Eu sou Míchkin

Eu sou Míchkin

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 28/06/2026 00:09:04


"A beleza salvará o mundo."
O dia em que me enxerguei no abismo de Dostoiévski.

Sempre houve um descompasso entre o mundo e a forma como eu existo nele. Por muito tempo, achei que meu erro era de fabricação... Eu via as pessoas calculando passos, medindo palavras com frieza estratégica, vestindo máscaras como quem escolhe uma roupa para o trabalho, e eu simplesmente... não conseguia. Minha sinceridade sempre foi desarmada, minha empatia sempre foi exposta e minha incapacidade de jogar os jogos sociais da vida sempre me pareceu uma fraqueza incurável.
Até que conheci Dostoiévski e, em um misto de terror e alívio, eu entendi: Eu sou o Príncipe Míchkin do livro "O Idiota", de Fiódor Dostoiévski (1869).

Mas essa conclusão não é por uma ilusão de santidade ou superioridade, mas pela constatação brutal de que eu tenho as mesmas atitudes que o condenaram. Eu sou aquela pessoa que acredita na pureza de coração, em uma sociedade que aprendeu a esmagar tudo o que não pode explorar.
Sou quem insiste em agir como se as palavras realmente tivessem valor, como se as promessas fossem sagradas e como se a compaixão não fosse um conceito abstrato de livro, mas uma prática de cada segundo.
Essa descoberta me fez olhar para trás e entender cada cicatriz... No ambiente de trabalho, nos círculos de amizade, até nas relações mais íntimas, eu sempre ignorei os códigos tácitos.
Quantas vezes fui o "alienígena emocional" da mesa? Quantas vezes minha transparência foi lida como ingenuidade patética e minha recusa em manipular foi usada como vantagem pelos outros?

Se Dostoiévski estivesse vivo hoje, ele não precisaria olhar para a aristocracia russa para testar sua tese; bastaria olhar para personagens modernos como Frank Underwood, de House of Cards. Estou completamente envolvido pela série e vejo claramente essa manipulação brutal que acontece em TODOS os capítulos. Para mim é com se estivesse assistindo um filme de terror!


Perceber como "Frank" transforma a vida das pessoas em um tabuleiro de xadrez cínico, onde os outros não são seres humanos, mas peças a serem manipuladas em direção ao poder é chocante. Frank é o oposto exato do "idiota", ele parece que fareja a vulnerabilidade como um predador em busca de um ponto de pressão.
Enquanto minha sinceridade é desarmada e transparente, a dele é uma fachada milimetricamente calculada, um jogo de máscaras que valida a hipocrisia do sistema para escalá-lo até o topo.
Olhar para a vitória desse cinismo político e corporativo me faz compreender o tamanho do meu descompasso: eu insisto em jogar um jogo de regras limpas em um mundo governado por castelos de cartas.

Dostoiévski me deu um espelho, ele me mostrou que a bondade sem astúcia, essa que eu carrego, não é vista pelo mundo como virtude, mas como um erro de estratégia. Quem se recusa a jogar, vira o tabuleiro de quem trapaceia!
Minha mera tentativa de ser natural, de não posar, de simplesmente ser, incomoda e desarma os cínicos... e o cínico desarmado não sente gratidão; ele sente raiva, porque a minha presença lembra a ele de tudo o que ele próprio já abandonou em nome da sobrevivência.

Eu entendi a minha própria tragédia... meus desapontamentos com amizades não foram subitos, foram mais como um desgaste silencioso de ser uma vela consumida pela própria chama, tentando iluminar quem preferia continuar no escuro.
Meu erro crônico sempre foi o mesmo de Míchkin: acreditar que os outros gostariam de ser salvos, que a mesquinhez alheia era só um mal-entendido meu... passageiro... reversível...

"O que me exaspera não é o fato de vocês terem mentido... a mentira sempre se perdoa; a mentira é uma coisa inocente, porque conduz à verdade. O que me exaspera é o fato de vocês venerarem a sua própria mentira."

Mas essa auto-descoberta traz uma bifurcação, pois o livro termina em loucura e destruição porque o mundo engoliu o príncipe. Mas e eu? E agora que eu sei quem sou, o que me resta? Me corromper para sobreviver? Aprender a negociar minha alma no mercado das aparências?
Não, prefiro o entendimento, mesmo que talvez não possa mudar completamente. Saber que sou Míchkin me liberta da culpa de não saber jogar.
Se o mundo me chama de idiota por eu ter coragem de ser verdadeiro, então que seja!
Pelo menos, ao fechar os olhos à noite, sei que meu rosto não é uma máscara e que meu coração, por mais calejado que esteja, ainda é meu.


Facebook   E-mail   Whatsapp

ro
é co-fundador do Site Somos Todos UM
Visite o Site do Autor

Saiba mais sobre você!
Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui.

Gostou?   Sim   Não  
starstarstarstarstar Avaliação: 5 | Votos: 1


Veja também



As opiniões expressas no artigo são de responsabilidade do autor. O Site não se responsabiliza por quaisquer prestações de serviços de terceiros.

Somos Todos UM - 26 anos
Siga-nos:
Youtube     Instagram     Facebook     x     tiktok

 


  Menu
Somos Todos UM - Home