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Agora que voltei para casa - Capítulo 15


As manifestações físicas de meu inferno interior me pareciam diretamente proporcionais à minha culpa. Parecia-me que enquanto eu não conseguisse reverter o processo patológico que tinha se desencadeado, isso seria um sinal de que Deus queria me estigmatizar diante de todo o mundo. Foi assim que me lancei com todas as forças que me restavam em busca de meu Santo Graal, sinal de que Deus me perdoara: minha cura.

Não podia ouvir falar em remédio, substância, terapia ou mágica, que não saísse com o coração aos pulos em busca do novo antídoto.
Tornei-me perita em medicina alternativa, desde curas de desintoxicação pelas ervas, amargas poções, nauseabundas misturas de carne crua e ovo cru, acupuntura na orelha, nas pontas dos dedos dos pés e das mãos até sangrarem, compressas de todos os tipos sobre meus pobres joelhos. Até me submeti a ter as pernas engessadas, após dolorosas sessões de tração na esperança de que as pernas esticassem e permanecessem retas dentro do gesso. Fiquei anos tomando semanalmente uma auto-vacina, preparada por um médico que se dizia imunologista, sem que eu nunca pudesse ter a comprovação da eficácia do tratamento. (Provavelmente o tratamento me ajudou, mas isso não impediu que meus sintomas progredissem).

Acreditei até nas promessas de um estranho indivíduo, que se dizia orientado por poderosas entidades, que me fazia misteriosos sinais com mercurocromo vermelho pelo corpo todo, inclusive na testa, e depois me deixava dezenas de pequenos frascos de água da torneira, que ele dizia abençoada pelos seus poderes e que eu deveria tomar sem nenhum temor. (Também não quero pôr em dúvida os eventuais benefícios dessa prática, só quero enfatizar minha credulidade e desorientação).

A vantagem de minha busca obstinada pela cura foi ter entrado em contato com técnicas de fisioterapia de todas as linhas, como “rolfing”, RPG, ginástica holística, anti-ginástica, e tudo o que estivesse ao meu alcance.
Passei horas intermináveis em salas de espera de todos os estilos, o que me forneceu uma bela amostragem de indivíduos sofredores de todos os tipos, cada um com uma história mais mirabolante do que a outra.
Tudo isso aconteceu durante todo o tempo em que pratiquei o exercício indonésio. Tive de me render à evidência de que seus efeitos, em lugar de aliviar minhas dores, me trouxeram uma confusão suplementar sobre a fronteira entre minha “doença” e as reações provocadas pelo exercício.
Sete anos durou essa purificação, até que cheguei à óbvia conclusão que minha cura não chegaria por aí.

Na verdade, acabei saindo do grupo Subud não por não querer mais praticar o exercício, que aliás não pode fazer mal nenhum e fica para sempre à disposição de quem recebeu a abertura. Acontece que a única restrição que se fazia a quem praticasse latihan era de não misturar o exercício com nenhuma prática de espiritismo. Eu, desde os tempos em que freqüentava cursos de Yoga e fazia parte de um grupo de Raja, tinha sempre ouvido falar do Espiritismo de maneira que me parecia perturbadora. Sem saber muito bem de que se tratava, tinha uma instintiva aversão por tudo que se parecesse com isso, inclusive todos os ritos africanos que me inspiravam um medo até físico. Até aquele momento sempre tinha me mantido afastada de qualquer experiência nesse campo.

Numa fase em que estava particularmente em crise, uma amiga minha veio me visitar, demonstrando grande preocupação pelo meu estado e revelando-me que tinha recebido a missão de me curar. Foi um apelo tão comovido e sincero, que não teria como recusar uma oferta tão desinteressada. Quando dei por mim, me vi mergulhada numa experiência inédita de espiritismo. Foi nesse momento que me vi obrigada a deixar de freqüentar o grupo Subud.
Essa minha amiga tinha o dom insuspeitado de incorporar espíritos de várias procedências, e declarou-me que tinha recebido de seu mestre a ordem de me ajudar em minha cura.
Além de muito surpresa e muito assustada no começo com manifestações nunca vistas, fiquei comovidíssima com a atenção que essa colega me dedicou desde o início. Tomou-me literalmente sob sua proteção, chegando ao ponto de me hospedar em sua casa, porque queria me assistir no desenrolar do tratamento, cuja base seria transformar completamente minha alimentação em macrobiótica.
Eu já tinha tido um contato com a macrobiótica na época em que percebi que me alimentar só com a comida da minha mãe tinha outras implicações negativas. Agora porém se tratava de mergulhar exclusivamente nessa experiência, sob a orientação de um médico especializado, porque assim o mestre de minha amiga tinha determinado.

Submeti-me a uma semana de jejum, em que era permitida só uma tigela de arroz integral no almoço e outra no jantar. Nunca esquecerei o enorme prazer que senti quando pude finalmente introduzir nas refeições a primeira sopa, a primeira cenoura cozida e, maravilha das maravilhas, a primeira (e única) sobremesa permitida: maçã cozida.Submetia-me religiosamente a todos os ditames dos vários mestres incorporados pela minha amiga, e cada sessão era para mim uma cortina mágica que se abria sobre um palco onde as surpresas se sucediam sem parar. Tinha certeza absoluta de que todos aqueles espíritos só poderiam me levar para a solução de todos os meus problemas, uma vez que eles detinham um saber que eu ignorava, além de atuarem numa esfera de pureza e elevação por mim inquestionáveis.
Minha amiga começou a me levar, uma vez por semana, a um centro onde uma outra médium, hierarquicamente superior a ela, reunia várias pessoas que eram atendidas em suas necessidades pelos mestres que ela incorporava. Outros participantes que tivessem o dom da mediunidade também poderiam se manifestar. Eu ia com o mesmo fervor com que se vai a uma cerimônia sagrada, e tudo aquilo que saía da boca de cada médium tinha para mim o mesmo valor de palavras evangélicas. Foi com muito espanto que comecei a presenciar certas manifestações de rivalidade, muito parecidas com as dos comuns mortais, entre os mestres da médium principal e os de minha amiga. O espanto foi maior quando me vi no centro das discussões entre as duas. Eu me tornara o pivô de uma divergência entre a orientação alimentar que minha amiga vinha me dando e as ordens que o mestre da outra médium acabara de me transmitir.
Os efeitos da alimentação macrobiótica tinham se traduzido na perda de cerca de treze quilos de meu peso e numa progressiva dificuldade de movimentos. O médico macrobiótico que me orientava insistia em dizer que quanto mais dores eu sentisse, mais rápida seria a cura. Já havia cerca de quatro meses que eu assumira sozinha o comando de minha cozinha, com grande consternação de minha mãe, que não podia intervir diante de minha férrea determinação, e que não ousava nem falar comigo, por medo de uma má resposta. Eu sei que ela sofria em silêncio e se roía ao ter de assistir àquele desastre sem poder fazer nada. Até o dia em que eu estava particularmente fraca e tinha recebido a visita de uma amiga angolana, sem papas na língua, que se declarou indignada com o que eu estava fazendo comigo mesma. Minha mãe, que aquele dia estava excepcionalmente em minha casa, e não esperava melhor oportunidade, também não se conteve, e me disse que se eu quisesse morrer, tanto valia fazê-lo de barriga cheia.

Foi exatamente na mesma época que a briga entre as médiuns eclodiu. A minha amiga, que apoiava plenamente a conduta do médico, teve de ouvir a outra médium me dando a ordem de comer não sei quantos potes de geléia de mocotó. Logo ela, que era vegetariana a ponto de não conseguir usar mais nem bolsa nem sapato de couro! Eu me sentia como uma bola de pingue-pongue no meio das raquetes das duas.
Quando perguntei à minha amiga em quem deveria acreditar, diante da resposta dela, senti toda minha confiança derreter como neve ao sol. Toda a segurança que ela me transmitia, e a inflexibilidade com que tratava os assuntos espirituais me tinham feito acreditar numa espécie de infalibilidade dela e de seus mestres. Agora, de uma só vez, enxergava suas incoerências e o quanto eu estava sendo temerária ao entregar em suas mãos minha saúde física e mental.

Comecei também a me questionar sobre a autenticidade daqueles fenômenos mediúnicos que eu tomara por ouro puro. Isso foi suficiente para me vacinar de uma vez por todas contra experiências similares.



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clube Angela Li Volsi é colaboradora nesta seção porque sua história foi selecionada como um grande depoimento de um ser humano que descobriu os caminhos da medicina alternativa como forma de curar as feridas emocionais e físicas. Através de capítulos semanais você vai acompanhar a trajetória desta mulher que, como todos nós, está buscando...
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