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O lado nada fofo das mães


Aquela imagem de mãe sempre boa e que quer sempre o melhor para os filhos, pode esconder alguns aspectos nada fofos.

Dois dias com minha mãe no hospital e desenvolvi uma quase-teoria: não há nada de natural na relação entre mães e filhas, ao contrário, ela precisa ser construída e alinhavada cuidadosamente entre movimentos de independência e movimentos de aproximação, de familiaridade e estranhamento.

E porque já desisti definitivamente de acreditar em coincidências, enquanto, pela primeira vez em meses, ouço por inteiro e sem pressa as histórias de minha mãe, feliz de me ter assim "exclusiva", ainda que num quarto de hospital, também ouço a menina contar da amiga, cuja mãe consente que seja abusada pelo próprio irmão. Medo; quero defender. Mas nem sei...

Ser mãe não é atestado de bondade ou de generosidade, sequer uma terceira via 'apagadinha' garantindo o amadurecimento e, ainda menos, a disposição para o amor. Amor, me convence o Dalai Lama, é exercício e prática diária. Não nasce junto com os bebês, na hora do parto...

A gente adora acreditar nesse lado luminoso das mães, mas, para o bem de muitas filhas por aí, talvez fosse bom começarmos a trabalhar com o lado terrível da maternidade. Qualquer ancestral nosso veria com absoluto espanto essa idealização de uma figura que, para a imaginação primitiva, sempre foi multifacetada e resistente a todas as tentativas de domesticação. "Essa mulher", diriam, enrolados nas névoas do sonho, "que gera vidas, também as devora". E os estudiosos fazem coro solene: "O Feminino Terrível é a terra voraz que se nutre dos seus próprios filhos, cevando-se com seus cadáveres".

Uau!!!! Xô, mãezinha fofa, abram alas para Kali, a Mãe Terrível que os hindus veneram tanto quanto honram Tara, aquela que, no ioga antigo, conduz para "cima" e liberta o espírito através da feminilidade.

Não existe nada no Ocidente comparável à Kali. Ela é a deusa dos mortos, venerada em seus muitos - dizem que são 24 - aspectos, todos poderosos e amedrontadores, como Durga, a inacessível e perigosa, ou Parvati, filha do Himalaia. Sua festa era nas noites escuras, de Lua Nova, na primavera, tempo de revitalização de todas as coisas. Centenas de animais eram sacrificados em sua honra. O sangue fertilizava a terra e alimentava a deusa, cuja força era a base das mais altas, imensas, inatingíveis montanhas.

Hoje, o Templo de Kali, em Calcutá, acolhe milhares de fiéis no Kali Puja, um festival solene e reverente em honra à deusa negra. E na primavera, Durga, a que veio para destruir os inimigos dos homens, cavalgando ora um tigre, ora um elefante, é venerada numa festa que dura seis dias, o Durga Puja.

As imagens aterrorizantes de Kali provavelmente ajudam os hindus a refletirem sobre o delicado e instável equilíbrio do universo, eternamente oscilando entre luz e sombra, bem e mal... quem sabe ajuda as mulheres hindus a buscarem esse equilíbrio dentro de si.

O que está na sombra, a gente não vê e nos domina. Na sua sabedoria ancestral essas imagens da deusa terrível falam de um conhecimento profundo da alma humana, em toda sua redondeza, feita também de claros e escuros. Sem esse conhecimento, o escuro nos domina e nos engole... como a Grande Mãe Terrível engole seus filhos...
E como a gente volta lá para cima? Para aquele hospital, minha mãe feliz, a menina triste e perplexa...

Os gregos achavam que mães e filhas estavam destinadas a se tornarem uma só. E que esse era o propósito desse caminho nem sempre fácil que ambas devem percorrer, em busca de sua própria liberdade e autonomia. Chamavam esse reencontro heuresis. Alertavam, no entanto, que heuresis, só acontece quando as duas, mãe e filha, descobrem seus limites, seu poder, o espaço único de sua feminilidade. E que essa descoberta passa pela separação, pela independência, pela ruptura. Só aí, donas de si, essas mulheres podem se enxergar como faces da mesma mulher. Mãe e filha, na mesma mulher... E celebravam essa história da alma nos subterrâneos, nas cavernas, nos úteros, locais propícios para encenar os grandes Mistérios de Eleusis. Mas isso, já é outra história!

Ler um texto lindo sobre Felicidade que o leitor Marcelo Souza escreveu e deixou nos comentários do artigo da semana passada?
Livro Criando e amando sua filha adolescente, de Debra Whiting Alexander, da M.Books.
Livro Você vai sair assim? De Deborah Tannen, editora Campus.


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Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
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