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A lição


Deus me deu um tapa na cara. Muito justo por sinal. Como pai, eu, particularmente, sou contra o método de educação que se vale de uns “tapinhas educativos” para ensinar os limites para as crianças. Mas, venhamos e convenhamos, eu já não sou mais uma criança há muito tempo. E alguns adultos aprendem melhor através de uns “tapinhas educativos” mesmo.

É claro que não estou defendendo a criação de uma polícia esbofeteadora para a nossa população. Embora que muitas vezes, principalmente no trânsito, chego a acreditar que alguns motoristas “jeitosos” bem que mereceriam. Também não acho que nas faculdades, a partir de agora, aluno que não se comportar direito (acredite que isso verdadeiramente existe nas nossas faculdades) vai levar uns tapinhas do professor. Eu como professor universitário bem que me sinto tentado por essa proposta. Tampouco, estou lançando uma idéia de que nas organizações e empresas, os chefes terão à sua disposição mais uma nova ferramenta de trabalho. Nada de tecnologia, nem de informática: uma palmatória disciplinadora. Minha faceta de consultor de empresas acredita que talvez isso até desse uma impulsionada em alguns negócios e uma melhorada no clima organizacional de algumas empresas.

Estou brincando é claro. Essa estória de tapas e bofetes é apenas uma metáfora. Estou utilizando uma linguagem simbólica, uma imagem. Dando um sentido figurado para expressar uma idéia.

Descobri recentemente que é exatamente assim que Deus se comunica conosco. Isso mesmo, através de metáforas. Deus fala com cada um de nós através de uma linguagem simbólica. E os símbolos que ele utiliza são exatamente aqueles que somos capazes de entender, de acordo com nossos valores, culturas, crenças, estágio de evolução etc. Ora, vindo de Deus só podia ser perfeito mesmo. Uma linguagem universal, porém única, no nível de entendimento de cada um, para todos.

Pode reparar como todos os escritos sagrados são permeados e recheados por incontáveis metáforas. A Bíblia é um dos maiores exemplos. Adão e Eva, outro. Jesus Cristo falava por metáforas. Buda também. Os rituais das religiões são cheios de símbolos e figuras. Nos sonhos e insights, ele também nos envia mensagens através de metáforas. As vezes entendemos, outras não. Os cinco sentidos “físicos” com os quais ele nos premiou são os canais que captam, sentem e nos transmitem toda a metáfora divina que nos rodeia. Nosso corpo, por exemplo, fala conosco. Algumas pessoas ainda não aprenderam a “ouvi-lo”. É que essa comunicação é totalmente metafórica. Não se ouve com os ouvidos. Assim como tem coisas que somente podem ser vistas com os olhos da mente. Em tudo há metáfora. Em tudo há palavra de Deus. Tudo é criação Divina. Em tudo há um sentido. Se você me entende, você também já conversou com Deus. Se não está me entendendo perfeitamente, deve começar a prestar mais atenção em tudo o que ele está lhe falando, porque senão, vai terminar levando um tapa na cara, como eu levei outro dia. Metaforicamente falando, é claro.

Recentemente eu resolvi fazer uma grande caminhada. De vários dias. Apesar de muitas recomendações, decidi ir com equipamentos impróprios para o objetivo que traçara. Tênis, meias, mochila, itens de curativos, tudo errado. Desprezei conselhos de como cuidar dos calos e feridas também, e paguei caro por isso. Uma bolha que cresceu, estourou, virou ferida e infeccionou. Caminhada interrompida após 7 dias. Pude chegar ao meio do caminho, mas perdi a oportunidade de concluir o projeto como pretendia. Quando retornei para casa, pensei que voltaria para a minha vida normal. Mas a ferida era na parte debaixo do pé, e, portanto, a vida normal teria que esperar mais um pouquinho. Afinal, sem andar direito, não dá para levar uma vida normal. Mas sou paciente. Optei por tratar da ferida sem o uso de medicamentos industrializados. Tenho verdadeiro pavor de remédios. Sou adepto da medicina natural. Gosto de remédio do mato mesmo. É claro que essa opção resultou em um retardamento no processo de cura. E foram quase 3 semanas mancando. Que sofrimento!

Está compadecido de mim? Tá entendendo a metáfora da coisa até aqui? Pois esqueça, não chegamos ao final ainda. Não é tão simples assim. Mas não fique preocupado, eu também levei muito tempo para ouvir. Aliás, vá prestando bem atenção nas palavras que utilizei no parágrafo anterior. Não precisa voltar lá não, eu repetirei para facilitar o serviço: “a vida normal teria que esperar mais um pouquinho”, “mas sou paciente”, “sem andar direito, não dá para levar uma vida normal”. E assim fui acreditando, e o tempo foi passando, e fiquei bom da ferida da caminhada.Quando comecei a comemorar e a voltar para a minha vida normal, eis que me surge um visitante, não convidado. Uma larva migrans. E das brabas. Abriu uma ferida na sola do meu pé, por “coincidência” o mesmo pé que se feriu na caminhada, e começou a se alastrar. Mais uma vez, andar ficou impraticável. Vida normal, nem pensar. Nem sequer calçar uma sandália eu conseguia. Muitas dores. Um verdadeiro incômodo. Quando a gente não pode usar o pé plenamente, e tem que ficar virando ele de lado, ou pisando de ponta, outros problemas começam a aparecer, principalmente, dores musculares, dores na coluna e bolhas. Andar mancando é um verdadeiro sacrifício. Eu me sentia ridículo e achava que todo mundo ficava olhando para mim. Uma certa vergonha me invadia quando eu imaginava que as outras pessoas estavam tendo pena de mim. As vezes era raiva o que eu sentia, se imaginasse que invés de pena, estavam zombando do meu jeito de andar. Enfim, além do problema na sola do meu pé, eu também estava sofrendo de confusões de sentimentos.

Agora eu sei que você está verdadeiramente compadecido de mim. Posso até ouvir você dizendo: - pôxa, coitado do Carlos, como ele sofreu por causa do pé. Mas tenha calma, estamos quase chegando lá. Uma coisa eu posso lhe dizer com certeza, Deus não sentiu pena de mim não. E eu não merecia mesmo.

Um certo dia, no meu trabalho, quando eu estava lá totalmente invadido por aquela sensação incômoda, afinal já eram quase 5 semanas sem uma “vida normal”, Deus resolveu mandar o seu recado. Eu estava com um pé no sapato, e o outro no chinelo. Isso piorava o meu modo de andar e provocava muitas dores, pois o sapato era mais alto do que a sandália, de modo que eu andava pendendo de um lado para o outro, forçando músculos que não tinham sido criados para aquela envergadura. Nós não fomos projetados para andar empenados. Eu era paciente para usar os remédios naturais e esperar a lenta recuperação do meu próprio organismo, desprezando dessa maneira, séculos de estudos científicos e de evolução da medicina. Mas, naquele momento iluminado, eu perdi a paciência. Quando tive que me levantar mais uma vez para ir beber água, e as dores me fizeram lembrar do meu estado deficiente, perdi definitivamente a paciência. Percebi através da minha visão lateral que não havia nenhum colega de trabalho próximo a mim. Eu estava a uma distância segura de todos para poder soltar um resmungado. E então desabafei e soltei as cachorras, bradando de forma contida e esforçando-me ao máximo para não ser ouvido por ninguém: - Que saco! Não agüento mais andar como um inválido! Nesse momento eu me virei e ela estava ali, bem atrás de mim. Senti meu corpo gelar de ponta a ponta. Meu sangue deve ter evaporado, embora eu não soubesse que ele tinha essa propriedade espiritual. Fiquei branco e atônito. Na verdade, acho que o que estava ali era apenas o meu espírito, pois meu corpo deve ter se escondido em algum lugar, tamanha foi minha vergonha. Tinha vontade de me esconder debaixo da mesa de reunião ou dentro de algum dos armários. Um grito se prendeu à minha garganta. Tudo o que vi foi aquele olhar. Nada mais eu vi, todo o resto eu apenas senti. E quando meus olhos se cruzaram com o dela, ela imediatamente desviou o seu olhar para baixo, como os humilhados fazem normalmente. Era como se ela estivesse sentindo a mesma coisa que eu. Ou melhor, acho que era como se ela sentisse aquilo todos os dias da sua vida. Os meus olhos foram inundados por lágrimas. E ela passou andando, lentamente, por mim. De cabeça baixa. Passo a passo. Mancando. A telefonista da empresa em que trabalho tem uma perna mais curta do que a outra. Ela é deficiente física. Nasceu aleijada.

Deus, muito obrigado! Como é bom poder compreender esse mundo divino que você criou.

Carlos von Sohsten
[email protected]
Agosto/2002


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