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Sem criatividade não há prazer

por Bel Cesar

Sem criatividade não há prazer

Ao perguntarem a Bessel van der Kolk, renomado clínico e pesquisador do campo da Psicologia do Trauma, que cuidado deveria ter um cuidador para consigo mesmo, ele respondeu: "O mesmo que temos com as crianças: cuidar de sua alimentação, de seu sono e permitir que elas brinquem à vontade". Mas, o que é mesmo brincar e se divertir?

Uma brincadeira é divertida quando estamos totalmente entregues a ela: não há receios em se expressar, pois a imaginação está livre de críticas porque não necessita da realidade para que possa existir. Há prazer na autoexpressão quando não estamos sendo julgados, seja por nós mesmos quando estamos a sós, seja na presença de outros.

Quando nos divertimos, não nos desligamos de nossa realidade interna pois ela é a base de quem somos, mas a realidade externa torna-se flexível para adaptar-se à nossa imaginação. Podemos dialogar com ela sem nos preocuparmos com um resultado pré fixado. É como pintar, dançar, cantarolar, batucar ou assobiar espontaneamente: a criatividade surge sem esforço. Faço isso quando tricoto ou faço crochê. Não sei ainda no que vai dar, mas é divertido. Vou indo atrás das formas e dos pontos que surgem conforme a peça cresce. Depois vira um colete, um gorro ou uma bolsa. É um jeito para descansar a mente no momento presente com prazer. Enquanto nos deixamos ser levados pela sensação de prazer, há algo que permite que ele continue. Mas no momento em que passamos a avaliar o que estamos sentindo, ela some.

Sem prazer não há criatividade, assim como sem criatividade não há prazer. Apesar de estarmos há décadas contaminados por uma cultura que busca o prazer como meta de vida, ainda temos dificuldade de senti-lo. Há um feitiço contra o feiticeiro: precisamos produzir bens para então poder consumi-los com prazer. Se quero comprar algo que me dê prazer preciso primeiro efetivamente trabalhar, isto é, produzir.

Quando nosso trabalho permite certa criatividade, temos prazer em fazê-lo. Mas se estivermos preocupados em acertar o resultado final, teremos pouco ou nenhum prazer. Por isso é que cumprir metas é tão desgastante. Estamos condicionados a adiar o prazer em nome de um prazer maior no futuro. É bom saber tolerar frustrações. Mas, se vivermos apenas para suportar a vida, algo não vai bem. Se vivermos apenas para cumprir metas externas, quando o salário entrar na conta já estaremos envolvidos com a próxima meta a cumprir. Desta forma, estaremos sempre atrás de algo que nos promete, no futuro, dar-nos mais prazer.

Cabe ressaltar uma questão importante: não podemos confundir prazer com felicidade. O prazer é uma experiência sensorial de bem-estar; já a felicidade é o estado mental com que lidamos com esta sensação prazerosa. Por isso, o prazer não garante a felicidade, pois esta depende do significado e da função que atribuirmos a ele. Se atribuirmos ao prazer a meta de nossa felicidade não iremos nos dar bem, pois o prazer em si mesmo é passageiro e por isso não é capaz de sustentar nossa felicidade. Lama Michel Rinpoche esclarece: "A felicidade é um estado de verdadeiro bem-estar no qual a pessoa não deseja que nada seja diferente daquilo que ela está vivendo. É um sincero 'tudo bem', que sentimos quando paramos de lutar contra o mundo. Quando estou feliz tenho satisfação, sinto-me bem comigo mesmo e com o mundo à minha volta. A felicidade é um estado no qual você não está em conflito com absolutamente nada. Nesse sentido, é um verdadeiro bem-estar". Enquanto a natureza do prazer é a insatisfação, a natureza da felicidade é a satisfação.

Não há nada de errado em ter prazer se soubermos lidar com ele. É simples: basta senti-lo. Ponto. Como diz Lama Michel Rinpoche em nosso livro "O Grande Amor": "O bem-estar constante surge da capacidade de reconhecermos nossa satisfação interna. Em tibetano, a palavra para satisfação é tsog-schen. A ideia é não querer mais do que temos, pois já temos o suficiente. Podemos até obter mais; no entanto, não é preciso, já estamos satisfeitos".

Podemos unir o esforço à criatividade. Por exemplo, podemos seguir metas objetivas e nos relacionarmos de forma criativa com quem trabalhamos. Estar satisfeito com nossas metas e conquistas e ter prazer em criar por sermos quem somos: essa parece ser uma boa equação para lidarmos com o peso da vida.




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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
Email: contato@vidadeclaraluz.com.br
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Publicado em: 22/03/2018 11:12:19

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