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Rave e Xamanismo


Dedicado ao irmão Harpya das Matas Virgens,
em nome dos passos do Caminho e porque
não há porquês.
Pandora do Vale,
Irmãos, Saudações Xamânicas!


Não... Não chorem e não riam, porque talvez não seja o caso!
Pensemos largo, por agora, pois é necessário.

As muitas abordagens sobre as possíveis relações entre Rave e aspectos do Xamanismo são, absolutamente, impecáveis se analisadas à luz do que se passa no cotidiano das urbanidades. Mas que urbanidades são essas? Não serão as mesmas que, nascidas da miscigenação, trouxeram à modernidade costumes recentes ainda? Não eram os escravos boa parcela da gente miscigenada? Isto é uma história muito recente, pouco mais de cem anos se passaram e sabemos pouco sobre nossas origens. Mas, crescemos e nos multiplicamos em todas as partes, como convém aos bons católicos, tornamo-nos obedientes, adequados, desconectados e saudosos.

Temos raízes tribais quentes, não só o povo nosso, mas todos os povos trazem herança tribal... Bud Guy, o bluesman, ao empinar a guitarra e perder os olhos na fumaça, costuma dizer que "Todos guardamos no olhar a lembrança das savanas e dos tambores"...

Assim é, e a coisa tecnológica não está em outro plano, ao contrário, reflete em 'alto e bom som' a saudade dos tambores ancestrais. Há relatos e registros arqueológicos, de povos de todas as culturas, que atestam que as cerimônias psicodélicas sempre ocuparam espaço ritual, independente do modelo cultural de cada segmento, não estando vinculadas a nossos antepassados exclusivamente, porque está viva e acontece com uma interface diferenciada daquela que nos foi projetada e da qual nos habituamos, mas trata-se da mesma expressão.

As celebrações tribais do mundo Tupinipunk, são muitíssimo semelhantes àquelas realizadas por nossos antepassados, sejam eles romanos, gauleses, celtas, nórdicos, nativo-americanos, não importa. Trazem de volta elementos comuns como a estimulação dos centros de percepção, ajudado, inclusive, pela ingestão de psicodélicos, bem como reinventam formas expressas de hedonismo, despidas de idealizações, falsos moralismos e perfeitamente encaixadas no contexto de violência sociocultural urbana. Se o direcionamento dessa energia fosse inverso à violência das urbes, o resultado seria igualmente diferente, o que pode sugerir que outros interesses acabem norteando as festas Rave, talvez em prol da manutenção de ideais que colocam a expressão tribal de conexão à margem do modelo de adequação social judaico-cristão, que de cristão pouco tem, mas é oficial.

Os tambores tribais do mundo ancestral buscavam gerar prazer e purificação, purificação através do prazer e embora não sustentassem quaisquer estandartes que possam se parecer nem remotamente com religião, sabiam perfeitamente onde estava o Sagrado.

Eis o porquê do hedonismo ser renegado na cultura judaico-cristã e substituído pelo martírio, exaltado entre culturas antigas e clássicas, para ser resignificado nas culturas modernas e contemporâneas, independente de serem "tribais modernas" ou não. Trata-se de catarse natural, estimulada pelos sons dos tambores, transformada em mensagens que atravessam as nuvens e são retransmitidos eternamente, posto que estão vivos em nossos corações e consciências. Tratemos bem dessa lembrança nascida nas savanas africanas, porque é uma Lembrança Sagrada.

Aho!
Pandora do Vale

Nota de Rodapé: Jesus, aquele grande Xamã das urbes, em nenhum momento negou o hedonismo como parte integrante dos aspectos de louvação à Grande Obra, o resto é reinação dos homens...


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clube Pandora do Vale é Celina Beatriz Villanova. Menestrel, escritora, professora de "Mitologias e Culturas Comparadas" e escreve sob o heterônimo de Pandora do Vale.
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