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Construindo um refúgio

por Adília Belotti
Publicado dia 25/02/2005 12:20:03 em Espiritualidade

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Minha amiga está construindo um refúgio. Não simplesmente um lugar para morar nem um escritório. Nada a ver com os home offices. Ou com a modernidade novaiorquina dos lofts. E desprovido da domesticidade de um lar. Um refúgio. Uma caverna. Ontem fomos lá, encantar o ar com patuás, talismãs e incenso. Brindar às portas que se abrem com uma taça de vinho tomada no chão nu e recém-encerado e, o mais importante, conhecer o minúsculo jardim de pedrinhas encarapitado no alto do prédio.

Sempre me delicio com a vista noturna das janelas dos edifícios. Não tem visão mais linda do que o tapete de luzes humanas estendido lá fora... Somos construtores de estrelas, sim senhor. Do refúgio-caverna da minha amiga, a gente olha a cidade com o coração amolecido. As estrelas fazem a cidade inteira pulsar...

Entramos avoadas no apartamento vazio e saímos com a reverência solene de quem deixa um espaço sagrado. Inundadas pelo mesmo sentimento que a gente tem quando sai do silêncio úmido das catedrais para a luz do sol e, empurrados pelo barulho surdo da imensa porta que se fecha às nossas costas, somos, de novo, parte do burburinho, notas na melodia do mundo...

De onde será que vem este anseio por um canto, nosso lugar único no mundo, uma espécie de umbigo que nos liga à Mãe Ancestral – ou qualquer que seja o nome que você dê para este colo cósmico que um dia vai nos acolher... Nós somos eternos buscadores do espaço sagrado, esteja ele no alto das montanhas, no ventre de uma caverna, no silêncio dos monastérios ou junto ao nosso próprio santuário doméstico, ali nós somos inteiros, plenos.

Lembrei de C.G.Jung e de sua Torre de (Jung construiu em Bollingen - Suíça, uma grande torre cilíndrica, como que para materializar fisicamente seu sistema psicológico; nela costumava se recolher e participar de rituais místicos. Tinha gravado nas paredes internas símbolos esotéricos e mandalas, assim como frases de conteúdo filosófico e alquímico. ) Bollingen(*). “A princípio não pensei em fazer uma verdadeira casa”, ele conta, “mas apenas uma construção de um andar, com lareira no centro e leitos ao longo das paredes, à maneira das moradas primitivas. Tinha diante dos olhos a imagem de uma cabana africana: no centro, cercado por algumas pedras, o fogo brilha e em torno dele se desenrola a existência da família. Na verdade, as cabanas primitivas realizam uma idéia de totalidade, de uma totalidade familiar, da qual participam também vários tipos de animais domésticos. Era uma cabana deste gênero que eu queria construir, uma morada que correspondesse aos sentimentos primitivos do homem. Ela devia oferecer uma sensação de refúgio e de abrigo, não só no sentido físico, mas também psíquico.”

Doze anos depois, a tal cabana havia virado uma construção em quatro partes, expressões da passagem do tempo pela alma de seu proprietário: “(...)Era poderoso o sentimento de repouso e de renovação que a torre despertara em mim desde o início. Constituía como que uma morada materna.”

Mas fuja da impressão de que os refúgios são locais sempre aprazíveis e amenos, onde nos refazemos das eventuais ingratidões do mundo. Uma espécie de sauna espiritual. Nem sempre é assim. A descrição que o psicólogo suíço faz da construção da sua torre serve de alerta: o trabalho de acolher a alma é, muitas ou tantas vezes árduo: “No correr dos anos pintei as paredes desse quarto, exprimindo tudo que me conduz da agitação do mundo à solidão, do presente ao intemporal. É um recanto da reflexão e da imaginação; as fantasias são muitas vezes desagradáveis e os pensamentos difíceis de lidar. É um lugar de concentração espiritual”.

É impossível compartilhar a memória desta construção com Jung sem se sentir o toque suave dos dedos da fada das metamorfoses. De repente, a torre já não é apenas a torre e paredes e móveis, chão e pedras são momentos psíquicos concretizados, vivos e pulsantes. Companheiros de jornada.
“Desde o início, a torre foi para mim um lugar de amadurecimento – um seio materno ou uma forma materna na qual podia ser de novo como sou, como era e como serei. A torre dava-me a impressão de que eu renascia na pedra. Nela via a realização do que antes era um vago pressentimento: uma representação da individuação, um marco. Ela exerceu sobre mim uma ação benfazeja, como a aceitação daquilo que eu era.”
Desprezando os confortos modernos, eletricidade e água encanada, em Bollingen, Jung encontrava na simplicidade a mais fiel tradução da linguagem da alma. “Mergulho no silêncio e vivo em modesta harmonia com a Natureza”.

Fiquei pensando no apartamento da minha amiga e nos seus espaços vazios. Refúgios são assim, construídos aos poucos, no ritmo das visões e dos insights, no compasso elíptico da nossa vida interior. Não dá para imaginar ninguém entrando em uma loja e comprando móveis e objetos para “decorar” seu refúgio. Nestes espaços, os objetos nascem, gestados nas memórias e nos sonhos. Lá, até o ar é grávido de significados.

E, você sabe, não precisa ser um apartamento nem uma torre. Dizem que os primeiros templos eram apenas pedaços da paisagem tornados sagrados. Os feiticeiros ou os sacerdotes, seguindo o sussurro dos deuses, recortavam com invisíveis tesouras um cantinho de floresta ou uma curva de caminho: tudo que acontecesse ali, dos pingos de chuva aos matinhos em volta das pedras, tudo adquiria um sentido especial. Dali em diante e para sempre, era lá que as pessoas iriam buscar os presságios e as intuições.

Acho que são assim os refúgios, cantos encantados que a gente recorta no cotidiano e enfeita com as cores da alma.


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Sobre o autor
Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
Email: [email protected]
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