A felicidade precisa servir para alguma coisa?

A felicidade precisa servir para alguma coisa?

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 25/08/2026 17:38:05



A inspiração para este texto veio de uma ideia do professor Clóvis de Barros Filho, no livro A Felicidade é Inútil. A ideia de que a felicidade não precisa servir para nada me chamou atenção justamente porque ela toca em uma questão que, de certa forma, já fazia parte da maneira como escolhi viver.

Há alguns anos, em uma roda de amigos, começamos a conversar sobre várias bobeirinhas da vida, coisas de casal, dinâmicas com filhos... e eu cada vez mais rígido com os "jogos sociais que eu não topo jogar". Entre provocações e risadas, falei que não fico levando ou buscando minha esposa nos lugares onde ela precisa ir, pois ela tem carro, dirige bem e tem independência para cuidar da própria rotina. Falei também que não fico insistindo para minhas filhas fazerem uma refeição ou estudarem, pois elas já são grandes, foram educadas para perceber suas próprias necessidades e aprenderam a cuidar delas. Mas eu não estava falando de distância, negligência ou falta de amor, mas de uma coisa que considero muito mais importante: independência.
Foi então que ouvi um: "Então você serve pra quê?"
Essa frase me atingiu de um jeito que talvez quem a pronunciou nem tenha percebido, mas não apenas pela pergunta em si, mas pelo que ela carregava. Eu não estou neste mundo para servir a ninguém, e da mesma maneira, não espero que minha esposa ou minhas filhas estejam neste mundo para me servir!
Não considero que uma pessoa tenha de possuir alguma utilidade, para que sua presença tenha valor. Não quero que minha esposa que precise de mim para fazer aquilo que é capaz de fazer sozinha, ou filhas dependentes para tomar decisões que já aprenderam a tomar. E, principalmente, não quero que elas confundam amor com obrigação, cuidado com dependência ou vínculo com servidão.
Isso não significa que não precisemos uns dos outros em muitos momentos, precisamos pois Somos seres humanos, e a vida é construída também através dos outros, mas apenas que existe uma diferença enorme entre precisar de alguém e escolher a utilidade de alguém.
Quando minha esposa está comigo porque quer estar, isso tem um significado completamente diferente de estar comigo porque precisa de mim.
Quando minhas filhas me procuram porque querem conversar, pedir ajuda, compartilhar alguma coisa ou simplesmente estar comigo, isso vale infinitamente mais do que se me procurassem porque não conseguem viver sem minha intervenção.

Foi nesse ponto que a ideia de Clóvis de Barros Filho começou a fazer ainda mais sentido para mim. Transformamos tantas coisas em instrumentos que passamos a acreditar que tudo precisa justificar sua existência através de alguma finalidade e quando fazemos isso com as pessoas, o problema se torna ainda mais grave. Começamos a perguntar o que alguém oferece, o que alguém produz, o que alguém proporciona, o quanto alguém é necessário... Como se uma pessoa pudesse ser avaliada pela sua utilidade.
Acho que algumas das coisas mais importantes da existência são justamente aquelas que não possuem uma finalidade além delas mesmas!

Vivemos sob a ditadura do "para quê?" e parece que quase tudo precisa ter uma finalidade... Estudamos para conseguir um diploma, trabalhamos para ganhar dinheiro, ganhamos dinheiro para conquistar segurança, buscamos segurança para finalmente podermos viver bem. O problema é que, nessa lógica, o valor das coisas está sempre fora delas, o estudo vale pelo diploma, o diploma pelo emprego, o emprego pelo dinheiro, o dinheiro por aquilo que podemos comprar com ele, e assim o presente se transforma apenas em um caminho para chegar a algum lugar que nunca é agora.

Quando uma coisa é útil é porque ela serve para outra coisa!

Um veículo vale porque nos leva a algum lugar, um remédio porque combate uma doença, uma ferramenta porque realiza um trabalho... Sua utilidade está justamente em produzir algo além de si mesma.
Mas existem coisas que não precisam servir para nada, tipo, uma música, um abraço, uma conversa, uma paisagem, o prazer de estar com alguém que amamos, um momento de silêncio... Elas não são meios para alcançar outra coisa, elas simplesmente possuem valor em si mesmas. E a felicidade pertence a essa categoria!
Ninguém pergunta seriamente "ser feliz para quê?", porque a própria pergunta revela o absurdo, se a felicidade precisasse servir para alcançar outra coisa, ela deixaria de ser felicidade e se tornaria apenas mais uma ferramenta. A felicidade é perfeitamente inútil, e essa é justamente a sua grandeza. Ela não precisa produzir nada, justificar nada ou conduzir a lugar algum, basta ser vivida.

Talvez tenhamos esquecido disso porque transformamos a vida inteira em uma sequência de objetivos. Estudamos para trabalhar, trabalhamos para ganhar dinheiro, ganhamos dinheiro para ter liberdade, buscamos liberdade para aproveitar a vida, mas quando finalmente temos tempo para aproveitá-la, já estamos planejando o próximo objetivo. A vida vai sendo adiada enquanto acreditamos estar preparando as condições para vivê-la. Podemos passar anos tentando descobrir o que precisamos melhorar, corrigir ou desenvolver, como se existir fosse um projeto permanente de aperfeiçoamento.
Melhorar é importante sim, mas existe um momento em que precisamos parar de perguntar "como posso me tornar melhor?" e perguntar simplesmente "consigo estar comigo mesmo sem precisar me transformar em outra pessoa?".
Não se trata de abandonar a ambição, o trabalho ou a busca por resultados, pois precisamos de objetivos, dinheiro, conhecimento... mas nenhuma dessas coisas deveria ocupar o lugar da própria vida. O dinheiro é útil, o trabalho é útil, o conhecimento é útil, mas a felicidade não precisa ser útil.
Uma tarde tranquila não precisa aumentar sua produtividade, uma conversa não precisa gerar uma oportunidade, uma caminhada não precisa produzir um benefício, e um domingo não precisa servir à segunda-feira.
Talvez uma das maiores formas de liberdade seja recuperar o direito de fazer algumas coisas simplesmente porque queremos fazê-las, sem transformar tudo em investimento. Ler sem precisar aprender, caminhar sem precisar chegar, conversar sem precisar resolver, amar sem precisar possuir, descansar sem precisar merecer.

"A vida boa é assim, perfeitamente inútil, porque vale por ela mesma".
Clóvis de Barros

Há uma parte da existência que não precisa produzir absolutamente nada e talvez seja justamente essa parte que mais importa.
Porque todos nós, um dia, precisaremos parar. O pai que sempre resolveu tudo, a mãe que cuidou de todos, a professora que ensinou gerações, o profissional indispensável. O corpo envelhece, a força diminui e chega o momento em que já não podemos subir no telhado, consertar o carro ou resolver os problemas de todo mundo. E esse dia não pode ser o fim do nosso valor.
Se construímos nossa identidade apenas naquilo que fazemos pelos outros, o envelhecimento pode parecer uma espécie de desaparecimento. Por isso precisamos aprender, enquanto ainda somos úteis, a construir também aquilo que permanece quando a utilidade termina: afeto, amizade, presença, caráter, histórias e vínculos.

Você não é uma ferramenta. Não precisa justificar sua existência pelo que produz, pelo que conquista ou pelo quanto consegue ser útil aos outros. Um dia você poderá simplesmente parar, descansar e ser simplesmente amado.

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