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Ainda não estamos prontos


Sai cedo de casa para levar meu cachorro para passear. Descia a pé pela rua Padre João Manuel em direção à Alameda Lorena - único sentido permitido para os carros – e, quando cruzava a Alameda Franca, vejo um senhor guiando um carro japonês bem grande, entrando na rua que eu descia numa violenta e perigosa contra-mão.
Pela sua aparência quase senil eu fiz um sinal amável querendo impedir que ele fosse atingido por um outro carro.
Bem, o homem abriu o vidro e disparou contra mim um repertório de barbaridades gritando que ele sabia que a rua era contra mão, mas estava fazendo aquilo para entrar no seu prédio -- que fazia esquina com a Rua José Maria Lisboa – meio quarteirão acima.

O ódio do homem atingiu em cheio o meu peito. Meu coração disparou, senti tontura. Meu peito galopou descontrolado e minha mente tentou buscar no meu cérebro explicações plausíveis para me acalmar:
- Deixa pra lá.... o mundo está mesmo agressivo... não era contra você que ele esbravejou ... ele é o maior prejudicado pelo ódio que sente... respire... e assim por diante.

A noite fui assistir a uma palestra com um médico e professor destes que só para contar sobre sua biografia levou uns quinze minutos, e que começa sua fala dizendo:
- Nesta noite estaremos vendo as funções do cérebro e o que estas funções podem estar fazendo no conjunto de sua vida para que vocês possam estar preparando suas teses...
Ao ouvir esta colocação no gerúndio de uma forma tão deturpada, traduzida diretamente do inglês, especificamente dos manuais de aparelhos eletro-eletrônicos, senti um arrepio da cabeça aos pés. Pensei rapidamente em como é possível um professor usar a língua portuguesa de forma tão incorreta.
Mais uma vez tentei acalmar meus arrepios: seja tolerante... a linguagem é algo que sofre modificação com as influências do meio... tente usufruir do conteúdo que ele explica... não se levante... não saia da palestra... respire... deixe passar... mude o foco da sua atenção...
Durante o trajeto que me trouxe de volta para casa pensei:
- Vou escrever um artigo sobre a tolerância. Mas deixei pra lá.
Porém, hoje fui a uma lojinha de reformas de roupa e jurei que o artigo tinha que sair.
Esperei pacientemente minha vez. Comecei a experimentar as roupas que queria reformar. Na segunda peça entra uma jovem executiva. Não diz bom dia, não pede licença. Corta minha frente, troca de roupa e começa a falar com a costureira que me atendia sobre suas pretensões de ajustes da blusa. Não permiti que a costureira me abandonasse e fosse atendê-la. Pois ela se colocou atrás de mim e batendo o pé no chão começou a falar baixinho tudo o que ela pensava de uma mulher que a impedia de ser atendida naquela hora. A raiva dela foi crescendo e minhas costas começaram a doer, pulsar. Sentia os influxos dela penetrando meu corpo. Agradeci a costureira, peguei minhas roupas e sai da oficina de costura. Pensei em tudo que sei para me livrar daquela sensação e fui correndo para casa tomar um banho de sal.
Sai do banho e comecei a escrever este artigo.

A gente ouve falar da capacidade que temos de mobilizar energias. Na verdade, sabemos que somos energia. E, desta forma, voláteis, rápidos, penetrantes. Numa cidade do interior onde cresci havia uma benzedeira que provava que a inveja era capaz de secar uma pimenteira. E mostrava os vasos secos que ficavam na frente de sua casa.
Nunca duvidei disso. Até porque sendo uma pesquisadora da mente humana encontro todo tipo de energia nos campos mentais que visito.
Mas saber é uma coisa. Sentir é outra. E nestes três episódios que relatei acima percebi que todos os meus corpos reagem às diferentes emanações de energia do outro.
No primeiro caso foi o corpo emocional que foi atingido. A reação veio em forma de batimentos acelerados do coração.
No segundo caso foi meu corpo intelectual que não suportou ver a nossa língua portuguesa tão aviltada, especialmente por um professor doutor que deveria ser o primeiro a evitar este tipo de composição tão desregrada. E a reação veio em forma de uma vontade de fugir daquela sala, de não querer ouvir mais, de defender meus ouvidos com minhas mãos. Na verdade, veio em forma de irritação.
No terceiro caso foi a intuição que me avisou que aquela executiva estava despejando um balde de ódio nas minhas costas. E a reação foi de arrepio na pele e uma determinação de fuga.

Mas uma coisa me consola. É saber que ainda não estamos prontos. É sentir que toda vez que asseguro-me de que subi mais um degrau na minha ascensão, situações destas ocorrem para provocar-me e avisar que ainda estou no meio do caminho na estrada que quero percorrer. É entender profundamente em meu coração que somos todos um e que só crescemos e evoluímos se formos todos juntos.
Claro que eu queria estar naquele estágio de amor, leveza e compaixão que nada mais afetaria meus corpos. Mas não estou. E muitas coisas ainda me afetam.
E, como diz Roberto Crema no livro “Espírito na Saúde” ( Editora Vozes):
“Quando você aprender a amar plenamente, uma comitiva especial e risonha vai aparecer à sua frente e dar-lhe um diploma. Você será diplomado como ser humano quando souber amar plenamente, nunca antes desta façanha”.
Meu Deus, como é difícil amar incondicionalmente e não se abalar com as pequenas mazelas deste mundo em evolução.
E, repetindo, o que verdadeiramente me consola é saber, como diz o Crema, que ainda não estamos prontos! E isso dá ao meu ser a medida exata de que temos que caminhar, com paciência, passo a passo em busca de nosso diploma.



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Izabel Telles é terapeuta holística e sensitiva formada pelo American Institute for Mental Imagery de Nova Iorque. Tem três livros publicados: “O outro lado da alma”, pela Axis Mundi, “Feche os olhos e veja” e “O livro das transformações” pela Editora Agora.
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