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A obrigação de ser feliz


Hoje em dia vemos uma “enxurrada” de livros de auto-ajuda. Quando vamos a uma livraria percebemos um espaço grande reservado a este tema.
Por que será que tanto se escreve e se lê sobre o assunto? O quanto é válido procurar este tipo de informação?

Neste momento há grande ânsia na busca de soluções mágicas para se resolver os problemas pessoais. E não é apenas aqui no Brasil que isto está acontecendo; é um movimento mundial. Pelo menos, no nosso mundo ocidental!

Quando assistimos um “making of” de um filme qualquer, os atores, diretores, câmeramen – qualquer pessoa tenha trabalhado naquele filme – frisam sempre e, impreterivelmente, “o quanto se divertiram” ao fazer aquele trabalho, o quanto todos foram ‘profissionais’, ‘competentes’ e ‘companheiros’, passando aquela imagem de quanto foram felizes “full time” durante aquela produção.

Se uma pessoa mais desavisada assiste a este programa vai pensar: “Nossa, também quero trabalhar com isso. Meu trabalho é tão chato e monótono!”
Não conseguimos ver o ser humano ali realizando seu trabalho, vemos pessoas vivendo uma vida livre, leve e solta... e, que me soa falso e oco.

Defendo a bandeira que devemos ter uma profissão que nos realize e nos dê satisfação, pois o trabalho cotidiano, muitas vezes, é cansativo. Nem todo dia estamos dispostos ou inspirados. Não somos robôs que, quando são oito horas da manhã, ligamos um botãozinho “trabalhar satisfeito”. E, lá vamos nós, satisfeitos.

Nestas revistas, tipo “Caras”, também vemos a mesma cena se repetindo. Pessoas em festas, eventos e iates. Todos bem vestidos, sorrindo, apresentando-se bem sucedidos e felizes da vida!
Nas entrevistas sobre seus relacionamentos, todos estão com o amor de suas vidas, fazendo juras de amor eterno e vivendo no sétimo céu da felicidade. Um mês depois, na mesma revista aparece aquele mesmo casal se separando! Lemos o artigo e nos perguntamos: “Mas, o que foi que aconteceu?!” Tudo nos parece tão confuso... Não conseguimos entender como que mudaram os seus sentimentos de um mês para o outro. Quando não acontece de uma semana para a outra! Tudo tão rápido!!

Quando paramos para analisar, percebemos que as pessoas estão tão desconectadas delas mesmas e tão preocupadas com as aparências, em apresentar-se felizes, como se isso fosse uma obrigação!
A necessidade de viver o lado do absoluto prazer e da felicidade total virou obrigação, virou status.

O ser humano, desde a pré-história até o momento presente, se aprimorou bastante. O requinte aconteceu tanto intelectual quanto emocionalmente. E aconteceu numa progressão geométrica.
Na pré-história, o ser humano estava muito mais perto do animal que somos e, neste processo de “hominização”, ou seja, tornar-se homem, chegamos hoje num desenvolvimento intelectual e emocional tão elevado que houve um distanciamento da natureza, a ponto de esquecer-se que fazemos parte dessa natureza. Por isso, por exemplo, vemos nossas florestas devastadas e nossos rios poluídos.

O aprimoramento nos levou à complexidade de pensamentos e sentimentos e, consequentemente, à complexidade nas relações humanas. E não é fácil administrar, no dia-a-dia, nossas relações tão complexas!

A complexidade chegou a um grau tal, que requisita das pessoas que sua relação com a vida – pessoal ou profissional – seja mais elaborada, onde é necessário maior consciência de si na realidade em que está inserido.
Ter uma percepção mais aguçada de si mesmo, contextualizada em determinada realidade, é desenvolver a capacidade de relacionar-se com esta última como ela o é, de fato, e perceber-se como, verdadeiramente, está se sentindo no aqui e agora.

O que percebemos é, exatamente, esse medo de enxergar-se e se relacionar com a realidade, como esta se apresenta e então, vivemos no mundo da fantasia. Ou, somos a vítima e alguém ou alguma coisa é nosso algoz ou, sentimo-nos os super-homens / as super-mulheres, que nada nos pode atingir e vivemos apenas o sucesso e uma vida, simplesmente, feliz.
A complexidade traz ao ser humano todas as nuances de cores e tons de sentimentos, pensamentos e sensações. É difícil mesmo administrar todos os tons e sobretons de nossos desejos e esperanças, intercalados como uma trama de fios. E isso sendo a gente com a gente mesmo! E quando nos confrontamos com o outro na mesma situação? É um nó só!!

O requinte do ser humano pede, cada vez mais, uma individualidade claramente delimitada, com consciência de si e do outro. E este outro pode ser uma pessoa ou uma situação.
Parafraseando Jung, “nas relações, cada indivíduo tem 50% de responsabilidade sobre o que acontece na relação”.

Portanto, a “culpa” do que nos acontece não é dos outros. Não dá mais para viver na ignorância da própria vida e culpar o outro ou o azar pelo que acontece conosco.
Isto costuma assustar muito as pessoas, pois torna-se necessária maior auto-responsabilidade; assumir sua “cota” de responsabilidade – auto-responsabilidade – no que está acontecendo.
Mas, olhando por outro lado, sentimos um certo alívio, pois, então, ninguém tem culpa também. Não há culpados!
Como é isso?Quando quero achar um culpado, na verdade tenho medo que descobrir que a “culpa” da minha infelicidade é minha mesmo. Mas, como posso ser culpado da minha própria infelicidade?! Uma informação: Não há culpados, porque, simplesmente, não existe a culpa, existe responsabilidade.
Esse jogo de procurar um culpado sobre o que nos acontece, nos coloca em um labirinto, onde nos perdemos e nunca conseguimos achar a saída, pois nos torna, na verdade, impotentes sobre nossa própria vida. Da mesma forma que procuramos um Algoz para culpar; procuramos, em seguida, o nosso Salvador, para nos tirar daquela situação. E, cadê o meu poder de me tirar dali?!
Talvez seja por isso que se busca tantos livros de auto-ajuda, nossos grandes salvadores!
Se “pegamos” o que vemos na televisão e revistas como exemplos e modelos de como ser na vida, que mensagem tiramos?
“Olha, faz de conta que nada de ruim está acontecendo. Faz de conta que você está satisfeito, realizado, com o carro da moda e uma casa com decoração de revista. Faz de conta que você é feliz!”

Mostram-se felizes como se sempre tivesse sido assim, como se tivesse sido assim desde que nasceram. Mostram isso como se fosse mágico.
Mas, o problema é que não conseguimos fingir para nós mesmos por muito tempo. Até podemos fingir para o outro, usar uma bela “persona”, máscara, e sair desfilando por ai.
Mas, quando nos encontramos a sós conosco mesmos, entramos em desespero e queremos alguma poção mágica, para nos dar aquilo que assistimos os outros tendo – a felicidade.
As pessoas querem fórmulas prontas para viver e serem felizes, pois ser feliz, hoje, virou moda.
E todo mundo quer estar na moda!
Mas, viver, e ser feliz, é um processo contínuo.

No dia-a-dia, todos vivemos uma vida comum, temos momentos de maior ou menor satisfação, de maior ou menor inspiração. As situações na vida não são uma constante. Há sempre curva ascendente ou descendente. Somos seres humanos mortais e falíveis e não robôs.
O bem estar que as pessoas procuram, magicamente, é resultado de um processo de autoconhecimento, que necessita da nossa disponibilidade para conosco mesmos.

Não existe pó mágico, poção mágica nem fórmula pronta. É necessário trabalho e dedicação. É importante ter capacidade para suportar frustrações aos obstáculos que encontramos na vida e ter perseverança para superá-los.

Os livros de auto-ajuda podem ser válidos, quando tiramos dali algumas dicas de novas alternativas para se resolver algum problema ou ajudar no processo de autoconhecimento. Na verdade, qualquer instrumento pode ser válido quando usado assim mesmo – como instrumento – com seriedade e como suporte para se fazer esse trabalho hercúleo, que é o autoconhecimento.

O que vale, mesmo, é o trabalho que fazemos conosco mesmos, na busca de aprimoramento e desenvolvimento da nossa individualidade – que Jung chamou de Individuação – que só acontece através da ampliação da consciência. É desta forma que alcançaremos o verdadeiro estado de “nirvana”, ou seja, o estado de satisfação pessoal e de paz interior. Esta é, verdadeiramente, a felicidade; pois ser feliz não é uma obrigação, mas, sim, um direito nosso enquanto ser humano.


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maria
Maria Aparecida Diniz Bressani é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana,
especializada em atendimento individual de jovens e adultos,
em seu consultório em São Paulo.



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