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A natureza da hostilidade  
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A natureza da hostilidade

por Bel Cesar

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Quem já não recebeu um golpe de hostilidade quando menos esperava? Basta um gesto brusco, uma palavra desagradável ou um silêncio cortante para sermos atingidos pela dor daquele que declara abertamente estar “de mal” com o mundo e, quem sabe, especificamente com a gente!

A hostilidade é uma energia baseada na agressividade, e tem como intuito declarar guerra: chamar o inimigo para o confronto, disputar um lugar ou uma posição. Baseada no ódio e na irritação com alguém, sua mensagem é clara: desejo prejudicar você!

Assim como diz o ditado popular, “Quando um não quer, dois não brigam”, cabe a cada um saber a hora certa de recuar. No entanto, isso não quer dizer que devamos fugir e desdenhar um aviso de agressão. Como agir diante da hostilidade?

De acordo com a filosofia budista, não nos cabe julgar a atitude alheia, mas sim cuidar da nossa. Neste sentido, podemos sempre escolher como agir ao invés de reagir. No entanto, para manter a calma e a clareza diante da hostilidade, é preciso ter um profundo conhecimento de si mesmo, baseado na certeza de que vale mais a pena o autocontrole do que se submeter a uma provocação alheia. O controle interior é uma virtude das pessoas que se dedicam ao autoconhecimento.

Podemos ver esta atitude naqueles que são compassivos e gentis por natureza. É admirável observar como os mestres budistas lidam com estes momentos: eles sabem a hora certa de agir ou recuar, pois uma vez que reconhecem o que se passa com o outro, conhecem também suas reações. No entanto, eles não são submissos aos abusos e declaram assertivamente os limites das situações.

Neste mundo competitivo, a ganância é vista como força-motriz para vencer. Aqueles que não se contentam com o que conquistam por meio de seu próprio esforço usam a hostilidade como uma arma potente, capaz de paralisar os mais suscetíveis às influências externas. Por isso, precisamos estar atentos àqueles que avançam por nossa porta adentro sem pedir licença, pois são pessoas acostumadas ao poder: eles acham que estão no direito de poder tudo a qualquer hora. Por isso são chamados de “cara de pau”. Eles agem de modo naturalmente hostil, pois sabem que assim têm menos chances de serem barrados. De fato, é verdade, pois o comportamento hostil desperta medo, raiva e ressentimento: um prato cheio para congelar emoções e impedir a possibilidade de alguém se opor à ação imposta por eles.

A hostilidade alheia nos intimida na medida que não sabemos lidar com nossa própria agressividade. Isto ocorre porque associamos nossa própria agressividade a uma idéia negativa; no entanto, a agressividade não é necessariamente uma emoção negativa. Ela também contém um sentido positivo: força para agir e seguir adiante. A agressividade, como força genuína do ser humano, não precisa necessariamente estar contaminada pela raiva. Neste sentido, ao invés de surgir como força destrutiva, ela gera força-motriz positiva: coragem para levantarmo-nos de novo e enfrentarmos obstáculos.

Neste sentido, a agressividade é uma autodefesa, isto é, um mecanismo biológico fundamental de adaptação. Ela nos ajuda a lidar com as ameaças de nosso território, tanto físicas quanto emocionais.

É interessante lembrar que o bebê passa a entender a sua própria individualidade a partir do momento que passa a sentir raiva. Por isso, a raiva é o primeiro sentimento que nos diferencia uns dos outros. Por meio da raiva, iremos gradualmente romper a relação simbiótica com nossa mãe. De modo semelhante, será a dor de uma decepção que nos ajudará a abandonar o passado e a nos arriscarmos num futuro incerto. Neste sentido, a agressividade nos impele a seguir em frente. É como se para largarmos uma etapa já vencida precisássemos escutar um basta em nosso interior, alertando-nos com firmeza: “Chega, abandone esta situação, siga em direção à outra”!

A agressividade torna-se uma força-motriz negativa quando está contaminada pelo desejo infantil de que poderíamos escapar das leis da responsabilidade pessoal, isto é, quando acreditamos na ilusão de que alguém pode nos satisfazer em todos os sentidos. A idéia de não-merecimento, de sermos vítimas de situações injustas, aumenta nossa raiva interior e nos torna hostis. Querendo ou não, teremos de lidar com os limites alheios para não cultivar uma constante frustração que gera apenas mais hostilidade. Por isso, a hostilidade é uma emoção anterior à ação agressiva; nela mora um secreto desejo de vingança: “Se você não fizer tudo que eu espero de você, irá se arrepender, pois vou me vingar”.

Uma vez que não conseguimos expressar a raiva, ela ficará reprimida em nosso interior, pulsando uma mensagem de indignação: “Isso não poderia ter acontecido comigo”. Lama Chagdug Rinpoche dizia que críticas são como flechas que atiram em nossa direção, mas na realidade não nos atingem: elas caem no chão. Somos nós que as pegamos e continuamos a nos apunhalar enquanto formos tomados pela indignação: “Ele não poderia ter dito isso, feito aquilo”. Isto é, como reagimos às críticas e o tempo dedicado a elas é sempre uma questão nossa, e não daqueles que nos agrediram.

Se somos tomados pela indignação, perdemos o autocontrole. Desta forma, nossa própria segurança torna-se ameaçada, pois sentimos que podemos explodir a qualquer momento. A hostilidade, uma vez recalcada, cresce interiormente como uma bomba-relógio, intensificando o medo e a insegurança. Quando somos tomados por tal agonia passamos a temer a nós mesmos, pois teremos medo de nossa própria agressividade: desconhecemos o que ela pode fazer conosco. A este ponto nos perguntamos: “O que acontecerá se eu perder o controle”?

A questão é que, quando crianças, aprendemos a recalcar a nossa raiva: tínhamos medo de que, ao expressá-la, iríamos danificar a nossa imagem diante daqueles que representavam uma fonte de segurança para nós, de que poderíamos ser castigados por eles ou perder o seu afeto.

O medo de magoar aqueles que cuidaram de nós gerou o sentimento de culpa inconsciente que nos faz sentir responsáveis pelos sentimentos alheios. Por isso, muitas vezes, quando adultos, não demonstramos sentimentos negativos frente a quem amamos para evitar ter que lidar com a ameaça de sentir a decepção alheia: “Se eu não te agrado é melhor você buscar outra pessoa”. Assim, preferimos suportar o desconforto interno a correr o risco de decepcionar aqueles diante de quem desejamos preservar a imagem de que estamos satisfeitos com eles, porque eles são o máximo, e por isso sempre nos satisfazem! Mas quanto mais negarmos nossa raiva, mais ansiedade iremos sentir sem compreender a sua razão aparente.

É o quantum de raiva internalizada que cada um traz consigo, como parte integrante de sua personalidade, que faz nos sentir mais ou menos desconfortáveis conosco mesmos. Desta forma, a sensação de inadequação e culpa voltará a surgir todas as vezes que tentarmos expressar a nossa raiva para aquele que amamos. Esse sentimento nos impedirá de amar verdadeiramente, pois uma vez que sentimos algo ruim em nosso interior, não nos consideraremos merecedores de amor.

Por fim, enquanto nos sentirmos prejudicados por alguém ou uma situação, manteremos uma ferida aberta que nos tornará cada vez mais amargos. Até mesmo aqueles que se proíbem de sentir raiva acabam por descobrir que ela está inevitavelmente em seu interior e se tornou uma força destrutiva. Por isso, o melhor é lidar com nossa hostilidade interna.

Seja por meio da psicoterapia ou pela ajuda de amigos íntimos, precisamos começar a ensaiar nossa capacidade de expressar a raiva interior de forma não destrutiva. No entanto, o primeiro passo para apaziguar a hostilidade interior será pela autocompaixão, isto é, aprender a ver a raiva em nosso interior como um sinal de que estamos simplesmente desequilibrados: ultrapassamos nossos limites ou não soubemos nos defender, mas não somos ruins por isso. Podemos nos dar uma nova chance ao comunicar o que estamos sentindo e ainda sim ser aceitos. Quando a intenção é o entendimento, encontramos uma forma de nos expressar que não magoa ou destrói o outro. Ainda assim, será necessário que o outro também esteja amadurecido para fazer o mesmo.

Em vez de nos acusarmos ou de redirecionarmos nossa raiva para os outros, podemos parar para observar o que estamos sentindo, dar tempo para o processo de autocura. Desta forma, iremos aprender que nossa agressividade não é uma arma destrutiva, mas sim um alerta de que é preciso dar mais atenção ao que se passa em nosso interior.


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
Email: contato@vidadeclaraluz.com.br
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Publicado em: 06/05/2005 12:30:30

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