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A história de Piktor e as metamorfoses do amor

por Adília Belotti
Publicado dia 22/03/2005 19:26:33 em Espiritualidade

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Será que ela gosta ainda de mim? Será que ele vai voltar? Será que nossos signos combinam? Será que vou morrer deste amor? E-mails e mensagens pedindo respostas mágicas ou palavras de consolo para aflições de amor não páram de chegar. E chegam assim, cheios de fantasias, inundados de ilusões... Desculpem, respondo, não conheço fórmulas mágicas, mas conheço histórias...

E tantas dores do coração me fizeram lembrar de uma história que li há muitíssimo tempo. É quase uma fábula. Mas serve para a gente perceber que esta alma gêmea que insistimos em colocar fora de nós, em alguém que está, é evidente, sempre nos escapando, na verdade, tem um lugar sagrado, garantido desde sempre em nosso coração. Nós é que temos que celebrar, no templo da nossa alma, o que os antigos chamavam de casamento sagrado, o hierósgamos, a união mística dos opostos que nos constituem e nos enriquecem. Aquele ser andrógino, formado por um par perfeito, almas que se completam, destinadas uma a outra desde toda a eternidade somos nós mesmos.

Todo este espetáculo do amor é realizado dentro de cada um, à medida em que vamos perseguindo nossa inteireza. E é esta a história de Piktor: a da busca da completude. Foi contada por um escritor chileno, Miguel Serrano, num livro em que ele narra os encontros que teve com dois dos homens mais geniais do século passado: o escritor Herman Hesse e Carl Gustav Jung.

O conto, segundo o autor, foi um presente que recebeu de Herman Hesse: “Hesse estende-me um livro belíssimo, impresso com sua própria letra manuscrita, em estilo gótico, e ilustrado por ele mesmo com aquarelas que representam algo semelhante a um estado parasidíaco. O pequeno livro intitula-se As Metamorfoses de Piktor e está colocado dentro de um estojo parecido com uma velha caixa chinesa”.

E a história do livrinho precioso começa assim: “O jovem Piktor entrou no Paraíso”... e viu-se diante daquilo que ele adivinha ser a fonte da vida. Maravilhado, ele observa tudo com espanto e surpresa... Ali, todas as coisas e os seres se moviam sem cessar, dançando e transformando-se eternamente na “corrente enfeitiçada das metamorfoses”.

Flores se transformavam em pássaros e pássaros trocavam a plumagem multicolorida pelos reflexos chamejantes dos cristais. Caminhando descuidadas, feras despiam-se de suas roupagens ferozes e imobilizavam-se por alguns segundos nas formas das pedras preciosas. E, em seguida, das profundezas dos rubis emergiam mais uma vez renovadas, como flores ou árvores ou peixes.

No paraíso, as flores cantavam e contavam histórias de outras transformações. Falavam com Piktor da sua infância e incutiam na sua alma a nostalgia do desconhecido. De repente, um pássaro-flor deixou cair aos pés do jovem uma pedra que “maravilhosamente brilhou entre a relva, como sinos que tocam para uma festa”.

Rápido, disse-lhe a Serpente, enrolada em um galho seco, faça um pedido.

Com medo de perder a chance de alcançar a felicidade, Piktor fez o desejo em seu coração e imediatamente transformou-se em árvore. Sim, porque era isto que ele sempre desejara ser mais do que tudo. Seus galhos cresceram até o céu e encheram-se de folhas. Suas raízes mergulharam buscando longe e mais longe a água da terra. Piktor estava feliz.

Olhou à sua volta para o Paraíso cambiante e, num susto, percebeu que algo tinha saído errado. Em meio à correnteza das metamorfoses, ele, a Árvore-Piktor era o único ser que não podia mais transformar-se e permanecia sempre idêntico a si próprio. A Serpente o havia enganado. Sua felicidade desapareceu e ele começou a envelhecer.

Um dia, uma menina se perdeu no Paraíso. Aproximou-se da Árvore-Piktor e acomodou-se entre as dobras do seu tronco. Ao ver a menina, a Árvore-Piktor sentiu uma urgência de felicidade. E de dentro da sua alma de árvore, uma voz gritava: “Pensa, recorda hoje tua vida inteira, descobre um sentido. Se não fizeres isto, será tarde demais e nunca serás feliz!”

A Árvore-Piktor fez um imenso esforço para lembrar-se. Onde havia se enganado, em que momento? E então, como um raio percebeu. Como podia ter sido tão estúpido? Lembrou-se das metamorfoses e dos seres ao mesmo tempo, flor e pedra, ao mesmo tempo homem e mulher, ao mesmo tempo Sol e Lua. Uma tristeza tão grande apossou-se dele, que a menina sentada em suas raízes tremeu e sentiu um súbito desejo de algo mais, um anseio de unir-se aquela árvore solitária.

E foi então que um pássaro aproximou-se e deixou cair algo brilhante como um raio aos pés da menina. Uma jóia, que ela pegou e que fez, num segundo, cumprir-se o desejo de seu coração. E ela uniu-se à árvore, transformando-se num galho verde novo e fresco que subiu alegremente até o céu. E, de novo, o Paraíso existiu.

Piktor deixara de ser uma árvore velha e transformara-se. De metade passara a algo inteiro e, agora, podia, ele também, participar do jogo incessante das metamorfoses. E ele foi pássaro e flor, homem e mulher, pedra e peixe. Possuidor de todas as cores e de todas as formas...

Eu era menina quando li esta história pela primeira vez. E assustei-me naquela época com a intensidade da emoção que ela despertou em mim. Estávamos eu e uma amiga, o livrinho mágico no colo. Havia, sim, uma promessa iluminando a noite e uma lua mágica que alimentava nossa saudade e insinuava respostas...

Naquela noite, todas as infinitas possibilidades da existência pareciam dançar em volta de nós e eu fiz uma promessa: ser inteira. E tecer para mim um vestido multicolorido. Vestida assim de todas as possibilidades humanas, um dia eu iria passear no Paraíso. Muito tempo passou desde esta noite extraordinária. Em alguns momentos, acho que envelheci. Mas em outros, fui, sim, árvore e pássaro, homem e mulher, estrela e mar.

E sei que ainda hoje, quando visto meu vestido enfeitado de cores, todas as possibilidades de novo dançam à minha volta e por alguns minutos talvez sinto que sou parte do eterno rio de metamorfoses do Paraíso.

E deixo a vocês, a resposta do pássaro à pergunta de Piktor: “Ó pássaro, onde se encontra a felicidade?” “A felicidade”, indagou o pássaro-flor, “mas em toda parte: na montanha e no vale, na flor e no cristal.”


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Sobre o autor
Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
Email: [email protected]
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