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Divina Justiça


Lembro-me como se fosse hoje.
Há dez anos, mais ou menos, fui estudar em Jerusalém com Madame Colette Aboulker, na verdade, o ser que inspirou estudantes a usar a imaginação como uma forma de atingir as imagens que a mente arquiva para qualificar emoções. Ela criou a técnica que depois foi aperfeiçoada e usada por seus alunos.

Madame Colette era uma mulher forte e direta, sem trejeitos românticos ou excessivamente femininos. Poderia até passar uma primeira impressão de ser arrogante.

Nas primeiras aulas que tive com ela, confesso que fiquei com vontade de voltar para minha terra natal. Obriguei-me muitas vezes a olhar além do gesto e encontrar na sua alma uma bondade e candura de tocar o coração.

Num dia, no final da aula, dirigi-me a ela e coloquei uma questão que me desesperava, uma vez que estávamos em companhia de seres que falavam o tempo todo em atingir Deus sem conexões. Diálogo franco e direto com o Criador.

Perguntei, então, a ela porque Deus, que era um Ser tão bom e aberto ao diálogo com seus fiéis, permitia que a guerra fosse tão cruel e violenta naquela parte do mundo onde seu filho nasceu, cresceu e morreu.

Madame Colette descruzou os braços que apertavam seu estômago e falou num só fôlego:
- Deus não é bom. Deus é justo!

Esta resposta dada, assim, como uma baforada de neve vinda dos Himalaias, atingiu em cheio os laços das minhas crenças desatando o elo que me ligava à Igreja Católica.

Relembrei o confessionário das igrejas onde o fiel contava todos os seus pecados e, do outro lado da parede frágil de madeira, um homem em batinas perdoava em nome de Deus; prescrevia algumas penitências e despachava o cristão para seu rosário de penas. E a gente voltava na semana seguinte com os mesmos pecados que eram perdoados e assim por diante. Que Deus bonzinho a gente aprendeu a amar!

Mas, em Jerusalém, me foi dito assim à queima roupa que Deus – que, até então, para mim tudo via e provia -- não era bom - era justo? Confesso que fiquei muito abalada com isso. Foi como se uma ventania destelhasse meu couro cabeludo e um furacão rodasse todas as minhas células no sentido contrário ao do relógio.

Bem, o tempo passou e comecei a pensar profundamente na frase da Madame Colette que pouco a pouco fui assimilando, encontrando sentido, praticando e, finalmente, incorporando à minha existência.

Hoje, no café da manhã, uma amiga conta que seu sobrinho vai casar com a namorada de alguns anos que sabemos não gosta muito dele.
Os dois estão com muitas dificuldades financeiras e este tema tem sido a engrenagem que mais atrapalha na corrente do relacionamento.

Minha amiga, continuando a conversa, conta que os dois conseguiram mobilizar todos da família, amealharam as poupanças dos mais velhos e, por fim, fecharam as contas para pagar uma festa de arromba para 200 pessoas num bufê logo ali no bairro mais caro da cidade.
Depois, com o que conseguiram pegar emprestado do banco, vão esquiar no Chile, conhecer o Peru e talvez girar pela Bolívia numa viagem tipo adventure.

Comentei com minha amiga que talvez esse não fosse o momento para tais extravagâncias, uma vez que precisamos guardar as economias para o que possa acontecer nos próximos meses. Uma questão de bom senso... pensei com meus botões.

Ao que ela responder num só fôlego:
- Imagina, minha cara, Deus tudo provê com sua infinita bondade. Nada há de faltar aos dois. Para que pensar no dia seguinte se o futuro a Deus pertence?
Calada, imaginei a Madame Colette respondendo a esta frase.
Mas ela já não mora em Jerusalém. Mudou-se para o céu e espero bem que Deus esteja sendo justo com ela.

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Izabel Telles é terapeuta holística e sensitiva formada pelo American Institute for Mental Imagery de Nova Iorque. Tem três livros publicados: "O outro lado da alma", pela Axis Mundi, "Feche os olhos e veja" e "O livro das transformações" pela Editora Agora.
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