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Agora que voltei para casa - Capítulo 8


Em Americana, vou morar numa república de professoras que compartilham uma casa durante a semana e passam os week-ends em São Paulo. Pela primeira vez na vida tenho um quarto só para mim.
O trabalho é um pouco cansativo porque se trata de alunos mais novos e principiantes.
A novidade de morar com outras pessoas, numa cidade que tem seus encantos, e o contato com os colegas compensam os transtornos da mudança.

Todo fim de semana vou para São Paulo, e agora a convivência com a minha família é mais agradável, por causa da distância.
As férias de julho chegaram e estou de novo em São Paulo. É sábado, saio para fazer uma visita a um casal de colegas da faculdade que mora no centro, perto do Campus. Encontro no apartamento deles outros rapazes, são amigos que participaram do Festival de Música Popular que acaba de se realizar. Um deles é um compositor, está ali com seu violão, continuamos em clima de festival.

Ele começa a tocar para mim, falando coisas que me fazem estremecer. É como se nos conhecêssemos há muito tempo, uma grande familiaridade se instaura entre nós. Ele propõe que a gente saia juntos, mas eu tenho um problema: combinei com outros ex-colegas de faculdade da gente se encontrar para ir tomar sopa de cebola no CEASA, é o programa “quente” (em todos os sentidos) do momento. O encontro está marcado na porta da minha casa. Ele sugere que a gente vá até lá, dispense os amigos para podermos ficar sozinhos. Concordo em sair com ele, tomamos um taxi em direção de minha casa.

De longe, vejo os meus amigos parados na frente do portão, à minha espera. Digo para N. que venha comigo para explicar a mudança de planos, mas ele insiste para que vá sozinha. Não sei se por lealdade aos meus amigos, ou por simples rebeldia, sou levada a dizer que ou ele vai comigo, ou então eu não vou falar nada e vou manter o combinado.
Ele finca pé em sua posição e eu, inflexível, deixo-o sozinho, e vou ao encontro de meu grupo. Vamos todos ao CEASA tomar sopa de cebola, como se nada fosse.
Porém o remorso pela minha estupidez, e a secreta esperança de encontrar N., me fazem voltar à casa de meus amigos no sábado seguinte. Ele não está. Em seu lugar, há um outro daqueles rapazes do festival, que eu tinha visto a semana passada, mas que não me chamara a atenção. Surpreendentemente, ele diz que sabia que eu voltaria, e que estava à minha espera. Descreve-me com detalhes uma visão que ele teve, da qual eu faço parte, como se fosse uma premonição.

É o quanto basta para que eu fique como hipnotizada pelas suas palavras, pela energia que emana dele. Com ares de dono, ele toma rapidamente as rédeas da situação, me leva para longe dali e começa a me embebedar com suas palavras em cascata.
Este homem tem o poder de me enredar completamente em suas histórias, de me convencer das coisas mais inverossímeis. Quando o vi pela primeira vez, sua figura não me atraiu nem um pouco: agora sinto-me completamente enfeitiçada por ele, mesmo seus defeitos mais gritantes parecem fazer parte de seu charme. Tem o tipo físico de um índio, fala perfeitamente o espanhol e diz ser descendente de mexicanos. (Mais tarde, descubro que nasceu no interior da Bahia).
Ele se proclama poeta, diz que tudo o que deseja na vida é encontrar a tranqüilidade necessária para escrever suas obras. De fato, presencio orgulhosa, ao lado dele, o lançamento de uma obra coletiva, junto com um grupo de poetas. É uma poesia muito forte, de contestação.
Ele também, como aquele italiano de Paris, está sintonizado com os ventos de rebeldia política que estão tomando conta do mundo. Tem uma posição de desprezo pela sociedade burguesa, fala de maneira irreverente de todas as instituições, parece uma espécie de paladino de todos os fracos e oprimidos. Não hesita em enfrentar qualquer pessoa que não concorde com suas idéias, nada parece poder detê-lo.

Já provocou vários incidentes “ideológicos” com alguns de meus amigos, mas eu continuo impávida defendendo suas atitudes, não passa pela minha cabeça contestar o que quer que seja, até sua mania de falar palavrões não me incomoda nem um pouco.
Toma completamente conta da minha vida, não consigo mais voltar a pensar com minha própria cabeça.

Depois de muitas hesitações, levo-o para minha casa, para apresentá-lo a meus pais. É um verdadeiro desastre. Em primeiro lugar, a cor de sua pele não agrada nem um pouco. Em segundo lugar, não tem a menor diplomacia para cativar os velhos, parece que faz de propósito em se demonstrar agressivo e impertinente. Minha mãe fica horrorizada, ainda mais que ele ousa questionar suas crenças religiosas.
Não há possibilidade de entendimento entre eles.

Durante os seis meses seguintes é como se um mecanismo sem volta tivesse sido acionado. Tudo o que estava represado dentro de mim explode finalmente. Sinto-me como se ele tivesse aberto as comportas de onde saem todos os meus sonhos mais loucos. Finalmente posso falar com alguém de tudo o que me vem à cabeça, sem censura.
Nós dois formamos uma ilha impenetrável e invencível, ao lado dele sinto a coragem de enfrentar a tudo e a todos. É muito ciumento e possessivo, mas até isso me encanta, é a primeira vez que alguém parece se importar tanto comigo.
Não estou em condições de ouvir os conselhos de quem quer que seja. Decidimos nos casar, à revelia de meus pais.

É assim que saio de minha casa, sozinha, numa manhã de sexta-feira, para ir casar com ele no civil e no religioso.


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clube Angela Li Volsi é colaboradora nesta seção porque sua história foi selecionada como um grande depoimento de um ser humano que descobriu os caminhos da medicina alternativa como forma de curar as feridas emocionais e físicas. Através de capítulos semanais você vai acompanhar a trajetória desta mulher que, como todos nós, está buscando...
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