Por que eu ainda guardo algo para a volta

Por que eu ainda guardo algo para a volta

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 17/01/2026 17:59:48


Existe um tipo de coragem que sempre admirei à distância, essa de quem se entrega por inteiro, de quem aposta tudo, de quem segue em frente sem deixar uma rota de fuga bem planejada. Leio, reflito e reconheço o valor disso, mas, quando olho com honestidade para dentro, percebo que quase nunca vivi assim.

Aprendi cedo demais a ser responsável, a prever riscos, a pensar no amanhã antes mesmo de aproveitar o hoje, mas em algum ponto da vida, essa prudência deixou de ser apenas maturidade e passou a ser uma forma silenciosa de contenção. Não foi uma escolha consciente, foi um acúmulo de necessidade e decisões pequenas, sempre justificáveis, sempre sensatas... e quase sempre acompanhadas de um Plano B.

Eu entendo o sistema e observo seus mecanismos. Sei como somos moldados pelas limitações impostas pela biologia, pela sociedade, pela idade, pelo dinheiro ou pela falta dele. Reconheço a engrenagem, mas reconhecer não me tornou livre.
Existe uma distância enorme entre compreender e agir, entre saber e atravessar. Às vezes penso que a consciência, quando não vem acompanhada de coragem, se transforma apenas em um novo tipo de prisão, uma cela mais confortável, mais sofisticada, mas ainda assim uma cela.
Vejo pessoas que rompem, que arriscam, que não pedem permissão e ao mesmo tempo em que admiro, sinto uma espécie de inveja silenciosa mas não da conquista em si, e desta fé que antecede o salto.


O filme Gattaca sempre me provoca... Vincent, considerado "inválido", enfrentando um mundo que já decidiu o seu destino. Seu irmão Anton, perfeito, confiante, programado para vencer. A cena da natação em direção ao horizonte é quase cruel de tão simbólica.
Quando Vincent diz que nunca guardou nada para a volta, algo em mim se retorce, não por discordar, mas porque reconheço exatamente o oposto em mim. Eu sempre guardo!
Guardei energia, guardei esperança, guardei justificativas... Sempre deixei um pouco de mim preparado para desistir sem me sentir completamente derrotado.

Dizem que ter um plano B é maturidade... Talvez seja mesmo, mas também percebo que, no meu caso, muitas vezes ele funciona como anestesia. Enquanto o plano B existe, eu nunca me entrego por inteiro ao plano A. Nunca vou até o limite real e nunca descubro do que sou 100% capaz.
O medo do fracasso se disfarça de prudência. A insegurança se veste de realismo e assim, a vida segue mais segura, porém menor.

Leio muito sobre entrega, sobre fé, sobre confiança radical na vida. Gosto de quem fala disso com verdade, sem ingenuidade, mas minha espiritualidade ainda é mais contemplativa do que vivida. Observo de fora, entendo o conceito e respeito profundamente, só não consigo habitá-lo por completo. Talvez porque confiar exija algo que ainda não desenvolvi plenamente: a capacidade de aceitar a perda sem me sentir destruído por ela.

Quando observo minha própria história com mais cuidado, percebo que talvez eu seja mais corajoso do que costumo admitir. Mesmo carregando inseguranças antigas, mesmo desconfiando da ideia de fé irrestrita, segui em frente muitas vezes sem garantias reais. Trabalhei por conta própria por décadas, construí projetos do zero, formei uma família, criei filhos, mudei de cidade sem a rede de apoio dos parentes por perto. Não havia um plano B confortável esperando por mim. Havia responsabilidade, risco e a necessidade diária de sustentar escolhas que não podiam ser desfeitas com facilidade. Talvez isso também seja uma forma de coragem: não a coragem romântica de quem salta sem medo, mas a coragem silenciosa de quem segue apesar do medo, mesmo sem chamar isso de fé.
Apesar disso continuo refletindo e buscando pois algo em mim acredita que essa coragem não nasce pronta, mas talvez ela se construa aos poucos, na frustração, na admiração silenciosa, na convivência com exemplos que mostram que outra postura diante da vida é possível.

Eu ainda guardo fôlego para a volta e ainda olho demais para trás. Ainda planejo o recuo, mas em algum lugar interno, existe uma expectativa discreta de que, um dia, eu canse de sobreviver e resolva nadar.
Por enquanto, sigo observando e aprendendo com quem não guarda nada e talvez esperando que, quando chegar o momento certo, eu também encontre coragem para não precisar mais voltar.

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