Odisseu nunca morreu

Odisseu nunca morreu

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 18/07/2026 12:10:23



Ontem assisti ao novo filme de Christopher Nolan sobre a Odisseia e como acontece com quase todas as obras desse diretor, saí do cinema pensando menos nos efeitos especiais e mais na ideia por trás da história.
Já fui para o cinema muito preparado, li bastante sobre essa história e recentemente também assisti a série Troia que está na Netflix. Sou sincero em dizer que mesmo assim conheço pouco sobre o assunto, mas entendi que, pelo tempo que já passou, muito já se perdeu e para montar todo esse quebra-cabeças com tantos personagens incríveis vai levar um bom tempo.
Mas no caminho de volta, uma pergunta não saía da minha cabeça: afinal, há quanto tempo Odisseu viveu?

A resposta é tão impressionante que muda completamente nossa percepção da História. A Guerra de Troia aconteceu por volta de 1200 anos antes de Cristo. Parece um passado remoto, mas existe um detalhe que quase ninguém fala: Quando Odisseu lutava diante das muralhas de Troia, o Egito já era uma civilização extremamente antiga. A unificação dos primeiros faraós havia ocorrido por volta de 3100 a.C., quase 1.900 anos antes da guerra. As Grandes Pirâmides de Gizé já estavam de pé havia cerca de 1.300 anos. Em outras palavras, para Odisseu, as pirâmides eram tão antigas quanto o nascimento de Cristo é para nós hoje. Esse exercício de perspectiva muda tudo!
Costumamos imaginar os gregos próximos do início da civilização, quando, na realidade, eles próprios olhavam para um passado quase mítico. A História já era antiga para eles.

Depois da Guerra de Troia passaram-se aproximadamente 450 anos até que um poeta chamado Homero reunisse séculos de tradição oral e escrevesse a Ilíada e a Odisseia. Para ele, Aquiles, Heitor e Odisseu já eram heróis lendários.
Mais 370 anos se passaram até Sócrates, Platão e seus discípulos moldarem praticamente toda a filosofia.
Outros 380 anos, e nasceu Cristo. Vieram então o Império Romano, sua queda, a Idade Média, o Renascimento, as Grandes Navegações, a Revolução Industrial, a eletricidade, os aviões, os computadores, a internet e a inteligência artificial.
Mais de 3.200 anos nos separam da Guerra de Troia, e, ainda assim, continuamos contando a mesma história.
Isso nos leva a outra pergunta: por quê?

Talvez porque a Odisseia nunca tenha sido apenas uma história de aventuras... Bom, antes dela existiu a Ilíada, e compreender uma sem a outra é perder metade do significado. A Ilíada conta como um homem conquista a glória. A Odisseia pergunta o que acontece depois que a glória termina. Na primeira obra, os heróis lutam para vencer o mundo. Na segunda, o maior desafio é vencer a si mesmo. É como se Homero dissesse que ganhar uma guerra pode ser extraordinário, mas voltar para casa sem perder a própria alma é infinitamente mais difícil.

Costumamos resumir a Odisseia dizendo que Odisseu passou dez anos tentando regressar a Ítaca. Mas essa é apenas a superfície da narrativa. No fundo, Homero escreveu sobre um homem tentando atravessar vinte anos sem esquecer quem era. E talvez seja justamente por isso que essa obra continua viva depois de três milênios.
Cada encontro da viagem parece representar uma ameaça diferente à identidade humana. Quem experimenta a flor de lótus perde o desejo de continuar sua jornada... Quantas pessoas não passam a vida exatamente assim? Não foram derrotadas por ninguém, apenas esqueceram seus próprios sonhos.
Polifemo representa o orgulho. Odisseu já havia vencido o gigante quando decide revelar seu nome, e esse único gesto de vaidade desencadeia boa parte dos sofrimentos que ainda enfrentará.
Circe oferece o conforto, transformando homens em animais satisfeitos, não pela força, mas pela renúncia àquilo que os tornava humanos.
As sereias simbolizam todas as distrações irresistíveis que prometem conhecimento, prazer ou reconhecimento imediato, mas desviam o viajante do caminho.
Já Calipso oferece aquilo que qualquer ser humano, em algum momento da vida, imaginou desejar: a imortalidade.
É justamente diante de Calipso que acontece uma das cenas mais profundas de toda a literatura antiga. A deusa promete a Odisseu uma existência eterna, sem envelhecimento, sem sofrimento e sem morte... Mas ele recusa, prefere voltar para uma vida finita ao lado de Penélope, reencontrar Telêmaco e, um dia, morrer como qualquer homem.
Percebe que uma eternidade sem sua história, sem sua família e sem sua casa não seria uma vida plena; seria apenas uma existência interminável.

Talvez seja essa a grande lição da Odisseia, uma viagem que nunca foi geográfica, foi interior, com cada ilha representando uma forma diferente de abandonar quem somos... Às vezes pelo esquecimento, às vezes pelo orgulho, pelo prazer, pelo poder, pela distração ou até pelo desejo de viver para sempre. Odisseu não vence monstros apenas com sua inteligência; ele vence porque, apesar de todas as tentações, continua lembrando para onde deseja voltar.
Isso explica por que sua história ainda nos emociona. Todos nós conhecemos nossos lotófagos*, nossas sereias e nossas propostas de Calipso. Elas raramente aparecem na forma de deuses, mas costumam surgir como dinheiro, status, conforto, vaidade, ideologias ou distrações que, aos poucos, nos fazem esquecer aquilo que realmente importa.
A pergunta da Odisseia continua sendo a mesma depois de mais de três mil anos: o que será capaz de nos fazer perder nossa identidade?

É curioso, então, pensar no significado da imortalidade. Os gregos distinguiam duas formas de vencer a morte:
A primeira pertencia aos deuses: simplesmente nunca morrer.
A segunda estava reservada a poucos homens: realizar feitos tão extraordinários que seu nome continuasse vivo muito depois de seu corpo desaparecer. Chamavam isso de kleos, a glória que derrota o tempo.
O mais bonito é perceber que Odisseu recusou a primeira forma de imortalidade e, justamente por isso, conquistou a segunda. Seu corpo desapareceu há milhares de anos, sua cidade tornou-se ruínas, sua língua deixou de ser falada... Impérios nasceram e caíram, religiões transformaram o mundo. Civilizações inteiras desapareceram e mesmo assim, em pleno século XXI, um dos maiores diretores do cinema decide investir centenas de milhões de dólares para contar novamente sua história.
E Odisseu continua navegando...

Talvez essa seja a verdadeira definição de imortalidade. Não viver para sempre, mas viver de tal maneira que o tempo perca a capacidade de apagar sua existência. Pouquíssimos homens conseguiram isso. Um deles, curiosamente, foi justamente aquele que teve a oportunidade de nunca morrer e escolheu, em vez disso, apenas voltar para casa e nós continuamos contando sua história.

Fiz esse quadrinho só como um lembrete visual de como a história é incrível e as vezes ficamos concentrados apenas em um grande acontecimento... precisamos aprender mais, buscar mais pra viver mais!

3100 a.C. - Unificação do Egito e surgimento da Primeira Dinastia dos faraós. Início do Egito faraônico.

➜ Passam-se aproximadamente 1.900 anos.

1200 a.C. - Guerra de Troia e a época de Odisseu
Quando os gregos lutavam diante das muralhas de Troia, o Egito já era uma civilização com quase dois milênios de existência.
As Grandes Pirâmides de Gizé, construídas por volta de 2560 a.C., já tinham cerca de 1.350 anos.

➜ Passam-se aproximadamente 450 anos.

c. 750 a.C. - Homero compõe a Ilíada e a Odisseia. As histórias de Odisseu já eram antigas quando foram registradas por escrito.

➜ Passam-se 170 anos

c. 580-500 a.C. - Pitágoras desenvolve sua escola filosófica.

➜ Passam-se aproximadamente 370 anos.

c. 380 a.C. - Sócrates, Platão, Aristóteles... Em poucas décadas coexistiram ou se sucederam pensadores que moldariam praticamente toda a filosofia dos dois milênios seguintes. Odisseu já era um herói lendário havia séculos.

➜ Passam-se aproximadamente 380 anos.

Ano 1 - Nascimento de Cristo (referência tradicional do calendário ocidental)

➜ Passam-se aproximadamente 2.000 anos.


Esse é apenas um pequeno recorte e deixa de fora fatos e pessoas incríveis e importantes de propósito, para gente sentir apenas um gostinho do que é estudar nossa história, ao invés de saber o nome dos jogadores da seleção ou do BBB... ;-)
Hoje em dia nós ainda contamos as histórias dessas pessoas incríveis e imortais.
Quer viver pra sempre? Entre para a história!

*Na mitologia grega, os Lotófagos são um povo que vivia numa ilha perto do Norte de África. O seu nome advém de se alimentarem das flores e frutos da planta de lotos, existente nessa ilha em quantidade apreciável. Estas plantas são narcóticas, causando um sono pacífico aos habitantes da ilha.

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