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Babel ou desventuras de uma espécie que fala muito e não diz nada...


Não te gosto em silêncio porque te sinto distante...
Entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do Crepúsculo.


Se você ainda não viu, vá ver Babel, do diretor mexicano, Alejandro González Iñárritu, o mesmo de 21 Gramas e de Amores Perros.
E se me permite, gostaria de sugerir que você preste atenção na forma como o filme praticamente oscila entre hipercloses e imagens vastíssimas, vertiginosas, como se o diretor estivesse todo o tempo pontuando nossa absurda fragilidade diante de um mundo imenso e hiperbólico, ao mesmo tempo em que revela nos poros da pele, no fundo do olho, no suor e na sujeira do corpo dos personagens, os impactos deste encontro...

Sobre o que é o filme? No site oficial, Iñárritu, diz: “Descobri que a maior tragédia humana nasce da inabilidade de amar e ser amado e da nossa incapacidade de tocar e de sermos tocados por esse sentimento, que é a única coisa que dá sentido à vida e à morte dos seres humanos”.

No filme, como na Babel bíblica, o amor emperra na falta de comunicação, esse abismo de ausência que, de repente, se abre entre as pessoas.
Mas não só o amor sofre com a dificuldade de comunicar, o que está em jogo é aquilo que existe de melhor em nós...

Há muitos milênios, onde hoje é o Iraque, e não muito distante de Bagdá, viviam humanos orgulhosos e valentes; Babilônios, chamavam-se, herdeiros do velho Noé, habitantes do deserto, acostumados aos desafios que os deuses costumavam colocar pelos caminhos poeirentos e infestados de serpentes sedentas que eles percorriam. Tais criaturas, no entanto, não se limitavam a sobreviver. Olhavam para o céu e imaginavam infinitas possibilidades. Queriam imitar os deuses, e criar, cidades... mundos!

Resolveram construir uma cidade, tão bela que durasse eternamente, tão alta, que tocasse o próprio céu.
Trabalhavam juntos e juntos ergueram a cidade, e da cidade, uma torre, altíssima, sim, seria uma escada que os colocaria de novo bem diante dos portões da morada divina. E em sua arrogante inocência, acreditaram que podiam tudo...
Deus não gostou; quem eram esses seres que Ele mesmo havia criado para honrá-Lo e reverenciá-Lo e que agora se julgavam Seus semelhantes? Como podiam ousar querer ver de perto Sua divina face?
E resolveu castigá-los pela insolência. E mal tinha tomado a decisão, já as criaturas humanas sentiam o poder de sua fúria.
Deus fez com que cada um falasse uma língua diferente que os demais não pudessem entender. E como se olhavam e não podiam mais compreender um ao outro, confundiram-se, estranharam-se e cada um partiu para um canto da terra.

A bela cidade, em ruínas, nunca foi terminada. Mas seu nome, Babel, que ninguém lembra mais se queria dizer “portão do céu” ou “confundir”, foi registrado no livro sagrado e ficou para sempre na memória dos homens.

A história de verdade, você lê no livro do Gênesis, 11: 1-9, mas essa versão se encaixa bem na fala de Roberto Calasso, autor de um livro lindo de histórias “inventadas” a partir da mitologia hindu, “essas coisas”, diz ele “nunca aconteceram, mas sempre existiram” e assim são esses relatos, contados e recontados...

Dizem os estudiosos que a história da Torre de Babel seria um jeito de contar o surgimento das várias línguas humanas. Para mim, vai ser sempre a história do nosso maior desafio...

E você, o que acha?

LEIA Aqui você descobre os meandros da Torre de Babel, do ponto de vista católico

E aqui, conhece o ponto de vista dos judeus

OUÇA
...o poeta J.G. de Araújo Jorge declamar Não te Gosto em Silêncio

VEJA
...
trechos do filme Babel

Não Te Gosto em Silêncio
Não te gosto em silêncio porque te sinto distante...
Entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do crepúsculo.
Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos, pousados,
dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos
e intermináveis invernos.
Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza
é apenas o reflexo das estrelas.
Por isto te provoco é te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassibilidade do lago,
como pancadas no gongo que estremece e vibra
e te traz à tona para mim.
Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de tua voz
ainda se esconde alguém que tu própria não conheces,
a alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.
Não te gosto em silêncio, porque preciso ainda de tua palavra
para te descobrir,
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando
na noite emaranhada meu indeciso caminho.
Porque preciso ainda que tua palavra chegue como um vento forte
arrastando nuvens, limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol...
Um dia te gostarei em silêncio. E então me recolherei em teu silêncio,
e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas o meu beijo.


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Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
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