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Real beleza

Real beleza
Publicado dia 22/10/2004 15:05:14 em Autoconhecimento

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"Você se sente bela”? Perguntou a feiticeira.
"Não", disse tristemente a mulher dourada. "E o que a faria sentir-se bela", voltou a perguntar a velha. "Ser amada", respondeu.

Seria um bom começo para algum conto sobre o feminino e seus mistérios, não parece? No entanto, este é o diálogo que muitas e muitas de nós encenam todos os dias, a cada vez que se olham no espelho.

Pelo menos, é o que revela um estudo mundial realizado pela empresa StrategyOne, com a coordenação de gente de peso, como Nancy Etcoff, da Harvard University junto com Susie Orbach, da London School of Economics. A pesquisa foi uma encomenda da Unilever, que a gente conhece aqui pela marca Dove e ouviu 3200 mil mulheres entre 18 e 64 anos, em dez países: EUA, Canadá, Inglaterra, Itália, França, Portugal, Holanda, Brasil, Argentina e Japão.

Os números são impressionantes:
Só 2% das mulheres se descrevem como belas;
59% de nós acreditam que mulheres fisicamente atraentes são mais valorizadas pelos homens;
54% das mulheres brasileiras já considerou submeter-se à cirurgia plástica, o maior número em todos os países;
As mulheres no Brasil são as que estão menos satisfeitas com sua aparência: só 1% se considera bonita.

No entanto:
68% das mulheres acha que a mídia utiliza padrões inatingíveis e irreais de beleza;
75% querem que a mídia retrate a beleza de pessoas normais;
76% dizem que a mídia retrata a beleza baseada mais na atração física do que na beleza mesmo;
77% disseram que beleza pode ser expressa por meio de atitudes e outros atributos, não necessariamente relacionados com a aparência física.

Complicado, não?
Vivemos escravas de um padrão que a imensa maioria de nós jamais irá alcançar, nem vivendo à base de alface e flores de azaléia, nem se malhar até a exaustão nas academias, nem se costurar uma pele nova em todo corpo, nem com crédito ilimitado na Daslu. Queremos tanto isso, tanto... E, no entanto, gostaríamos que as coisas fossem diferentes.

Na coletiva na qual a Unilever apresentou sua proposta de iniciar uma campanha pela Real Beleza, o clima de repente ficou tenso. Algumas jornalistas fizeram a colocação clichê: as mulheres querem ver a Gisele Bündchen na capa das revistas. Gente feia não dá audiência...

Pois é, foi preciso um esforço dos dois terapeutas presentes, Marco Antonio de Tommaso, da Universidade de São Paulo, e Alberto Goldin, da Universidade de Buenos Aires, para tentar mudar o foco da discussão. Não, não se tratava de discutir o feio, mas de ampliar o nosso conceito de belo.

Bingo! O que nos aprisiona não é a feiúra, mas a estreiteza do nosso entendimento do que é beleza. É este conceito que precisamos explorar, vasculhar, esgarçar, até que ele consiga conter nossos encantos, nossas tantas, infinitas formas, cores e jeitos de sermos belas...

É sempre bom quando as grandes empresas colocam seus recursos financeiros a serviço de uma idéia ousada, daquelas que podem engatilhar mudanças, semear sonhos. Por isso, fique de olho na campanha, use-a a seu favor, a favor de todas nós.

Porque prisão é isso mesmo. Sabem o que o Dr. Marco Antonio tinha na malinha? Um questionário preenchido por algo como 200 modelos belíssimas, daqueles seres perfeitos, deslumbrantes e chiquérrimos. Nele, em vez dos 2%, o números de mulheres que se considerava belas era 0%. Pelo menos uma destas criaturas de sonho, considerava a hipótese de se submeter a uma cirurgia de estômago!!!!! Entre orelhas defeituosas, olhos ligeirissimamente estrábicos, talvez unhas encravadas....

Por isso, é mais do que tempo de relembrar os versos do poeta, na sua Receita de Mulher. Acho que a gente lembra sempre dos começos:
“As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Entretanto, Vinícius de Moraes amava as mulheres, assim, no genérico... E o poema continua, desfilando as imagens de cada mulher, devolvendo a cada uma o prazer imenso de sentir-se bela!É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

por Adília Belotti

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Sobre o autor
Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
Email: [email protected]
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