Libertando-se da culpa de não ser útil

Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 29/08/2025 16:58:43
Vivemos em uma sociedade que transformou a produtividade em religião. Desde cedo, somos ensinados a medir nosso valor pela quantidade de coisas que fazemos, pelos resultados que entregamos, pelos títulos que acumulamos. O dia só parece "válido" quando termina com a lista de tarefas cumprida. E, quando não conseguimos acompanhar esse ritmo, a culpa se instala: "não estou sendo útil, logo não tenho valor".
Essa é talvez a prisão mais silenciosa da vida moderna.
Mas e se essa lógica estivesse invertida? E se a verdadeira doença não fosse a ociosidade, mas a necessidade constante de justificar a própria existência?
Alan Watts já alertava, décadas atrás, que confundir o ser com o fazer nos condena a uma vida ansiosa e superficial. Ele lembrava que uma árvore não existe para ser útil, e ainda assim cumpre sua função natural: crescer, florescer, oferecer sombra. Uma estrela não brilha para servir a alguém, apenas brilha.
Nós, ao contrário, fomos condicionados a acreditar que precisamos provar merecimento para estar vivos. Assim, até o lazer virou tarefa: ler deve ensinar, caminhar deve queimar calorias, meditar deve aumentar a produtividade. Até descansar precisa ter propósito.
Essa mentalidade cria o paradoxo da utilidade: quanto mais tentamos ser úteis, mais nos afastamos da vida real, que não cabe em planilhas.
O mais subversivo dos ensinamentos de Watts é também o mais simples: existir já basta.
Não precisamos transformar cada segundo em desempenho, cada ato em resultado. A vida não é um meio para algo - ela é um fim em si mesma. O pôr do sol, uma criança brincando, o riso entre amigos: nenhum desses momentos precisa ser útil para serem preciosos.
Quando você se sente "inútil", na verdade está apenas rompendo, ainda que por instantes, com o vício da produtividade. Essa "inutilidade consciente" não é preguiça; é liberdade. É o espaço onde a mente respira, onde a criatividade floresce, onde a alma lembra que não é máquina.
Libertando-se da culpa
Sentir culpa por não ser útil é apenas um reflexo do condicionamento social. Não é uma falha pessoal. Não há nada de errado em simplesmente existir, deitar na grama e observar as nuvens, ouvir uma música sem fazer nada mais, ficar em silêncio sem justificar o silêncio. Esses momentos não são perdas de tempo. São espaços de reconexão. São como pausas em uma música: sem elas, só haveria ruído.
Talvez devêssemos aprender com as crianças: elas brincam não para treinar habilidades, mas porque brincar é sua forma mais pura de viver. Da mesma forma, podemos resgatar em nós a capacidade de agir e estar presentes sem transformar tudo em utilidade.
O desafio não é abandonar o trabalho ou negar responsabilidades, mas desidentificar-se da ideia de que sua dignidade depende da sua produtividade. Você não é apenas o que faz. Você é o que é.
Se você tem carregado a culpa de não se sentir útil, respire fundo: não há nada de errado com você. Essa culpa não é sua; é do sistema que o ensinou a acreditar que a vida só vale quando gera lucro, resultado ou eficiência.
A verdade é que sua existência já é preciosa, mesmo quando não produz nada. Como uma onda que não precisa justificar-se ao oceano, você não precisa justificar-se ao universo.
A arte de ser "inútil" é, na verdade, a arte de lembrar que ser é maior do que fazer. E que às vezes, o momento mais fértil da vida nasce justamente quando paramos de tentar ser úteis.
Guia Prático: Como praticar a "inutilidade consciente"
1) O ócio deliberado:
Reserve 10 a 15 minutos por dia para não fazer absolutamente nada. Não é descanso para voltar mais produtivo, é simplesmente estar. Sente-se em silêncio, observe o céu, ouça os sons à sua volta. Permita-se existir sem propósito.
2) A contemplação sem função:
Olhe para uma árvore, uma flor ou o pôr do sol sem pensar no que isso "traz de útil". Apenas contemple. O exercício é recuperar a capacidade de estar diante da beleza sem transformá-la em ferramenta.
3) Escuta plena:
Escolha uma música e ouça até o fim sem fazer nada mais. Sem celular, sem multitarefas. Apenas a experiência de escutar, como se fosse a primeira vez.
4) O brincar pelo brincar:
Faça algo apenas pelo prazer de fazer, sem esperar resultado. Desenhe rabiscos, dance sozinho, escreva bobagens, cante desafinado. Liberte-se da ideia de "ser bom" ou "produzir algo".
5) Inutilidade relacional:
Passe tempo com alguém que você ama sem planos, sem conversas profundas, sem agenda. Apenas fiquem juntos, presentes, sem pensar se isso "fortalece o vínculo" ou "gera memórias". Só estar já basta.
6) Questionamento libertador:
Sempre que se perceber preso no automatismo da produtividade, pergunte: "Estou fazendo isso por medo de ser inútil ou porque realmente desejo estar aqui?" Essa pergunta revela motivações escondidas e abre espaço para escolhas mais autênticas.
7) Celebre a pausa:
Lembre-se: uma música sem pausas é só barulho. Da mesma forma, uma vida sem espaços de inutilidade vira uma corrida sem sentido. As pausas são parte essencial da harmonia.
A prática não é abandonar a utilidade, mas recolocar cada coisa em seu lugar. Trabalhar, criar, produzir pode ser maravilhoso, desde que não seja a condição para sentir que você tem valor.
No fundo, ser "inútil" é um ato de coragem: é dizer ao mundo que sua existência não precisa de justificativa.