O Boxeador que escrevia sobre as estrelas

O Boxeador que escrevia sobre as estrelas

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 24/06/2026 10:11:22


Confesso que poucas histórias da filosofia me tocaram tanto quanto a de Cleantes de Assos. Talvez porque, depois de quase vinte anos treinando boxe, exista algo naquele velho estoico que me parece estranhamente familiar...

Vivemos em uma época em que associamos sabedoria a currículos, títulos e bibliotecas gigantescas. Imaginamos filósofos como homens cercados de pergaminhos, discutindo conceitos abstratos em ambientes sofisticados. Mas a vida gosta de desafiar nossos estereótipos e nenhum exemplo seja tão belo quanto o de Cleantes.

Antes de se tornar o segundo líder do Estoicismo, sucedendo Zenão de Cítio, Cleantes foi boxeador. Sim, um boxeador.
As mesmas mãos que um dia golpearam adversários nas arenas gregas acabariam escrevendo e inspirando textos profundos que chegaram até nós da filosofia antiga. Um ex-atleta, um trabalhador braçal, um homem conhecido pela lentidão no aprendizado e pela extraordinária capacidade de perseverar.

Pesquisando sua vida, descobri algo curioso. Cleantes teria escrito cerca de cinquenta obras, tratados sobre ética, física, lógica e poesia, mas quase tudo se perdeu. O tempo apagou livros, destruiu manuscritos e deixou apenas fragmentos preservados em autores posteriores.
Restou um único texto completo: o magnífico Hino a Zeus, que deixo no final do artigo e há algo profundamente simbólico nisso.
Em uma época em que tanta gente luta para produzir conteúdo, construir reputação e deixar uma marca duradoura, um dos maiores filósofos do Estoicismo atravessou mais de dois mil anos sendo representado por apenas trinta e nove versos... Talvez porque, no fundo, sua maior obra nunca tenha sido escrita, mas vivida.

Diógenes Laércio conta que Cleantes trabalhava carregando água à noite para poder estudar durante o dia com Zenão de Cítio (outro ser que tem história interessantíssima). Cleantes era pobre, aprendia lentamente e, por isso, era alvo de zombarias. Chamavam-no de "tábua dura", pois parecia demorar para absorver os conceitos.
Mas existe uma diferença enorme entre aprender rápido e aprender profundamente... Uma tábua dura demora para receber a marca, mas quando recebe, ela permanece.
Confesso que essa parte me emociona, porque, em muitos aspectos, me reconheço nela. Nunca fui o mais brilhante da sala nem tive uma formação acadêmica tradicional. Tudo o que construí veio do estudo autodidata, dos erros, das leituras, de amigos dispostos a ensinar e, principalmente, da persistência.
Acho que é por isso que gosto tanto e me identifico com o boxe, porque dentro de um ringue ninguém pergunta onde você estudou... O corpo não aceita diplomas como argumento de autoridade, mas responde à disciplina, à repetição e ao caráter.
O boxe é uma espécie de filosofia prática. Você aprende que não existe atalho para a resistência. Não existe palestra motivacional que substitua anos de treino. Não existe teoria que impeça um golpe de doer... Existe apenas a prática e a coragem.

Isso me faz lembrar uma das frases mais conhecidas de Mike Tyson, muito mais filosófica do que esportiva. Durante seus anos como campeão mundial, cansado de ouvir jornalistas descreverem planos elaborados dos adversários, Tyson respondeu com a simplicidade brutal de quem conhece a realidade do ringue: "Todo mundo tem um plano até tomar o primeiro soco na cara."
A frase surgiu no auge de sua carreira, em referência aos desafiantes que chegavam cheios de estratégias e certezas, mas viam tudo mudar no primeiro impacto.

Talvez a vida funcione exatamente assim. Temos planos para a carreira, o casamento, os filhos, os negócios e até a velhice. E então chegam os golpes duros como uma doença, uma perda, uma crise financeira, uma morte inesperada, uma decepção ou simplesmente a constatação de que o mundo não se comporta como imaginávamos.
É nesse momento que teoria e caráter se separam. Os planos pertencem à mente, mas a capacidade de continuar pertence à alma.

Talvez Cleantes entendesse isso melhor do que ninguém. Afinal, tanto no boxe quanto no Estoicismo, a grande questão nunca foi se seremos atingidos, mas quem continuaremos sendo depois do impacto.
Curiosamente, essa mesma verdade aparece em uma cena marcante do filme Rocky Balboa (2006). Já envelhecido, Rocky tenta ensinar ao filho uma lição que todo lutador, cedo ou tarde, aprende:

"O mundo não é um mar de rosas. [...] O mundo é um lugar sujo e cruel, e não importa o quão durão você seja, ele vai te colocar de joelhos e te manter assim se você permitir. Ninguém vai bater tão forte quanto a vida, mas não se trata de quão forte você bate. Trata-se de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você pode suportar e continuar. É assim que se vence!"

Sim, a vitória raramente pertence a quem bate mais forte, mas àquele que suporta os golpes inevitáveis sem perder a coragem de continuar recomeçando e avançando. Esse foi o espirito que Stallone nos passou nos filmes do Rocky.

Depois de quase vinte anos de boxe, posso dizer que há uma sabedoria profunda nisso. Os grandes lutadores que conheci não eram necessariamente os mais talentosos ou os mais fortes. Eram aqueles que conseguiam se recompor após um golpe, respirar, reorganizar a guarda e seguir em frente.
E talvez a vida inteira seja assim... Não somos medidos pelos dias em que tudo deu certo, mas pela forma como reagimos quando tudo sai do plano.

Olhando para Cleantes, carregando água à noite, suportando pobreza, insultos e limitações, fico pensando que ele provavelmente concordaria com essa lição. Afinal, durante noventa e nove anos, aquele velho boxeador estoico fez exatamente isso: continuou avançando.

Hoje temos poucos fragmentos de seus escritos, mas uma biografia extraordinária. As histórias que chegaram até nós funcionam quase como rounds de uma luta antiga. Não vemos a luta inteira, mas os momentos decisivos revelam o caráter do lutador.
Sabemos que suportou insultos com serenidade, que recusou dinheiro quando acreditava não merecê-lo, que trabalhou enquanto outros dormiam e que estudou enquanto outros desistiram...
Gosto de uma frase em especial de Cleantes, preservada por Sêneca: Ducunt volentem fata, nolentem trahunt.
"Os destinos conduzem quem os aceita e arrastam quem resiste."

Quanto mais envelheço, mais profunda essa frase me parece... a vida tem uma maneira curiosa de ensinar humildade. Existem coisas que podemos controlar e outras que simplesmente nos ultrapassam. Resistir ao inevitável produz sofrimento. Aceitar a realidade não significa desistir, mas parar de lutar contra aquilo que não depende de nós.

Curiosamente, o boxe também ensina isso. Quem entra em pânico diante de um golpe desperdiça energia. Quem se revolta por ter sido atingido perde clareza. Mas quem aceita a situação, respira e continua lutando frequentemente descobre que ainda há muitos rounds pela frente.

Acho que vem dai tanta afinidade com esse velho grego, porque, no fundo, ele nunca abandonou o boxe, apenas mudou de adversário.
Primeiro foram os homens nas arenas, depois o cansaço, a pobreza, a ignorância, o orgulho e as paixões desordenadas da alma.
Suas mãos deixaram de golpear corpos para escrever sobre a harmonia do universo.
E que imagem extraordinária que fica é essa: Um ex-boxeador escrevendo um hino sobre as estrelas.

Pra mim essa seja a maior lição que Cleantes deixou: A vida não exige que sejamos gênios, nem rápidos, nem que deixemos dezenas de livros para a posteridade. Talvez ela peça apenas uma coisa: que continuemos voltando ao treino.
Que suportemos os golpes inevitáveis.
Que permaneçamos aprendendo.
E que, quando chegar o fim da luta, possamos olhar para trás e perceber que nossa maior obra nunca esteve no papel, mas na pessoa em que nos transformamos ao longo do caminho.

Hino a Zeus

Ó mais glorioso dos imortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso,

Zeus, senhor da natureza, que tudo governas com leis,

salve! Pois a todos os mortais é lícito falar-te.

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,

só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

Por isso te entoarei um hino e cantarei sempre o teu poder.

A ti obedece todo este mundo que gira em torno da Terra,

por onde quer que o leves, e de boa mente te é submisso.

Seguras nas invictas mãos, como teu servidor,

o raio incandescente e de dois gumes, sempre vivo.

Sob o seu impulso, caminha toda a obra da natureza:

com ele diriges a tua Palavra universal, que passa através de tudo,

misturando-se com o astro luminoso maior, e também com os menores.

Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,

nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,

excepto os actos dos malvados na sua demência.

Mas tu sabes ajustar mesmo o que é discordante

e ordenar o que é caótico, e ódio em ti é amor.

E assim harmonizaste tudo o que é nobre com o que é vil, numa só unidade,

de modo a originar uma Palavra eterna de tudo,

a que fogem aqueles dos mortais que são inferiores,

insensatos, sempre a almejar a posse do bem,

sem verem nem atenderem à lei universal do deus,

em cuja obediência seriam conosco felizes.

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,

uns com uma pressa funesta de alcançar fama,

outros voltados para a ganância desordenada,

outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

procedem sem pensar, arrastados de um lado para o outro,

apressando-se com vigor para que suceda o contrário dos teus desejos.

Mas ó Zeus remunerador de tudo, senhor das nuvens negras e do raio coruscante,

salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham

a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,

a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

cantando sem cessar as tuas obras, como cumpre

a um mortal, já que, nem para homens nem para deuses,

há maior honra do que celebrar sempre a tua lei universal.

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