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Psicossomática V: Entendendo o processo de adoecer


Só podemos alterar ou evitar que algo aconteça se conhecemos seu processo, ou sua forma de atuação. O mesmo podemos dizer em relação às doenças. Conhecendo o processo de adoecer podemos nos prevenir ou ao menos entender o que acontece em nossa mente e corpo, e principalmente entender sua mensagem.

O estresse, nosso companheiro diário, realmente é um profundo sinal de alerta do organismo. A expressão corporal constitui o primeiro e mais primitivo meio de comunicação e de defesa que o ser humano dispõe, principalmente nos momentos que as defesas estão bloqueadas. A vinculação entre estado psicológico e baixa das defesas do organismo baseia-se nas alterações orgânicas que as situações do estresse provocam: maior produção de cortisona (hormônio produzido pelas supra-renais), que ocorre nessas situações, levaria à maior destruição das células de defesa do organismo. É muito comum ficarmos com gripe, herpes, ou contrair algum outro vírus, quando estamos fragilizados emocionalmente, pois o sistema imunológico é diretamente atingido. A relação entre o estado psicológico e as doenças não ocorre apenas nas situações de estresse, mas também de tristeza, sofrimento intenso, angústia, frustrações e perdas, principalmente quando acontecem repetidas vezes; ou seja, toda sobrecarga que gere tensão emocional pode ser a causa de uma doença.

Devemos também considerar alguns fatores determinantes da doença:
- Fatores predisponentes: de natureza genética ou adquirido;
- Fatores desencadeantes: relacionados ao estilo de vida (hábito alimentar, consumo álcool/ fumo/drogas, tipo e duração do trabalho, atividades físicas ou sedentarismo, vida sexual, lazer, relacionamento familiar e afetivo, religiosidade, escolaridade, posição social) e às condições do meio ambiente (alterações climáticas, condições sanitárias, poluição, etc).
Quando existem esses fatores ocorrerá um desequilíbrio interno gerando todas as fases do adoecer.
O processo de adoecer é lento e gradual, passando por quatro fases, sendo:
- Primeira fase: tensão emocional;
- Segunda fase: distúrbio funcional;
- Terceira fase: alteração celular, ocorrendo nessa fase alterações laboratoriais;
- Quarta fase: destruição celular, onde ocorre a lesão celular, ou a doença propriamente dita.

Ou seja, quando há tensão (primeira fase), dependendo da intensidade, repetição ou duração do conflito, seja consigo mesmo, ou com alguma situação, é suficiente para originar transtornos funcionais (segunda fase); e estes se repetidos e insistentes, alteram a vida celular (terceira fase); onde encontramos alterados os resultados de exames; acarretando a lesão orgânica, que é a quarta fase, ou a doença em si. É preciso salientar que o processo de adoecer começa muito antes de ser diagnosticado em exames, isso só ocorre na terceira fase, por isso ser tão freqüente descobrir uma doença já em estado avançado, onde anteriormente não constava em nenhum exame. Todo esse processo é inconsciente, podendo durar semanas ou anos.

Mas como evitar uma doença se quando for diagnosticada através de exames pode ser tarde? Cuidando de nossas emoções. O trabalho de prevenção é atuar antes do processo chegar na quarta fase. E cada um de nós pode evitar que exista uma sobrecarga de tensão emocional, identificando as situações conflitantes assim que elas aconteçam. Por isso se torna tão importante a expressão das emoções. Quantas vezes não sentimos algo e ignoramos, bloqueamos, negamos?

Hoje não temos mais como evitar o estresse ou a ansiedade, mas podemos identificar imediatamente quando estamos nos sentindo sobrecarregados e nos permitirmos parar um pouco para respirar. Em quantas situações não identificamos nosso cansaço e continuamos sem tempo sequer para respirar? Continuamos nos sobrecarregando sem nos darmos conta das conseqüências, ignorando os sinais que recebemos. Pensamos muito mais no momento presente esquecendo-nos que tudo que fazemos e principalmente, sentimos, têm conseqüências, que nem sempre são possíveis de serem revertidas. O ser humano corre tanto para quê? Qual o sentido? Geralmente para acumular bens materiais, buscar o poder, obter sucesso, o que muitas vezes está apenas encobrindo a necessidade de reconhecimento, de sentir ser uma pessoa de valor. Sim, tudo isso é muito gratificante, mas em determinados casos, qual o preço? Pagar com a vida ou a saúde? O único objetivo é fazer com que cada um reflita sobre a própria vida, sem ser preciso estar internado num leito de hospital ou inconsciente em uma CTI, onde freqüentemente encontramos pessoas desesperadas não pelo último contrato que não conseguiram fechar, mas pelo mais íntimo desejo de estarem perto daqueles que amam. É quando surge o medo da morte, e quem não está preparado para morrer, com certeza não está preparado para viver.

Quando doentes, sentimos medo de não conseguirmos realizar mais o que esperávamos ainda realizar. É o medo da despedida, da finitude, pois nós seres humanos tendemos deixar as coisas mais importantes para amanhã. E quem é jovem adora fazer isso e brincar com a vida e com os próprios sentimentos, porém não é o avançado da idade que nos faz adoecer, mas sim o acúmulo de mágoas, ressentimentos, conflitos. Por isso temos cada vez mais jovens com doenças muito sérias e com elas estão aprendendo a reavaliar seus valores, seu jeito de ser, sua maneira de viver. Enquanto as pessoas não se conscientizarem que paz, harmonia, alegria, não se compra com dinheiro ou poder, a doença continuará a atingir as pessoas para que comecem a dar mais valor aquilo que realmente dá sentido a vida: o amor! Sem ele não somos nada, mas infelizmente, muitos só percebem isso quando deitados no leito de um hospital. É quando terão a oportunidade de parar, pensar, sem pressa; e perceber que a doença por pior que seja, sempre nos traz uma mensagem que nos diz: pense, reavalie, mude o que precisa ser mudado, mas seja feliz!



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zago
Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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