A natureza das coisas
Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 25/01/2026 12:42:02
Por que sofremos ao esperar o impossível?
A natureza das coisas não é sobre perecibilidade, mas sobre previsibilidade.
É o padrão de comportamento do universo, das pessoas e das situações. É a lei não escrita que define como tudo opera quando segue seu curso genuíno, sem intervenções forçadas. Uma colher de madeira, deixada na umidade, apodrece. Um cachorro assustado, se encurralado, morde. Uma pessoa que sempre foi instável emocionalmente, diante de pressão, provavelmente entrará em colapso. Isso não é pessimismo, é simplesmente como as coisas são!
Nosso sofrimento mais profundo nasce quando criamos expectativas que violam essa natureza. Esperar consistência de quem é inconstante por natureza, exigir lealdade de quem sempre priorizou o próprio interesse ou tentar extrair segurança de situações que são, por definição, instáveis. É como esperar que uma pedra flutue ou que o fogo não queime, uma violação básica da ordem natural.
Vivemos em uma cultura que premia justamente a negação da natureza. A pessoa "bem-sucedida" é aquela que esconde sua exaustão sob filtros e frases motivacionais. O relacionamento "perfeito" é aquele que omite os conflitos inevitáveis da convivência e a vida "vencedora" é apresentada como uma linha reta ascendente, sem perdas, doenças ou dias ruins.
Criamos toda uma estética da negação da natureza humana, que inclui cansaço, dúvida, tristeza e limites.
A ironia é que essa tentativa de burlar a natureza acaba nos tornando mais vulneráveis a ela, ou seja, quanto mais você tenta sustentar uma imagem de invulnerabilidade, mais forte será a queda quando a natureza humana inevitavelmente vier à tona. A ansiedade moderna tem muito disso: o cansaço de fingir ser o que não se é, de sustentar pesos que nenhum ser humano foi feito para carregar sozinho.
O conceito de Vanitas vanitatum*, "vaidade das vaidades", ganha uma nova camada sob essa luz. A maior vaidade não é a ostentação de riquezas, mas a pretensão de ser diferente daquilo que se é por natureza. É acreditar que podemos escapar das regras básicas que governam tudo: que podemos não envelhecer, não adoecer, não sentir dor, não ter limites.
A crítica ao vanitas não é sobre um desprezo pela vida material, mas para um redirecionamento radical da atenção para o agora. É um "exercício de desilusão" libertador!
Quando internalizamos que muito daquilo que nos causa ansiedade, inveja e estresse é, em sua essência, vapor, perdemos o medo de perdê-lo. A prática está em fazer a pergunta simples diante de cada desejo ou ambição que surge: "Isso é real?". O que sobreviverá ao tempo? O que alimenta o espírito e cria raiz? O que, no fim do dia, ficará quando a poeira (ou a fumaça) baixar? A resposta, muitas vezes, nos poupa um esforço enorme e deixamos de gastar energia tentando segurar o que, por definição, não pode ser!
A efemeridade não é uma falha no sistema; é o sistema funcionando perfeitamente. Tudo o que nasce, morre; tudo o que começa, termina e tudo o que se une, eventualmente se separa. Resistir a essa verdade não a torna menos real, apenas nos torna mais infelizes.
*A Origem: A frase abre o livro bíblico de Eclesiastes (atribuído ao Rei Salomão). No original em hebraico, a palavra usada para "vaidade" é "Hevel", diferente da "vaidade" moderna (orgulho/beleza), Hevel significa literalmente vapor, sopro ou fumaça..
A Metáfora: Algo que você consegue ver, mas não consegue segurar. Tentar encontrar a felicidade no consumo ou no status é como "tentar agarrar o vento". Parece sólido, mas se dissolve assim que você fecha a mão.









in memoriam