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Paradoxo do Nosso Tempo


A vida é feita de um conjunto de frames – denominação hoje quase popular para milésimos de segundos, instantes que determinam o passado, presente e futuro de uma pessoa. Já pensou nisso? O fato de existir uma cronologia nas ações, na história faz com que a realidade possa ser medida. Bem, foi o homem que inventou as horas, que quantificou a existência. Levou isso tão a sério que acabou correndo contra o tempo, esquecendo-se de qualificar a própria vida.

Em seu romance inacabado, publicado postumamente sob o sugestivo título de “Morte Feliz”, o francês Albert Camus afirma que “A liberdade é ser senhor do próprio tempo”. Talvez antevendo a pressa universal que se intensificaria a partir da segunda metade do século, o existencialista apostava que a felicidade não constasse mesmo nos desígnios da humanidade. A pretensão de querer conter o tempo, ser-lhe algoz, apenas torna essa graça mais distante.

Em verdade, o tempo escorrega pelas mãos. Na tentativa de ganhá-lo, a maioria dos indivíduos busca pontuar religiosamente suas vidas pelo relógio. Ele é o grande ditador da modernidade. Indica que o dia tem vinte e quatro horas, que há um momento para se comer, dormir, trabalhar, se divertir etc. E, de alguma forma, por mais anti-horário que seja o cidadão, acaba encaixando-se num ou noutro padrão temporal. No fundo, possivelmente isso aconteça por uma necessária sensação de organização e segurança em relação ao destino. Colocar o todo em sintonia, de tal maneira que a meia-noite japonesa seja o meio-dia dos brasileiros.

Ocorre que o mundo acaba desafiando o fluxo natural das coisas e ignorando o ponteiro; deseja antecipar-se à própria criação. Tudo para que o “absolutamente imprescindível” seja feito - a tempo. O homem quer o futuro hoje, joga o passado pra depois e o agora, já foi. Parece haver um estado de ansiedade generalizado em nome do qual extrapola-se a capacidade de bem viver e subvertem-se valores. Assim, essa é a época das conquistas tecnológicas, dos avanços na medicina, mas de menos senso e saúde; da variedade e oportunidade de conveniências, da multiplicação de posses; porém, de pouca ética e disponibilidade para usufruir do que se adquiriu.

Enquanto dinheiro e poder são as prioridades eleitas pelo povo, a vida segue pulsando. Aprendeu-se a ganhá-la, mas não a vivê-la. Com tanto “progresso”, o homem soube adicionar anos à extensão de sua existência, mas privou de qualificá-la à extensão de seus anos. São tempos de refeições as mais variadas, mas de menos nutrição; de comunicação rápida e rasa, de muito lazer e pouca diversão; de residências mais belas e lares quebrados; de pílulas milagrosas que fazem de tudo: alegrar, aquietar e matar.

Ao final das contas, os homens têm-se abstraído deles mesmos. Encontram-se a mercê das distrações, são tomados pelo ímpeto de conquistar, de estar à frente. Andam a passos largos, descompassados com seu ritmo. Vertiginosamente vivem o dia-a-dia, atravessam o século e projetam-se, em pensamento, anos luz! Para eles, não há tempo a perder. Mas qual tempo? E tempo de quem? A infância não aproveitada, a viagem adiada, o convívio com a família, o nascimento do filho, o casamento do melhor amigo? Ocupados demais, preocupados em vencer o tempo, vai-se a Vida - ligeira e sem sabor. E que fazer, se a hora já vai adiantada?

(Juliana de S. Dutra)


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