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Devemos evitar a morte, mas não rejeitá-la!


Recentemente me surpreendi com Juliane Zaché, jornalista da revista Isto É, propondo-se a fazer uma matéria sobre a Morte que não tivesse um caráter pesado. Conversamos por duas horas. Voltei para casa com a sensação de que havíamos falado sobre uma “pessoa” que se tornou famosa justamente por raramente sair na mídia revelando sua vida íntima: sua força secreta, seus medos e anseios. Tomara que esta pessoa morte esteja finalmente podendo se expressar!

Em seus ensinamentos, Lama Gangchen Rinpoche, mestre budista, nos ensina que podemos não apenas morrer sem medo, mas ir além do medo: desfrutar da morte. Ele nos disse: “Podemos aprender a olhar a nossa própria morte como diretores de um filme. Em geral, parece que, pela dissolução de nosso físico, morreremos fracos, mas com a energia da Autocura podemos morrer fortes”.

Fiquei com a frase: “Podemos morrer fortes” ressoando em minha mente. Compreendi, então, que ser forte não significaria ser capaz de confrontar a morte, mas sim de saber fluir com ela. Percebi como em geral temos o hábito de ser contra a morte. Por isso, quando chega o momento de vivenciá-la nos vemos numa grande confusão, pois é chegada a hora de darmos as mãos para quem, em vida, julgamos ser nossa maior inimiga.

O budismo tibetano não é a favor da eutanásia, isto é, a morte não é para ser buscada, mas isso não quer dizer que ela deva ser rejeitada. Evitada sim, rejeitada não. No entanto, quando a morte chega, deve seguir seu curso natural. Neste sentido, o processo de morte não deve ser prolongado indefinidamente quando não houver possibilidade de recuperação, mas também não deve ser acelerado.

Segundo o budismo, a questão relevante concentra-se em gerar condições para que a pessoa possa apresentar estados mentais positivos no momento de sua morte. A questão, portanto, não é se o corpo vive ou morre, mas se a mente pode encontrar-se pacífica ou não. Já a medicina ocidental concentra-se no estado físico da pessoa: o importante torna-se mantê-la viva. A mente é deixada em segundo plano. Afinal, como cuidar dela se a desconhecemos?

Por exemplo, os estados mentais de quem está em coma não são considerados relevantes pela Ciência porque esta não consegue ter muito acesso a eles. No entanto, ainda há muito por aprender. Aqueles que permaneceram ao lado de uma pessoa querida em coma sabem que sua presença física, assim como sua atitude mental, são agentes de transformação.

Segundo o budismo, temos um corpo e mente grosseiros e sutis. Quando as funções do corpo grosseiro diminuem, como no estado de coma, o corpo sutil continua presente. O corpo e a mente sutis têm as mesmas potencialidades do corpo humano: são capazes de escutar, sentir, transformar. Por isso, no momento em que o corpo físico, grosseiro, está perdendo suas forças, é hora de cuidarmos do corpo e da mente sutis: a mente pode elevar-se enquanto o corpo decai.

No entanto, estamos acostumados a associar os estados mentais às nossas condições físicas: se o simples fato de estarmos com prisão de ventre já nos causa mau humor, o que dizer dos estados contínuos de dor daqueles que enfrentam um processo doloroso no final de sua vida!

Lama Gangchen nos alerta: “Cada vez que temos uma emoção negativa estamos matando a nossa energia positiva”. Por isso, precisamos desde já, aprender a reagir positivamente frente aos momentos em que comumente estamos fracos. No próximo desconforto físico, procure dar a si mesmo uma nova atitude mental. Ter paciência com nossa vulnerabilidade física é um ato de autocompaixão.

Podemos olhar o processo de morte como uma oportunidade de crescimento e realização. Em outras palavras: vamos despertar nosso interesse por oferecer a nós mesmos e a nossos amigos uma morte melhor!



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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