Sonder: Quando uma palavra nasce pra gente

Sonder: Quando uma palavra nasce pra gente

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 13/04/2026 11:20:30


O dia em que percebi que a linguagem cria a realidade

Recentemente minha filha me trouxe uma palavra que me fez parar por alguns minutos e simplesmente observar a vida de um jeito diferente. Aquela sensação estranha, quase silenciosa, de perceber que cada pessoa que cruza o seu caminho está vivendo uma vida tão complexa quanto a sua. Cheia de ambições, problemas, histórias, relações, memórias e confusões internas. Gente que você vê por dois segundos na fila de uma padaria, no trânsito ou andando na rua, mas que carrega um universo inteiro que você nunca vai conhecer. E talvez, na história delas, você seja apenas um detalhe irrelevante, alguém que apareceu uma única vez, como um figurante qualquer. Essa palavra é "sonder".
E quando ouvi, reconheci imediatamente o sentimento. Não era novo. Eu já tinha sentido aquilo várias vezes, só não tinha um nome. E isso muda tudo, porque quando algo ganha nome, ele deixa de ser apenas uma sensação difusa e passa a ser um conceito que você consegue acessar, lembrar e até compartilhar.

Inevitável lembrar do meu amigo Sergione e quantas palavras e conceitos ele me ensinou, mas principalmente me inspirou a buscar seu verdadeiro significado, como naquele filme, Casamento grego, onde o patriarca da família, protagonizava cenas divertidíssimas quando tentava explicar a origem e o significado de um nome era sempre Grego! kkkkk

Bom, mas continuando, aí veio uma dúvida: Sonder é uma palavra de verdade?
Fui atrás e descobri algo curioso. "Sonder" não existe em nenhum dicionário tradicional. Ela foi criada em 2013 por um projeto chamado The Dictionary of Obscure Sorrows, um tipo de coleção de palavras inventadas para sentimentos que todos têm, mas não conseguem nomear. Ou seja, é uma palavra recente, criada deliberadamente, sem origem etimológica clássica. Não nasceu do latim, não veio do grego, não evoluiu com o tempo. Alguém simplesmente olhou para um sentimento e decidiu dar um nome para ele.
E isso, de alguma forma, incomoda muita gente.
Porque existe uma crença silenciosa de que palavras só são válidas quando estão em um dicionário. Como se o dicionário fosse uma espécie de autoridade que decide o que existe e o que não existe na linguagem. Mas isso não é verdade. Nunca foi.

Uma palavra é, essencialmente, a ligação entre uma forma e um significado. A forma pode ser um som ou uma escrita e o significado é o conceito que ela representa. Se essa ligação existe, a palavra já cumpre sua função. Se eu digo "sonder" e você entende o que estou dizendo, então a palavra já existe, independentemente de qualquer validação formal.
O dicionário não cria palavras. Ele registra. Ele tenta capturar um consenso que já está acontecendo na prática. É como uma fotografia atrasada da linguagem, não a origem dela.

E isso fica ainda mais evidente quando você olha para os neologismos, palavras novas que surgem o tempo todo para dar conta de realidades que antes não existiam ou não eram nomeadas. Hoje usamos termos como "selfie", "cancelamento", "viralizar", "streamar", "printar", "stalkear", "ansiedade social", "burnout". Nenhuma dessas palavras fazia parte da linguagem comum há poucas décadas. Algumas nem sequer seguem regras clássicas do idioma, são adaptações, misturas, improvisos. E mesmo assim funcionam perfeitamente, porque carregam significado compartilhado.

A linguagem é viva. Ela não pede permissão para evoluir.

E talvez seja isso que incomoda tanto quando alguém diz que "sonder não é uma palavra real". Porque, no fundo, essa afirmação revela uma visão invertida sobre como a linguagem funciona. Não são os dicionários que autorizam as palavras. São as pessoas que dão vida a elas.
Mas existe um ponto mais profundo aqui, que vai além da linguística e entra diretamente no campo do autoconhecimento: Nomear algo é reconhecer sua existência.

Quantas coisas você sente, percebe ou vive, mas não consegue descrever. Quantos estados internos passam por você sem serem compreendidos simplesmente porque não têm um nome claro. E, ao não terem nome, permanecem difusos, difíceis de observar, impossíveis de trabalhar. A linguagem organiza a percepção.
Quando você aprende uma nova palavra, você não aprende apenas um termo, você expande a forma como enxerga a realidade. Você cria um novo "recorte" dentro do caos das experiências. É como se algo que antes era invisível passasse a existir.
"Sonder" faz exatamente isso, ele não inventa o sentimento, ele revela!

E talvez seja por isso que essa palavra pode incomodar algumas pessoas... Porque ela expõe o quanto somos centrados em nós mesmos. O quanto vivemos como se fôssemos protagonistas absolutos, quando, na verdade, somos apenas mais uma história entre bilhões. Ela traz uma espécie de humildade silenciosa, quase desconcertante, mas ao mesmo tempo, ela amplia a consciência.

Você começa a perceber que cada pessoa carrega um mundo interno tão denso quanto o seu. Que cada comportamento que você julga tem uma história por trás. Que cada rosto anônimo é, na verdade, o centro de uma vida inteira que você nunca vai acessar.
Isso muda a forma como você observa, como reage, como interpreta e talvez esse seja o ponto mais interessante de toda essa discussão.

No final, não importa tanto se uma palavra está ou não em um dicionário. O que importa é se ela aponta para algo real dentro da experiência humana. Se ela ajuda a ver melhor, a entender melhor, a se relacionar melhor com o mundo.
Porque a linguagem não serve apenas para falar. Ela serve para enxergar. E quando você entende isso, percebe que aprender novas palavras não é apenas ampliar vocabulário. É expandir consciência.

E talvez a pergunta mais interessante não seja se ela é real ou não, mas quantas coisas reais na sua vida ainda não têm nome?

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