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Sobre o terrorismo ideológico

por WebMaster

Recebido por Ana Cristina Carneiro

Parecia uma oportunidade boa demais, se assim podemos nos expressar, para os adversários dos movimentos hostis ao que chamamos na França de mundialização liberal (antiglobalização) tentarem utilizar em seu próprio proveito os acontecimentos do dia 11 nos Estados Unidos. Carentes de argumentos que justifiquem as "vantagens" da globalização (já agora maioritariamente encarada pelas opiniões públicas como benéfica essencialmente às empresas transacionais e aos mercados financeiros), eles se lançaram, numa primeira etapa, em outra frente: criminalizar os manifestantes, apresentando-os como delinqüentes. Agora, investindo numa perigosa escalada, tentam pintá-los como companheiros de jornada de Bin Laden.

Neste registro caricatural, o editorial do Wall Street Journal Europe (WSJE) do dia 24, sob o título "Adeus, Seattle?", merece ser arquivado para estudo nas escolas de jornalismo. Ele constitui, com efeito, um condensado sem equivalente de má-fé e terrorismo ideológico a serviço de uma causa pouco confessável: o reinado planetário dos mercados financeiros. O órgão da Bolsa de Valores de Nova York reitera os dois pontos citados acima: a) os manifestantes antiglobalização de Seattle, Gotemburgo e Gênova são indivíduos violentos e hostis à democracia; b) os manifestantes compartilhavam determinados objetivos dos terroristas que destruíram o World Trade Center e danificaram o Pentágono.

Como se sabe, prevalece no Wall Street Journal uma separação total entre as páginas de informação e as páginas editoriais. No caso das violências cometidas nas manifestações, o editorialista visivelmente não leu ou quis ler os artigos dos colegas de seu próprio jornal presentes nos locais dos acontecimentos, e muito menos o resto da imprensa internacional. Se o tivesse feito, saberia, para tomar apenas o caso mais recente - o de Gênova - que a violência foi planejada pela polícia do governo Berlusconi para desmoralizar todos os manifestantes. Como? Permitindo deliberadamente que vitrines fossem quebradas e carros incendiados por indivíduos violentos, os do Black Block, e em seguida infiltrando-se entre estes e utilizando-os para provocar os manifestantes pacíficos; finalmente, agredindo selvajamente manifestantes nas ruas e mesmo durante seu sono numa escola. Balanço: um morto e centenas de feridos, alguns muito graves. Sim, em Gênova havia efetivamente pessoas violentas: no máximo 2.000 Black Blocks, aos quais se somavam 20.000 policiais, face a 200.000 manifestantes não violentos. Confundir uns com outros é sair dos limites da deontologia mínima do jornalismo e contribuir para a desinformação dos que tomam decisões nos Estados Unidos.

O Wall Street Journal Europe admite não estar pedindo a proibição do direito de manifestação, que consta por sinal da Constituição de muitos países. Em que então o exercício deste direito constituiria uma ameaça à democracia? As pessoas que marcham na rua pacificamente fazem-no com o rosto descoberto, para exprimir suas convicções. O mesmo não se pode dizer dos lobbies que pululam em Washington, e que, com suas dezenas ou centenas de milhões de dólares, influenciam na sombra os legisladores por razões muito diferentes do interesse geral.

Quanto ao argumento da "democracia", responderemos que ninguém entre os manifestantes contesta que os governos do G-8 tenham sido democraticamente designados. Mas depositar uma cédula eleitoral na urna equivaleria acaso a dar carta branca aos dirigentes por quatro ou cinco anos? Quando, uma vez no poder, eles fazem exatamente o contrário do que prometeram aos eleitores, ou, talvez ainda mais grave, quando se abstêm deliberadamente de colocar as questões mais importantes ante a opinião e não dispõem de qualquer mandato específico, seriam absolutamente legítimos os seus atos? Na França, é o que acontece, entre outros casos, com as medidas de liberalização adotadas em escala européia e as políticas promovidas nas organizações multilaterais (FMI, Banco Mundial, OMC, OCDE): nunca se ouve falar delas durante as campanhas eleitorais, mas muito depois delas!

Mas o principal da acusação do Wall Street Journal Europe é a cumplicidade objetiva entre os terroristas e os movimentos antiglobalização, a pretexto de que ambos estariam combatendo os Estados Unidos. Esta acusação é grotesca: não estamos combatendo os Estados Unidos, mas as políticas neoliberais que promovem e que, através das condições apresentadas pelo FMI e o Banco Mundial, impõem a um grande número de países. Combatemos com igual firmeza o apoio dos governos europeus a essas medidas.

A hipocrisia dos comentaristas, como o do Wall Street Journal Europe, revela-se espetacularmente quando se sabe que a organização do milionário Bin Laden, acusada pelos atuais atentados, assim como o regime opressor e obscurantista dos talibãs no Afeganistão desfrutaram no passado do apoio político e logístico de Washington, e que o governo americano recusou-se até esta semana a tomar qualquer medida contra os paraísos fiscais. É no entanto público e notório que estes são utilizados pelas máfias e os movimentos terroristas para financiar suas atividades criminosas. George W.Bush acaba de reconhecê-lo tardiamente, ao anunciar que a "guerra" que pretende empreender será travada, entre outros, no terreno financeiro, e ao congelar os ativos de alguns deles nos Estados Unidos.

Outros governos até agora refratários a qualquer controle sério das praças off shore, como o de Londres, de repente resolvem segui-lo. Cúmulo da imoralidade do sistema, confirmando que nele é possível ganhar dinheiro com tudo, e especialmente com a morte: há indicações de que operadores próximos de Bin Laden, e tão versados quanto os traders de Wall Street nas operações especulativas mais sofisticadas, apostaram e ganharam somas consideráveis antecipando as conseqüências nas Bolsas dos crimes cometidos em Nova York e Washington.

No contexto atual, a existência de um movimento antiglobalização internacional e internacionalista é uma chance para a paz. Ao contrário de muitos governos que barganham seu apoio a Washington contra ajudas financeiras (como o Paquistão) ou contra um apoio discreto a suas próprias lutas contra grupos islâmicos em seus territórios (Rússia e China, entre outros), o movimento antiglobalização não tem segundas intenções. Ele incorpora tanto americanos quanto brasileiros, franceses e homens e mulheres de países árabes e muçulmanos. Constitui um autêntico anteparo ao ódio e ao fanatismo. Suas propostas revelaram-se premonitórias em todos os pontos: da necessidade de construir um mundo mais justo, em especial pela anulação da dívida - para impedir o desespero e o ressentimento, terrenos férteis do terrorismo -, à necessidade de lutar contra a finança globalizada e suas práticas mafiosas. Por isto é que ele não tem minimamente a intenção de tornar-se discreto nem de renunciar a qualquer de suas análises e iniciativas.

Temos de agradecer a Seattle por ter proporcionado o surgimento deste movimento internacionalista do futuro, e cumprimentar Porto Alegre por recebê-lo em janeiro próximo no contexto do Fórum Social Mundial, que será também o Fórum da Paz Mundial.

BERNARD CASSEN
* Bernard Cassen é jornalista, diretor geral do Monde diplomatique e presidente do grupo Attac France

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Atualizado em 27/09/2001 14:47:26

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