de comprometermos toda a nossa economia afetiva. Não podemos valorizar ou dar mais afeto para aquilo que não temos ou já não temos do que para o arsenal de bens e benefícios de que dispomos. Aumentamos assim em muitos a lesão da alma e o desfalque existencial. Devemos deserotizar o que entrou no debito existencial e erotizar fartamente o que faz parte do crédito existencial. Isto é espiritual. É uma ofensa para a abundância da criação fazermos o contrário.
Faz parte do desenvolvimento espiritual de qualquer pessoa este difícil aprendizado de desapego. Repassar, dar, incluir terceiros, estender parte de nossos ganhos é um típico exercício desta virtude.

Da mesma maneira devemos estimular os outros a praticarem o mesmo – exigindo a cota, salário, comissão e a parte que nos cabe. Quando abrimos mão desta parte não estamos sendo generosos – mas predatórios – ao não possibilitar que o outro – aparentemente beneficiado – exerça a sua cota de desapego e generosidade estendendo a nós a parte que nos cabe. Não estamos assim poupando o outro, mas permitindo que ele se mantenha espiritualmente ignorante.

Da mesma forma, quando damos a alguém algo de graça, por esmola ou caridade, sem exigir nada em troca, retorno ou pagamento, estamos subliminarmente lhe dizendo que ele é pobre, não tem nada de valor que possa trocar e mantendo-o em estado de mendicância e inadimplência. Ao dar ou ceder algo de que a pessoa precisa ou pediu devemos sempre pedir algo em troca. Todo mundo tem algo para dar, nem que seja tempo e tempo pode ser um valiosíssimo bem de troca. Assim tornamos o outro rico, potente e capaz dizendo-lhe que tem algo de valor para lhe dar também. Devermos sempre iluminar o que o outro tem e possa eventualmente trocar e nunca o que lhe falta. Isto é espiritual.


Este texto é baseado no Livro da Atitudes Astrologicamente Corretas - Editora Campus.



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Marcia Mattos é é astróloga, professora e escritora do Livro da Lua (Ed. Novo Século), edição anual desde 2000, Síndromes de Plutão e Planetas Exteriores (Ed. Agora), e Vocação, Astros e Profissões (Ed. Agora).
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