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Alegria diante do desconhecido


Recentemente fui viajar para um lugar onde nunca havia estado. Que surpresa ao notar o poder que o desconhecido tem sobre nossa mente em gerar alegria!
Foram dias de descoberta e muita curiosidade: estava relaxada e dinâmica ao mesmo tempo! Com o passar dos dias, observei que este sentimento de bem-estar continuou em minha mente enquanto mantive-me atenta apenas ao momento presente. Sem pensar nos detalhes da rotina de minha vida estava livre do passado e do futuro! Férias!

Agora, de volta ao cotidiano, apesar de conscientemente querer preservar este estado livre-leve-e-solto, senti a energia da alegria diante do novo se esvaindo... Um sinal de alerta soou em minha mente: “Perigo à vista: não deixe que as pressões externas levem embora a sua alegria de viver!”. No entanto, a força dos padrões antigos invadiu a minha mente sem pedir licença: senti-me inquieta "presa ao passado", quando comecei a lidar com as tarefas inacabadas deixadas há um mês e pressionada pelo futuro quando reconheci quanto trabalho está por vir!

Passei então, a sentir e observar que esta ansiedade, feita de pensamentos sutis que vêm e vão, estava levando embora a calma da mente espontânea e relaxada conquistada nas férias. Até o momento em que, como um insight libertador, a questão-chave veio à tona: “Como manter o estado de alegria interna diante da pressão cotidiana”?
Encontrei uma resposta quando perguntei a mim mesma: “quem sente a alegria?”, e logo me respondi: “o lado da minha mente que sabe brincar”.

A dica estava dada: o segredo para manter o estado de alegria interna está na conexão com nossa criança divina interior: a capacidade inata de rir e sentir prazer.

Interiormente, evoquei minha criança divina, pedindo a ela que não me abandonasse frente à vida tensa da cidade! Aos poucos, timidamente, ela retornou trazendo inspiração até mesmo para escrever este texto...

Todos nós temos uma porção do arquétipo da criança divina em nosso interior. Quando nos conectamos com ela geramos automaticamente inspiração e coragem para lidar com o desconhecido, pois ela contém a inocência e flexibilidade necessária para não resistirmos ao futuro.

Se ficarmos a serviço de nossos deveres e obrigações, desconectados de nossa criança divina, nos tornaremos rígidos e sem-graça. Por isso, precisamos sempre levar em consideração a necessidade de repousar e literalmente brincar para ativar a criança divina que nos desperta a alegria e o bom-humor.

“Poderíamos dizer que a criança interior é o nosso cérebro direito – intuição, imaginação, entusiasmo – que vive no presente, que sente as coisas, enquanto que o adulto é o nosso cérebro esquerdo, que aprendeu a raciocinar logicamente, a acumular saber, que pensa e age”. esclarece Paule Salomon em A Sagrada loucura dos casais (Ed. Cultrix).

Infelizmente, aprendemos a ser adultos ainda quando crianças: nos foi ensinado a pensar, ao invés de sentir. Agora, para nos tornarmos adultos-saudáveis, teremos que fazer ao contrário: sentir nossos pensamentos. Senão cairemos facilmente nas exigências que internalizamos quando crianças ao não considerarmos nossos sentimentos como algo de valor.

É importante ressaltar que a criança divina se distingue da criança-ferida que também nutrimos em nosso interior. Todos nós temos um quantum de energia bloqueada devido à memória de vivências onde fomos negligenciados, abusados, humilhados e criticados quando crianças. Esta porção de criança ferida nos faz exigências muito intensas, pois ela não sabe se é seguro relaxar diante das constantes mudanças da vida.

A criança-ferida surge quando duvidamos de nossa capacidade de ser feliz. Por exemplo, observe a freqüência com que criarmos um problema “do nada” quando estamos diante de momentos felizes... Aqui vale até ficar gripado no dia do seu casamento...

Acessamos muito pouco nossa criança divina por não valorizarmos nossos sentimentos como autênticos e significativos. Se escutarmos nossos medos, eles não precisarão ser expressos por meio de somatizações ou esquecimentos  que nos impedem de seguir em frente.

Paule Salomon aprofunda esta questão em seu livro A Sagrada loucura dos casais: “A resistência à mudança vem do fato de o adulto tentar agir como se estivesse sozinho dentro de nós, sem levar em conta a criança interior, sem informá-la, sem educá-la. A maioria de nós recebeu uma educação de adulto dominador diante de uma criança dominada. Interiorizamos essa relação e repetimos esse enredo no nosso teatro íntimo. Enquanto as relações de dominação prevalecem sobre as relações de proteção, estamos numa situação de dureza, de força. Não temos confiança em nós. O adulto em nós está numa situação aparentemente paradoxal, pois, por um lado, ele preserva a criança e, por outro lado, ele precisa aprender a não se manter no sentido de fechamento, mas, ao contrário, a se abrir sempre cada vez mais a sensações da criança, inclusive a vulnerabilidade. Sua tentação é sempre camuflar esse aspecto por se julgar invulnerável”.

Pema Chödrön nos alerta: “O mais doloroso é que, quando desaprovamos, estamos praticando a desaprovação. Quando somos severos, estamos reforçando a severidade. Quanto mais o fazemos, mais fortes tornam-se esses aspectos. É muito triste ver como nos tornamos especialistas em causar mal a nós mesmos e aos outros. O truque está em encarar tudo o que surge com curiosidade, sem fazer disso algo muito importante. Em vez de lutar contra a força da confusão, podemos ir ao encontro dela e relaxar. Quando agimos assim, gradualmente descobrimos que a clareza está sempre ali”. (Quando tudo se desfaz. Ed. Gryphus).

Na próxima vez que você reconhecer sua criança-ferida evoque imediatamente sua criança divina para lhe fazer companhia. Comece por brincar com você mesmo: com a água do seu banho ou desenhando “bobagens” na sua agenda.

E por fim, afirme a si mesmo algo que gostaria de ter escutado, mas nunca lhe foi dito! Repetir interiormente mensagens positivas repetidas vezes é uma excelente maneira de nos nutrir emocionalmente.

Vale a pena testar: escreva algo que você queira dizer para sua criança-ferida e deixe-o à vista para que você possa lê-lo várias vezes durante o dia e tente observar o que acontece. Pois quanto maior for o contato com nosso mundo interno, maiores serão as chances de ocorrerem sincronicidades positivas em nossa vida. A vida flui a nosso favor quando deixamos de lutar contra nós mesmos!



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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