Nostalgia: a palavra que o Sergio carregava dentro de si
Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 16/09/2026 15:06:45

Existem palavras que a gente aprende, não usa e esquece... enquanto outras ficam conosco durante tantos anos que acabam ganhando o rosto de alguém. Para mim, nostalgia sempre terá o rosto do Sergio Scabia.
Sergio era italiano, nasceu em Padova em 1945 e veio para o Brasil ainda jovem. Durante mais de trinta anos de amizade, ouvi essa palavra dezenas, talvez centenas de vezes, quase sempre acompanhada de alguma lembrança da Itália, de uma música, de uma comida, de uma história, de um lugar ou de alguma coisa que já tinha passado. Em setembro de 2025, Sergio concluiu sua jornada terrestre e desde então, a palavra adquiriu para mim um significado diferente, pois quando lembro de nostalgia, penso nele.
Dia 26 de setembro completa um ano da sua partida, então resolvi pesquisar e descobri que a história dessa palavra é realmente extraordinária. Embora tenha raízes gregas, nostalgia não existia na Grécia Antiga, ela foi criada em 1688 pelo médico suíço Johannes Hofer, que precisava de um nome para descrever uma doença observada em soldados afastados de sua terra natal. Hofer juntou "nóstos", retorno, volta para casa, com "álgos", dor.
Literalmente, nostalgia era a dor do desejo de voltar para casa.
Olha que interessante, a palavra não nasceu como uma expressão poética sobre o passado, mas como uma doença...
Durante muito tempo, médicos acreditaram que a pessoa afastada de sua terra podia adoecer gravemente por causa da saudade de casa. Os soldados suíços eram considerados particularmente vulneráveis, pois havia relatos de melancolia, insônia, perda de apetite, ansiedade e outros sintomas físicos e psicológicos, e o tratamento podia chegar ao ponto de considerar o retorno à terra natal como a própria cura.
No século XIX, a nostalgia continuou aparecendo na medicina e também assumiu significados políticos e sociais, especialmente relacionados à guerra, ao deslocamento e à formação das identidades nacionais.
É difícil imaginar uma definição mais adequada para alguém que deixou sua terra ainda jovem e passou a vida entre dois mundos. Sergio construiu sua vida no Brasil, amou profundamente este país e fez dele sua casa, mas nunca deixou de carregar a Itália consigo. Não era uma contradição, mas justamente a riqueza de ter mais de um lugar dentro de si.
Só que alguma coisa mudou... Aos poucos, a medicina deixou de tratar a nostalgia simplesmente como uma doença e a palavra começou a ganhar a dimensão que conhecemos hoje. Ela deixou de significar apenas o sofrimento de quem queria voltar fisicamente para casa e passou a representar o desejo por pessoas, lugares, épocas e experiências que já ficaram para trás. A nostalgia tornou-se uma emoção estranha, porque consegue misturar duas coisas aparentemente incompatíveis: prazer e tristeza. Eu entendi isso como, lembrar pode doer, mas também pode fazer bem...
A psicologia ajudou a compreender essa "aparente contradição", descrevendo ela como uma emoção predominantemente positiva, embora agridoce, profundamente ligada às relações humanas e às memórias significativas. Ela costuma trazer pessoas amadas, momentos importantes e acontecimentos marcantes para o presente, fortalecendo sentimentos de continuidade, pertencimento e conexão social.
Isso explica uma coisa que todos nós já sentimos: às vezes lembramos de uma época que não gostaríamos necessariamente de reviver, mas sentimos prazer em visitá-la mentalmente.
E talvez seja justamente por isso que Sergio falasse tanto dela.
Quem migra carrega uma relação particularmente intensa com a memória, pois existe a cidade onde nasceu, a língua que ouviu primeiro, os sabores da infância, as pessoas que ficaram para trás e uma versão de si mesmo que só existiu naquele lugar. O imigrante aprende uma coisa que o restante de nós costuma perceber apenas quando envelhece: o passado não desaparece simplesmente porque o presente chegou...
Bom, a palavra italiana nostalgia acabou entrando em inúmeras línguas justamente porque descrevia algo que praticamente toda sociedade humana conhecia: a dor do afastamento e o apego às origens.
Hoje, porém, seu sentido se ampliou tanto que pode envolver até mesmo alguém que já não está vivo. O próprio vocabulário italiano registra: nostalgia pelo país, pela casa, pela família, pela juventude, por amigos distantes ou por alguém que morreu.
E aqui chegamos a uma palavra brasileira que havia sido apresentada para mim como "sua tradução equivalente", saudade, mas agora vejo que elas não são exatamente a mesma coisa...
A história das duas palavras é diferente, enquanto Nostalgia nasceu do grego, embora tenha sido criada apenas no século XVII, a Saudade, por sua vez, é uma palavra de origem medieval e sua etimologia mais aceita remonta ao latim solitas, solidão, através das formas galego-portuguesas soidade, soydade e outras variantes...
Mas a diferença mais interessante não está apenas na origem, a palavra "saudade" acabou desenvolvendo, especialmente no português, uma densidade emocional própria. O dicionário a define como uma lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado ou de algo de que se está privado, acompanhada do pesar provocado por essa ausência.
A saudade pode ser de uma pessoa que está longe.
A nostalgia pode ser de uma vida que não existe mais.
A saudade pode esperar um reencontro.
A nostalgia frequentemente sabe que o retorno é impossível, porque o lugar ainda pode existir, mas o tempo que desejamos reencontrar já desapareceu.
E talvez seja isso que torna a nostalgia tão bonita e tão triste, ela não quer apenas recuperar um lugar, mas um tempo... E tempo não volta.
No meio dessas pesquisas, descobri também outra palavra "Amarcord", título do filme de Federico Fellini, e que nasceu da expressão romagnola "a m'arcôrd", "eu me lembro". Ela entrou na língua italiana como sinônimo de evocação nostálgica do passado. Fellini enxergava naquela palavra uma combinação de sentimentos aparentemente contraditórios: ternura e amargura, pertencimento e distância, lembrança e separação... uma reflexão do próprio diretor sobre Amarcord era como uma espécie de convivência entre opostos, uma tentativa de conservar o passado sem permanecer aprisionado por ele.
Sergio nunca deixou de ser italiano, mas também nunca deixou de ser brasileiro. Ele tinha histórias da Itália, mas construiu aqui suas amizades, sua profissão, sua família, seu trabalho e, principalmente a história do SomosTodosUM.
Em 2000, sua busca pela verdade e seu desejo de ajudar outras pessoas a encontrar aquilo que chamava de "maravilhosa unicidade" deram origem, junto comigo, a um projeto que atravessaria mais de duas décadas.
Quando penso nisso hoje, percebo que talvez o STUM também carregue uma espécie de nostalgia... não de um passado idealizado, mas memória viva de pessoas, encontros, ideias e sonhos que não queremos deixar desaparecer. O portal nasceu em uma época em que a internet brasileira ainda estava começando, quando construir uma página na web exigia uma disposição que hoje parece quase arqueológica. Sergio trazia sua experiência de engenheiro, sua curiosidade, sua espiritualidade e seu jeito italiano de olhar para as coisas. Eu trazia minha juventude, minha curiosidade tecnológica e uma inquietação que ainda não sabia exatamente onde iria me levar.
Aquela combinação produziu alguma coisa que nenhum dos dois conseguiria construir sozinho.
Hoje, quando lembro de Sergio, minha memória não escolhe apenas os momentos felizes. Lembro sim das discussões, das manias, das frases engraçadas, das implicâncias, dos silêncios, das diferenças de opinião e de todas aquelas pequenas coisas que tornam uma amizade verdadeira tão diferente de uma fotografia cuidadosamente editada.
A nostalgia pode surgir justamente quando estamos sozinhos, tristes ou sentindo falta de conexão, e a lembrança de pessoas e momentos significativos pode fortalecer nosso sentimento de pertencimento e continuidade.
Acho que depois que alguém parte, isso ganha uma dimensão ainda maior, pois a ausência modifica a memória.
Uma pessoa deixa de estar disponível no mundo físico, mas continua participando das nossas conversas internas. Continuamos lembrando o que ela diria, imaginando sua reação diante de alguma coisa, repetindo uma frase que era típica dela, ouvindo mentalmente sua voz... Isso é reconhecer que algumas relações continuam existindo em outra forma.
Sergio partiu em 26 de setembro de 2025, essa informação é clara, mas a realidade que ela produziu não é.
Não posso mais ligar para ele.
Não posso mais ouvir uma história antiga.
Não posso mais perguntar o que ele achava de alguma coisa.
Mas posso lembrar...
E é aí que a nostalgia deixa de ser apenas uma dor e vira gratidão, porque ninguém sente nostalgia daquilo que não teve importância...
Não sentimos falta de uma tarde que não significou nada.
Não lembramos com emoção de uma conversa completamente vazia.
Não carregamos durante décadas uma pessoa que passou pela nossa vida sem deixar marca.
A nostalgia é, nesse sentido, uma prova de que alguma coisa aconteceu.
Nós vivemos, pertencemos, fomos transformados e agora lembramos.
Sergio passou a maior parte da sua vida longe da Itália e talvez hoje eu compreenda o que ele estava dizendo melhor agora... todas aquelas vezes em que citava a tal nostalgia... Ele não estava simplesmente com vontade de voltar pra Itália, mas era a sua maneira de carregar consigo aquilo que não queria perder.
Caro Sergio, durante tantos anos você falou de nostalgia sem saber que um dia eu escreveria sobre ela pensando em você. Hoje entendo que aquela palavra não era apenas italiana, nem apenas sua, ela descrevia uma das experiências mais humanas que existem: amar alguma coisa que o tempo não nos permite mais tocar.
Você partiu, mas deixou histórias, amigos, ideias, ensinamentos e uma parte de você espalhada por tudo aquilo que ajudou a construir. O tempo continuará fazendo seu trabalho, como sempre fez, mas enquanto houver alguém que se lembre, alguma coisa permanecerá.
Ciao, Sergio e obrigado por todas as vezes em que você me ensinou.










in memoriam