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Pare e ouça a música!


"Nós chegamos a um ponto em que não conseguimos mais separar o valor das coisas do quanto elas custam", me cutuca Margot indignada. "Veja só esse artigo da Vida Simples", ela continua, "um dos maiores violinistas do mundo, Joshua Bell, toca seis peças clássicas no metro de Washington, nos EUA e simplesmente ninguém se dá conta do que está ouvindo!"
Vou atrás. E o artigo da Vida Simples de fato me deixa curiosa.

Além de ser considerado um fenômeno musical, Joshua Bell , é também jovem, bonito, engajado e ousado! Por isso, aceitou o desafio que o jornal Washington Post propôs e foi se postar em plena estação de metrô, de calça jeans e camiseta, assim como qualquer um desses músicos de rua pelos quais a gente passa sem ver... nem ouvir: sacola de moedas aberta na frente, violino no ombro.

Quem iria imaginar que o violino do rapaz tão igual a qualquer um no metro era o lendário Gibson ex-Huberman, uma obra de arte feita pelo mestre italiano, Antonio Stradivari, em 1713, e que vale milhões de dólares? Sim, quem ousaria imaginar?

O objetivo do experimento conduzido pelo Washington Post era responder à pergunta: "Num lugar comum, num momento qualquer, inconveniente talvez, será que as pessoas reconhecem o Belo?" Dá para identificar a coisa genial, sublime, se ela estiver perdida em meio ao "comum"?

Eram quase oito da manhã quando o grande violinista começou a tocar na estação, cuja acústica, aliás, foi generosa com as harmonias que nasciam das cordas do instrumento perfeito. Joshua Bell não tocou nada "popular", a idéia do jornal era que as pessoas ouvissem apenas obras-primas testadas pelo tempo, os mais belos sons criados pelos gênios humanos, aqueles que impregnam as paredes de pedra das mais antigas catedrais e ecoam nas grandes salas de concerto do mundo. Ele tocou "Chaconne", de Johann Sebastian Bach, considerada uma das peças para violino mais difíceis jamais escritas... e uma das mais belas! Depois tocou a "Ave Maria" de Franz Schubert, "Estrellita", de Manuel Ponce, uma peça de Jules Massenet, uma outra de Bach.

E a imensa maioria das pessoas que passaram pela estação sequer ouviu! Passavam pelo músico como se fosse um fantasma. Assistindo o vídeo depois, Joshua Bell, rindo, disse que estava espantado com o fato de que as pessoas passavam como se ele fosse invisível porque, afinal, "no mínimo, ele estava fazendo um bocado de barulho!"

Ninguém parou. Estavam todos com pressa para chegar ao trabalho. Passaram ser ver pelo músico que na semana anterior tinha tocado em Boston para uma platéia embasbacada que havia desembolsado no mínimo $150!

Ninguém, não, um homem parou, atônito, perplexo. Horas depois ele diria ao jornalista que perguntava se algo estranho havia chamado sua atenção pela manhã, na estação: “Sim, havia um violinista que tocava". "Você nunca viu um violinista tocar na estação antes”? "Não como aquele", respondeu o homem... uma moça reconheceu o violinista famoso... só!

Mais de mil pessoas passaram por Joshua Bell naquele dia. A beleza sucumbiu ao stress, ao embalo sem encanto da correria diária, ao cotidiano amarfanhado da vida nas cidades, à anestesia da rotina.

Engraçado, as crianças que passaram pelo violinista maravilhoso pararam. Embora puxadas pelos adultos que as acompanhavam, elas resistiam, bem do jeito das crianças pequenas, queriam ver-ouvir-experimentar, saudar essas estranhezas todas que de repente saltam na vida da gente e ficam por alguns poucos segundos penduradas nos fios do mistério, apenas por alguns instantes, mas que valeriam uma vida, se ao menos a gente conseguisse prestar atenção...

E desde que Margot chegou à minha mesa indignada não paro de me perguntar: será que eu pararia embasbacada diante do Belo?

Leia toda a história aqui (em inglês)


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Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
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