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Como ocupar-se de si mesmo

por Bel Cesar

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"A maneira como você age quando está sozinho afeta o restante de sua vida", disse Chögyam Trungpa Rinpoche a seu filho Sakyong Mipham antes de sair para um retiro de meditação.

Em geral, temos (ou criamos) poucas oportunidades para estarmos sós. Estamos tão viciados nos estímulos do mundo externo que automaticamente nos ligamos a eles até mesmo quando estamos a sós.

Cada um sabe o que faz para manter-se ligado ao mundo externo quando está só: ver televisão, falar ao telefone ou entrar no Facebook... O ponto é que a maneira como nos ocupamos conosco é que nos leva a ter experiências de prazer ou de dor com o mundo externo.

Em geral, deixamos a mente solta como um cavalo selvagem que corre segundo seus hábitos e instintos. Se estamos habituados a sentir emoções negativas como raiva, medo ou ciúmes, não nos damos sequer a chance de sentir algo como confiança, empatia ou força de superação. Já nos sentimos derrotados no primeiro golpe.

O segredo está em saber se consultar internamente antes de agir impulsivamente. Quando tomamos as rédeas de nossa mente sem freios, desenvolvemos a capacidade tanto de intuir como de discriminar os sentimentos que devemos seguir e redirecionar aqueles que nos levam a agir gerando mais e mais sofrimento.

Jack Kornfield descreve em seu livro "Psicologia do Amor" (Ed Cultrix) os quatro princípios transformativos que o budismo nos inspira a seguir diante da dor emocional: reconhecimento, aceitação, investigação e não identificação.

Por exemplo, quando estamos irritados. O simples ato de reconhecer nossa irritação como um assunto de âmbito interno já nos liberta das expectativas alheias em nos acalmar.

A irritação é energia mal parada, mal elaborada, mal direcionada. Nossa mente fica oprimida, sem espaço, abafada. Sentimos calor e palpitações no coração. Qualquer estímulo surge como uma provocação: queremos distância, espaço e tempo! Ao nos darmos conta de nossa irritação como algo que precisamos resolver "em nossa própria casa" passamos de um estado estagnado para a liberdade de poder mudar.

Uma vez que reconhecemos onde estamos, não adianta querer sair correndo, como se fosse possível fugir de nós mesmos. Ao aceitar o que percebemos que está acontecendo em nosso interior, adquirimos um estado sutil de relaxamento que nos dá condições de olhar mais claramente onde nos encontramos.

Neste sentido, aceitar não significa acomodar-se à situação, mas, sim, posicionar-se diante de um novo ponto de partida.

Quando recuperamos a capacidade de ficar diante da emoção destrutiva, podemos observá-la. Investigar significa olhar mais plenamente tanto o que se passa em nosso corpo como em nossa mente.

Feche os olhos para perceber melhor a parte do corpo que está mais afetada com o sentimento de irritação. Enquanto respira, focalize essa região, abrindo-se para assistir aos pensamentos e sensações que surgem espontaneamente. Na medida em que reconhecemos nossos sentimentos, abrimo-nos novamente para aceitá-los. Em seguida, investigamos a natureza impermanente dessas emoções. Será que esta experiência é tão sólida quanto a que estamos sentindo? Sabemos que a irritação é um estado passageiro, por mais longo que ele dure. Ao investigar como nos fixamos a esta experiência, passamos a compreender como sair dela.

No momento em que deixamos de nos agarrar à emoção negativa como nossa única possibilidade de existência, passamos a não mais nos identificar com ela e, assim, completamos o ciclo de transformação.

Jack Kornfield esclarece: "A não identificação significa que paramos de considerar a experiência como 'minha'. Nós vemos como a nossa identificação cria dependência, ansiedade e inautenticidade. Ao praticar a não identificação, nós inquirimos em relação a cada estado, experiência e história: "Isso é o que eu realmente sou?' Nós vemos o caráter provisório dessa identidade. Então, estamos livres para abrir mão e repousar na própria atenção".

Seguindo estes quatro passos, podemos tornar nossos momentos de solidão em verdadeiros atos de transformação!




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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
Email: contato@vidadeclaraluz.com.br
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Publicado em: 22/03/2018 10:12:04

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