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Por que nos distanciamos de quem mais gostaríamos de nos aproximar?


Ser empático é algo natural no ser humano: quando vemos alguém sofrendo, surge espontaneamente em nós o desejo de ajudar, simplesmente porque nesses momentos reconhecemos no outro alguém como nós e nos identificamos com ele. Mas há momentos em que essa identificação nos torna uma ameaça à nossa própria integridade. É simplesmente demais colocar-se no lugar do outro.

Quando observar o outro é forte demais, nos voltamos para nós mesmos como uma forma instintiva de sobrevivência. Não há como ajudar o outro se nos sentimos ameaçados por ele. Muitas vezes, amamos muito a pessoa que nos faz sentir ameaçados pela intensidade que ela nos provoca. Por exemplo, estar ao lado da pessoa amada quando ela está morrendo para muitos é forte demais. Se não aprendemos a respeitar nossos limites e encontrar recursos para superá-los, conter nossa empatia por quem amamos torna-se um enorme conflito que gera culpa e inadequação. Quantas vezes não nos distanciamos de quem mais gostaríamos de nos aproximar?

É importante reconhecer que tendencialmente negamos as emoções alheias quando elas nos fazem sentir incapazes de lidar com nossas próprias emoções. Se não pararmos para conhecer interiormente o que nos provoca mal-estar e como podemos lidar com isso nos tornaremos cada vez mais frios e exigentes com os outros. Pois tenderemos a controlá-los para que eles sejam ou ajam de maneira que não nos ameace. Isso explica porque as pessoas frias são muitas vezes as mais inseguras: como não confiam em si mesmas diante de sua capacidade de lidar com suas próprias emoções, preferem não senti-las.

Outra situação que gera retraimento da empatia é quando estamos num relacionamento onde as coisas não são ditas abertamente e contém uma mensagem sublimar ameaçadora. Isso nos faz sentir como se estivéssemos diante de uma armadilha na qual iremos provavelmente cair, pois o que quer que dissermos poderá ser usado contra nós. Infelizmente muitos relacionamentos funcionam deste modo. Há uma demanda mútua de ser compreendido. Um quer que o outro coloque-se nos seu lugar, sem se dar conta do quanto fazer isso é ameaçador. Qual a solução?

Em primeiro lugar, vamos ter que aprender a ter empatia por nós mesmos para então ter empatia pelo outro. Esse processo pode algumas vezes ocorrer quase que mutuamente na medida em que soubermos nos autoconsultar e nos autorregularmos. No entanto, esse domínio interno baseado no autoacolhimento precisa ser aprendido e constantemente treinado. Não nos foi ensinado a consultar nossas bases antes de nos colocarmos no lugar dos outros. Há uma obrigação moral em nossa cultura cristã de que temos que estar sempre prontos para o outro senão seremos pessoas egoístas e feias.

Na medida em que desenvolvemos a empatia iremos desenvolver a compaixão: o desejo autêntico de querer ajudar o outro a sair do sofrimento. Nesse momento, teremos a capacidade natural de nos aproximarmos dos outros sem que ele representem uma ameaça para nós. Mas, se não amadurecermos o amor, poderemos sofrer e adoecer por pura empatia. Lama Michel Rinpoche ressalta em nosso livro Grande Amor (Ed.Gaia): “Isso ocorre se não tivermos desenvolvido uma estabilidade interior baseada na sabedoria. Vai haver um momento em que não nos deixaremos mais desequilibrar pelas situações externas. Se ocorrer uma coisa boa, iremos nos regozijar, ficaremos felizes, mas não eufóricos. Se acontecer uma coisa ruim, ok, vamos lidar com isso também. Preferíamos que algo ruim não tivesse ocorrido, mas não é por isso que vamos perder a estabilidade interior. Para chegar a esse ponto, teremos que diminuir cada vez mais essa oscilação entre os aspectos bons e ruins e nos deixarmos influenciar menos pelas situações externas”.


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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