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Um guia para 2002


Recebido de Ana Cristina Rosado

A política internacional tem um estranho destino: em geral é desprezada pela grande imprensa, salvo em momentos de grandes convulsões. No entanto, usa-se e abusa-se dela para dirimir as grandes polêmicas nacionais. Argumentos decisivos parecem ser tirados de casos a que só os supostos ''especialistas'' parecem ter acesso e compreender o significado, alegando que ''no México deu certo'', que ''o modelo chileno é o melhor'', que ''na Coréia do Sul fracassou'' ou que o ''Turquistão provou que o governo tem razão''.
É o que se pode chamar de ''imposturas internacionais'', para dar-lhe um nome. Cuidado portanto com todos - economistas, editorialistas, ''politólogos'', sociólogos, analistas internacionais, informe-se, não dê nada por estabelecido como se houvesse argumentos de autoridade, desconfie, sobretudo desconfie, busque verificar com sua própria cabeça.

Para surpreender-se menos com o que aconteça no novo ano, vão aqui algumas indicações, que podem ser úteis para isso e para que a imprensa sirva para emancipar e não para alienar as pessoas.

1. Quando um governante disser que ''não há outro caminho possível'', pode ter certeza que, tratando-se da ação dos homens, sempre há outro. À falta de argumentos a favor do seu, ele deseja afirmar-se, mistificando.

2. Quando ministros de economia, presidente de bancos centrais et caterva fizerem previsões, peça primeiro contas das previsões - via de regras erradas - que fizeram um ano antes, para saber se têm o direito de seguir ocupando o nosso tempo.

3. Quando ler que o México, o Chile, a Argentina - ou outro país qualquer - é o modelo a seguir, alternativamente utilizados conforme a gangorra os joga para cima ou para baixo, desconfie. Não espere que o México, o Chile ou a Argentina se esborrachem para ver que era uma forma de desviar a atenção da análise concreta do país em questão.

4. Quando ler que agora a economia vai crescer sem interrupções, mude imediatamente de leitura e de colunista. Passou-se a década passada com essa cantilena da ''nova economia'' e quando ela mostrou que de nova tinha apenas o nome, mudou-se de assunto, sem ninguém prestar contas das balelas que havia prometido.

5. Ponha os olhos firmes no que acontece nos EUA. Não porque sejam modelo para qualquer outro país, mas porque nada de importante no mundo hoje pode ser compreendido fora da hegemonia norte-americana e, portanto, o que passa lá conta muito para todo o mundo.

6. Mas não espere nada de bom vindo dos EUA, pelo menos enquanto eles continuarem a achar que devem dar lições - teóricas e práticas – ao mundo de como se constrói uma boa sociedade - sentimento reforçado, infelizmente, com os atentados de 11 de setembro, alienando-os mais ainda sobre o porquê dos sentimentos negativos que inspiram pelo mundo afora.

7. Não acredite que o capitalismo e o imperialismo já eram. Nunca houve tanto capitalismo no mundo - nunca tantas coisas e pessoas foram transformados em mercadorias, tiveram preço, foram comprados e vendidos -, nem nunca houve uma presença imperial tão forte no mundo.

8. Não acredite quando dizem que ''o Estado nacional acabou''. O G-7 (ou G-8), que é uma espécie de governo mundial, é composto pelos mandatários dos mais poderosos Estados do mundo e não pelos presidentes das grandes corporações. Além de que esses Estados têm as forças militares mais poderosas do mundo. O que eles querem é que, por exemplo, o Brasil, a Índia, a China, a África do Sul, o México, a Argentina, o Paquistão, a Indonésia, não resolvam seguir o mesmo exemplo e fazer reuniões periódicas de seus chefes-de-Estado para defender melhor os interesses da grande maioria da humanidade - que vive nesses Estados e não naqueles.

9. Pense que qualquer política internacional que não priorize pelo resgate da África está errada. Pergunte, diante de cada proposta: ''E qual o lugar da África?'' Será mais fácil entender o seu significado, a quem favorece e a quem prejudica.

10. Pense, como critério, que um mundo justo é aquele em que o que prima não são os interesses do dinheiro, do capital, mas as necessidades - materiais e espirituais - dos seres humanos. Somente assim será possível aos homens valer-se de todos os seus avanços materiais e intelectuais para construir uma sociedade solidária e humanista - sempre possível, enquanto os homens se valerem de sua capacidade de compreensão e de ação para interpretar e transformar o mundo no sentido de acabar com a exploração, com a dominação, com a alienação e com a discriminação.

Emir Sader - JB/Internacional


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