Tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo
Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 07/10/2026 15:10:03

Existe uma frase frequentemente atribuída a Oscar Wilde que, ao que tudo indica, nunca foi escrita por ele, mas isso pouco importa diante da força da ideia:
O sexo é sobre Poder."
À primeira vista, uma frase que parece apenas uma provocação elegante, mas basta observá-la por alguns minutos para perceber que ela descreve algo muito mais profundo do que o próprio ato em si... Ela nos obriga a perguntar quantas das nossas escolhas realmente nascem do desejo e quantas nascem da necessidade de sermos admirados, aceitos, respeitados ou temidos.
Talvez o sexo seja uma das maiores forças da natureza porque carrega consigo um dos impulsos mais antigos da vida: a continuidade da espécie.
Durante milhões de anos, quem era mais forte, mais saudável, mais inteligente ou mais adaptado encontrava mais oportunidades de deixar seus descendentes... E nossa biologia nunca esqueceu essa história, mas o problema é que a civilização sofisticou esse impulso e ele deixou de aparecer apenas na reprodução.
Hoje ele veste terno, dirige empresas, acumula patrimônio, coleciona seguidores, compra relógios caros, publica viagens e disputa cargos que, muitas vezes, nem trazem felicidade... O desejo continua existindo, mas mudou de roupa.
Quando alguém afirma que quer dinheiro, fama ou reconhecimento, talvez esteja falando apenas da superfície...
O dinheiro compra liberdade, mas também compra status e o status desperta admiração.
A admiração produz influência e influência, no fundo, é uma forma de poder.
Poucas pessoas desejam riqueza apenas pelo conforto material. O que realmente seduz é a sensação de ocupar um lugar acima da média, de possuir uma capacidade de escolha que os outros não têm.
É curioso perceber que quase todas as grandes disputas humanas seguem essa lógica. Conflitos políticos, guerras, rivalidades intelectuais, disputas corporativas e até discussões familiares raramente acontecem apenas por causa do assunto em debate. Na maior parte das vezes, o verdadeiro conflito está escondido alguns metros abaixo da superfície, onde cada indivíduo luta silenciosamente para preservar a própria posição, a própria identidade e a própria importância diante dos outros.
Quase ninguém suporta perder uma discussão... dói perder o lugar que imaginava ocupar.
Schopenhauer talvez tenha descrito esse mecanismo melhor do que ninguém ao comparar a existência humana ao movimento de um pêndulo que oscila eternamente entre a ânsia de desejar e o tédio de possuir. Enquanto não conquistamos algo, acreditamos que aquilo resolverá nossa inquietação, mas logo depois da conquista, o encanto desaparece, o objeto deixa de produzir o mesmo prazer e nasce imediatamente um novo desejo.
Como se nossa mente sentisse uma "ausência" daquela sensação de expansão que acompanha toda conquista.
É justamente nesse ponto que o poder se revela mais sedutor do que o próprio sexo. O prazer sexual, por mais intenso que seja, termina, mas o poder... ah, esse promete prolongar indefinidamente a sensação de importância.
Ele te faz acreditar que agora é diferente, especial e até indispensável!
Talvez seja por isso que tantas pessoas estejam dispostas a sacrificar amizades, família, saúde e até a própria paz para subir mais um degrau em qualquer hierarquia imaginável. O objetivo raramente é o cargo, mas aquilo que ele simboliza!
O paradoxo é que nenhum poder sobrevive ao tempo...
Alexandre "O Grande" conquistou quase todo o mundo conhecido antes dos trinta anos e morreu sem conseguir controlar o próprio corpo.
Júlio César atravessou o Rubicão convencido de que dominava Roma e terminou assassinado pelos homens que mais conhecia.
Imperadores desapareceram, fortunas mudaram de mãos, impérios viraram ruínas e nomes antes temidos hoje ocupam apenas algumas páginas de um livro de história. O tempo possui um talento curioso para colocar todas as ambições humanas na mesma proporção.
Bom, talvez seja exatamente por isso que os estoicos insistiam tanto na virtude, mas não por desprezo ao sucesso, dinheiro ou reconhecimento, mas porque entendiam que nenhuma dessas coisas pertence verdadeiramente a quem as possui. Elas chegam, permanecem por algum tempo e inevitavelmente partem.
Construir a própria identidade sobre aquilo que o tempo pode retirar é entregar a própria paz nas mãos do acaso.
Quando compreendemos isso, a frase do início ganha outro significado.
Talvez nem tudo seja sobre sexo, mas sobre a tentativa humana de preencher uma sensação permanente de insuficiência, usando o poder como uma promessa de completude.
O sexo apenas tornou essa dinâmica mais visível porque concentra, em poucos instantes, desejo, conquista, validação e intimidade. O erro está em imaginar que a satisfação virá da próxima conquista, quando, na verdade, o vazio nunca esteve naquilo que ainda não possuímos.
No fim, a pergunta deixa de ser quem conquistou mais, quem acumulou mais ou quem exerceu mais influência. A única questão realmente importante é: quanto da sua vida foi guiada por aquilo que você realmente escolheu e quanto foi conduzido pela necessidade silenciosa de provar para alguém que você tinha valor?










in memoriam