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Está tudo bem


Certa vez, Lama Gangchen Rimpoche, ao nos falar sobre a paz interior, disse-nos: “Não é preciso reagir, está tudo bem”. Sem perceber, respirei profundamente e relaxei. Foi quando me dei conta do poder que esta frase havia tido sobre mim: finalmente podia reconhecer que estava tudo bem.

Geralmente, estamos questionando o mundo a nossa volta: criticamos, duvidamos, pomos tudo e todos à prova. Tal como lidamos com nosso mundo interior: algumas vezes pensamos para não sentir; e outras tantas queremos sentir sem correr o risco de pensar! Sem contar as vezes que dizemos algo que, de fato, não sentimos. Isso ocorre porque não sentimos o que pensamos!

Estamos com a lixeira de nosso computador interior lotada de informações inúteis. Precisamos parar para esvaziá-la. Quando a falta de espaço interno torna-se relevante, nos tornamos impacientes e irritadiços, e nada tem graça. Tudo se torna denso, como um engarrafamento no final da tarde: não podemos ir nem para frente, nem para trás, e ficar onde estamos parece que vai nos levar a loucura!

Reconhecer que estamos estressados nos ajuda a efetivar uma mudança em nosso estilo de vida. Ao começar o ano, depois de uns dias de descanso, estamos mais atentos aos padrões de comportamento que não queremos repetir. Vamos aproveitar esta pequena pausa para recomeçar de modo pacífico: menos reativos.

Muitas vezes, temos que nos dizer que tudo está bem, mesmo quando tudo não vai bem. Pois intuitivamente sabemos que não podemos mais pôr lenha na fogueira: o calor dos conflitos já está nos queimando. É hora de suavizar e reverter, fazer as pazes. Quando passamos a lidar positivamente com alguém ou uma situação que até então estávamos reagindo negativamente, a energia muda: surgem soluções inesperadas. O que nossos inimigos menos esperam é serem bem tratados por nós. Quando deixamos de ser reativos, rompemos o hábito de nadar contra a correnteza.

Não ser reativo não é o mesmo que ser submisso ou passivo. Muito menos ser capacho de egos afoitos. Não ser reativo é saber distanciar-se para contemplar o fluxo dos acontecimentos, e então, sob uma nova visão, participar daquela realidade com calma e clareza.

Quando estamos bem centrados em nosso eixo de paz interior, percebemos também quando é hora de reagir, o momento em que ser ativo é um ato de auto-estima e auto-responsabilidade. Não podemos ser cúmplices de situações que consideramos desequilibradas, ilícitas ou falsas. Nossa auto-estima nos orienta a tomar decisões: quando devemos entrar, permanecer ou sair das situações.

Nossa auto-estima está baseada em nossa capacidade de aceitar tanto nossos limites tanto quanto nossas necessidades. Ser realista frente à nossa real situação é uma atitude saudável. Quando cultivamos uma boa auto-estima nos sentimos aptos a lidar com as exigências que a vida nos traz. Ter uma boa auto-estima é confiar em nossa capacidade de enfrentar os desafios básicos da vida. Podemos, então, aceitar a insegurança como parte inerente da existência e depositar confiança no fluxo da vida.

Quando fechamos os olhos para perceber nosso mundo interior, observamos o sutil hábito mental da auto-rejeição. Podemos reconhecer que temos a tendência de lutar contra o que estamos sentindo quase o tempo todo. Há um conflito entre o pensar e o sentir.

O pensamento é um hábito mental, enquanto o sentimento é a memória de uma experiência. Não é possível sentir através do pensamento. Isto é, não basta pensar o sentimento. É preciso sentir o pensamento para tocar o grande coração: nossa boa auto-estima.

Enquanto criticarmos nossos sentimentos, estaremos armazenando energia de autocondenação. Os sentimentos não aceitos e não integrados sustentam nossa atitude de auto-rejeição. Eles ficam armazenados em nosso corpo, nos músculos, chakras e órgãos.

Quando nos abrimos para sentir nossos sentimentos, nos abrimos também para sentir nosso corpo. Se nos mantivermos atentos e relaxados ao mesmo tempo na percepção de nossos sentimentos, poderemos localizar a área física onde este sentimento está se concentrando. Então, ao pousar as mãos nesta região, geramos calor e calma: energias que ajudam nossa energia vital voltar a fluir.

Ao manter os olhos fechados, podemos nos conectar também com nosso eixo de descanso interno: um estado de aceitação incondicional onde nossa mente relaxa enquanto nosso corpo respira livre e espontaneamente.

Nós nos rejeitamos quando controlamos nossos sentimentos, quando temos vergonha de nós mesmos. O segredo está em sentir o sentimento sem analisá-lo. O que você precisar aprender com uma experiência lhe será revelado no ato de acolhê-la. O objetivo é integrar as diferentes partes de nossa mente: criar intimidade consigo próprio.

Podemos “estar com” os sentimentos dolorosos ao invés de SER os sentimentos. Podemos compreender que não somos apenas uma sensação. A sensação faz parte de nosso processo de purificação.

A falta de contato conosco cria a sensação de solidão e isolamento. O prazer de estar consigo mesmo cria a disponibilidade para estar com o outro.

Quando os sentimentos desagradáveis surgirem, lembre-se de que você tem a oportunidade de purificá-los ao invés de suprimi-los, negando-os. Dedique um pouco mais de tempo a aceitar o que estiver aflorando em sua mente. Torne-se uma testemunha ativo de seu processo, respirando as emoções sem contrariá-las. Deixe a emoção surgir, aumentar e se dissipar por si mesma. Não lute, nem controle.

“Não é preciso reagir, tudo está bem”.


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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