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Adolescer...

Adolescer...

por Adília Belotti


Os jovens estão na primeira página dos jornais ingleses. Todos os dias. Seja porque estão destinados a serem futuros reis e romperam um namoro com a mocinha educada para ser princesa; seja porque estão engordando as estatísticas de acidentes fatais com armas perfurantes, isto é, facas e canivetes; seja porque os professores não conseguem motivá-los a estudar; seja porque invadem escolas armados e matam dezenas de outros jovens...

Uma garota de 17 anos obrigou a família a procurar um lugar temporário para viver porque aproveitou uma viagem dos pais e colocou um convite no site My Space, chamando a "galera" para uma festa. O resultado? Em menos de seis horas, 200 jovens haviam destruído - literalmente - a casa, infernizado a rua e mobilizado sete viaturas policiais para tentar conter o "caos". Coisa de criança? Será mesmo?

Na mesma semana, o secretário de Educação da Grã-Bretanha, Alan Johnson, provocou discussões em várias frentes, ao pedir que os portais e sites na web se responsabilizassem pelos vídeos e imagens ofensivas e humilhantes de professores, postados por alunos. As imagens são capturadas pelos celulares que eles levam para as escolas, o que leva à pergunta: se eles fazem mau uso dos aparelhos, por que as escolas não confiscam ou impedem seu uso no ambiente escolar? O bullying, seja via internet, seja nos corredores reais das escolas é uma grande preocupação, assunto de Estado: 1 em cada 5 garotos de 16 anos admite ter atacado alguém com uma faca, 25% dos de garotos de 14 a 17 anos estão envolvidos com roubos, assaltos e violências "menores".
Punir? Usar técnicas modernas de motivação? As novas orientações sobre educação que o mesmo secretário Johnson apresentou na semana passada foram consideradas brandas, insuficientes... mas permitem que os professores usem de coação física contra alunos violentos. Fazer o quê?

Leio no The Guardian que os professores estão usando os blogs tanto para trocar experiências e compartilhar frustrações, quanto para tentar se comunicar de alguma forma com os alunos. Nestes relatos, uma grande dose de desânimo...nada de respostas...

Você assistiu aquele documentário excelente, Pro dia nascer Feliz? O que achou? Fiquei aterrorizada com o desencanto dos professores, com a ausência dos adultos... onde estávamos enquanto eles cresciam assim?

Quem são esses jovens? Quem somos nós diante deles? E por que não estamos, como adultos, conseguindo nos comunicar com eles?

O Lucas me manda um "Toques de Alma Teen" com dois artigos e uma tentativa de conciliação. Vinda de alguém mal-saído dessa "fase" faz a gente pensar e parece até provocação. Além de lanche, punições, discursos empoeirados e quadro-negro, quem sabe não estaria na hora de ressuscitar a poesia? Resolver, não sei se resolvia, mas chegamos num ponto onde nem sabemos direito quais são as perguntas certas, melhor mesmo deixar os poetas falarem por nós...

"Sempre achei difícil - antes, durante ou agora, sofrivelmente depois dela - sintetizar a adolescência", diz ele. "Resumir em palavras os entraves com identidade, com caminhos, vontades, novidades e mudanças (ah, as mudanças...). As mais rebuscadas não serviam, porque deixavam tudo ainda mais complicado. E as simples não davam conta de tanta enormidade emaranhada de vida batendo taquicárdica. Foi tropeçando nesse tempo, mas sempre marrento, teimoso e malcriado, que encontrei Neruda, via Gustavo Ioschpe e Octavio Paz via meu irmão. Mudanças, identidade, rostos que não se reconhecem, estrangeiro em sua própria morada. Um tempo de suspensão numa existência que segue, em poucos e intensos anos, ondeando. Os textos podem não iluminar ou tornar clarividente, mas é sempre reconfortante saber que, por mais que neguemos, algum adulto nos entende."

E aí vão as reflexões de Octavio Paz e de Gustavo Iochpe, para inspirar professores...e pais! Obrigada, Lucas, querido...

Para todos nós, em algum momento, nossa existência se revela como alguma coisa de particular, intransferível e preciosa. Quase sempre esta revelação se situa na adolescência. A descoberta de nós mesmos se manifesta como um saber que estamos sós; entre o mundo e nós surge uma impalpável, transparente muralha: a da nossa consciência.

É verdade que, mal nascemos, sentimo-nos sós; mas as crianças e os adultos podem transcender a sua solidão e esquecer-se de si mesmos por meio da brincadeira ou do trabalho. Em compensação, o adolescente, vacilante entre a infância e a juventude, fica suspenso um instante diante da infinita riqueza do mundo.

O adolescente se assombra com o ser. E ao pasmo segue-se a reflexão: inclinado para o rio de sua consciência pergunta-se se este rosto que aflora lentamente das profundezas, deformado pela água, é o seu. A singularidade de ser - mera sensação na criança - transforma-se em problema e pergunta, em consciência inquisidora.


De Octavio Paz, abrindo O Labirinto da Solidão e Post Scriptum

Cada vez que vejo os meus, fico com a impressão de que deve ser muito difícil essa história de ser pai. Não pela parte de ter de amamentar, trocar fraldas, botar pra ninar ou ter de levar a filmes dos Trapalhões. Isso, qualquer um com um pouco de paciência consegue. O difícil deve ser pai de adolescente, aquela fase em que o guri muda mais do que técnico de time perdedor, e os pais permanecem fiéis que nem puxa-saco de emergente. A gente gosta de reclamar dos pais, dizer que eles não nos entendem, que não se lembram que eles também já foram jovens algum dia (eles foram?), que nos cortam os baratos, etcétera e tal, mas raramente tentamos nos colocar na posição deles.

Imagine você ter passado 10, 15 anos acompanhando todos os passos, respiros e espirros de uma pessoa. Determinar como ela deve se vestir, o que deve comer, onde vai estudar, onde vai passar as férias... Sem falar nos pais que determinam o que pode ver na TV, quando tem de fazer dever de casa, qual a periodicidade do corte das unhas e por aí afora. De repente, aquele ser protegido, dependente e atônito frente aos mistérios do mundo passa a descobrir as coisas por si só, e não só preza a liberdade conquistada como rejeita veementemente qualquer intervenção paterna.

Ser adolescente é ser livre até o ponto da rebelião, da anarquia. É uma experiência embriagante que, de resto, também proporciona a mesma ressaca que todos os bons tragos proporcionam. Mas é da vida. O angustiante deve ser ter de acompanhar de camarote, sem poder fazer nada (além de um ocasional "leva um casaquinho que tá frio" que de vez em quando escapa), e carregando no peito todo aquele amor incondicional.

Aí rolam aqueles conflitos brabos entre pais e filhos, onde parece que um está falando em cirílico e o outro em sânscrito. A impressão é que ninguém se entende. Sei não, mas acho que os pais entendem direitinho a cabeça dos rebentos, porque já passaram por isso. Mas é aquela fase típica do pós-choque: o "denial", a negação. Os pais tentam reagir à independência filial impondo as mesmas regras de antes, como se nada houvesse mudado e o fedelho de boné virado e barba malfeita pedindo verba para uma cervejada fosse o mesmo piá de roupa de marinheiro chorando por um doce ou gole de Coca. Não é fácil lidar com a mudança. No fundo, os pais sabem que é uma batalha perdida: o mundo real, mesmo com (e até por) todos os seus mistérios e perigos, é lugar bem mais atraente que a barra da saia da mãe (exceção honrosa sempre feita aos filhos da Luiza Brunet). Um dia, os filhos vão. Deve causar uma estupefação e tanto ver um filho com ideais e idéias diferentes não raro antagônicas às dos pais.

É preciso, assim, certa compreensão por parte dos filhos. Essa é mais complicada ainda. No fundo, não conhecemos tanto nossos pais. Não estivemos junto com eles a maioria da vida deles, e leva um bocado de tempo para conseguirmos amadurecer e perceber alguns de seus defeitos e fraquezas. Não acho que briguemos com os pais que temos, mas com a idealização que deles fazemos. Se soubéssemos de antemão todas as causas das neuroses paternas, acho que não daríamos tanto murro em ponta de faca. Mas o distanciamento é natural, e acho que até necessário para que se respire um ar puro. Nas relações sadias, o reencontro não demora. E, naquelas em que demora ou não acontece, é sinal de que muito andava errado bem antes.

Mas isso a gente só se dá conta quando dá um passo pra trás e tenta olhar a coisa com calma, longe do dia-a-dia. E, dando essa olhada, fiquei surpreso não com os meus pais, mas comigo mesmo: não sei de onde é que se muda tanto.

Sorte que o espanto parece ser universal. Ou, o que vale a mesma coisa, pelo menos (com)provado por um grande poeta, como descreveu bem Neruda nos versos:

"y de repente apareció en mi rostro
un rostro de extanjero
y era también yo mismo:
era yo que crecía,
eras tu que crecías,
era todo
y cambiamos
y nunca más supimos quiénes éramos,
y a veces recordamos
al que vivió en nosotros
y le pedimos algo tal vez que nos recuerde,
que sepa por lo menos que fuimos él,
que hablamos
con su lengua,
pero desde las horas consumidas
aquél nos mira y no nos reconoce.


De Gustavo Ioschpe, colunista da Folha, Mutatis Mutandis

A foto foi tirada do site de um fotógrafo, Rick Gunn, cujo projeto de vida é conseguir viajar pelo mundo todo, extraindo imagens - belíssimas - pelo caminho, ué, não parece sonho de todo mundo que um dia já foi jovem?

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Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro: Toques da Alma, clique e confira.
Email: adiliabelotti@gmail.com
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Publicado em: 22/03/2018 10:12:25

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